O Palácio do Planalto ocupa o centro da campanha, mas, na tela da urna, boa parte do poder será decidida antes do voto para presidente. Em 4 de outubro, os brasileiros escolherão os 513 deputados federais e renovarão 54 das 81 cadeiras do Senado. São 567 mandatos em disputa no Congresso Nacional.

A composição das duas Casas determinará as condições políticas de quem governará o país pelos quatro anos seguintes. Um presidente pode vencer nas urnas e encontrar uma maioria resistente ao seu programa. Também pode formar uma base capaz de acelerar projetos, controlar a agenda legislativa e sustentar o governo nos momentos de crise.

Temas que já atravessam a campanha, como segurança pública, jornada de trabalho, tributação e direitos sociais, dependerão desse equilíbrio. Propostas de emenda à Constituição precisam do apoio de pelo menos 308 deputados e 49 senadores, em duas votações em cada Casa.

A força de quem já está na Câmara

Na Câmara dos Deputados, todas as cadeiras estarão formalmente abertas, mas a disputa começa sob o peso de quem já ocupa o cargo. Dos 513 parlamentares em exercício, 434 registraram candidatura à reeleição. São aproximadamente 85% da Casa tentando permanecer por mais quatro anos.

Deputados em busca de um novo mandato chegam à campanha com maior exposição pública, bases municipais organizadas e relações construídas com prefeitos e lideranças locais. A execução de emendas parlamentares também reforça a presença dos atuais congressistas em seus redutos eleitorais.

Isso não impede a renovação, mas torna a competição desigual. Na eleição proporcional, o desempenho individual não explica sozinho o resultado. Os votos recebidos pelos candidatos e pelas legendas determinam quantas cadeiras cada partido ou federação conquistará.

Uma votação expressiva pode ajudar a eleger outros nomes da mesma chapa. No sentido inverso, um candidato bem votado pode ficar de fora se seu partido não alcançar força suficiente. A corrida pela Câmara é, portanto, uma disputa simultânea entre candidatos, legendas e projetos de poder.

O tamanho das bancadas determinará quem comandará comissões, quem terá prioridade na distribuição de relatorias e quais grupos conseguirão impor ou bloquear votações.

Dois votos e 54 cadeiras

É no Senado que a eleição legislativa adquire contornos mais imprevisíveis. Dois terços da Casa serão renovados de uma só vez, situação que ocorre a cada oito anos. Cada estado e o Distrito Federal escolherão dois representantes, ambos com mandato até 2035.

Ao todo, 314 candidatos apresentaram pedidos de registro para disputar as 54 vagas, média de 5,8 concorrentes por cadeira. Entre eles estão 32 senadores em exercício que tentam renovar seus mandatos.

O PL lançou 33 candidaturas, distribuídas por 25 unidades da Federação. MDB e PT registraram 19 nomes cada. A participação feminina permanece reduzida. Embora as mulheres sejam maioria no eleitorado, apenas 69 das 314 candidaturas ao Senado são femininas, o equivalente a 22% do total.

Cada eleitor terá direito a dois votos, e os dois candidatos mais votados serão eleitos. Esse mecanismo obriga os partidos a pensar não apenas em candidaturas individuais, mas também em dobradinhas capazes de conquistar as duas escolhas do eleitor. Uma legenda pode eleger os dois senadores de um estado e ampliar rapidamente sua bancada nacional.

O Senado compartilha com a Câmara a elaboração das leis e a fiscalização do Executivo, mas possui atribuições próprias que explicam a prioridade dada à eleição. Cabe aos senadores aprovar indicações para o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Banco Central, embaixadas e outros postos estratégicos. A Casa também processa e julga autoridades por crimes de responsabilidade.

Uma mudança de poucas cadeiras pode alterar o equilíbrio entre governo, oposição e centro político. Como a disputa é estadual, as alianças nacionais nem sempre se reproduzem nos palanques locais. Partidos que caminham juntos na eleição presidencial podem concorrer entre si pelo Senado, enquanto adversários em Brasília podem integrar uma mesma coligação estadual.

As pesquisas também exigem cuidado. Alguns institutos permitem que cada entrevistado escolha dois candidatos e apresentam a soma das respostas, fazendo o resultado ultrapassar 100%. Outros consolidam os dois votos numa escala única. Os números servem para comparar candidatos dentro de cada levantamento, mas não permitem montar um ranking nacional.

O maior colégio eleitoral em disputa

Em São Paulo, o campo apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a corrida com Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) nas duas primeiras posições. Pesquisa Meio/Ideia divulgada em 10 de agosto mostrou Tebet com 27% e Marina com 23%.

A vantagem ainda não representa uma definição. Guilherme Derrite (PP) aparece com 19,4%, André do Prado (PL) com 19% e Ricardo Salles (Novo) com 16,4%. Com três candidaturas competitivas à direita, o desempenho dos palanques presidenciais e estaduais será decisivo para saber se o eleitorado concentrará os dois votos ou dividirá suas escolhas entre campos políticos diferentes.

Tebet e Marina iniciaram a campanha ao lado de Fernando Haddad, candidato do PT ao governo paulista. Derrite e André do Prado procuram transformar a força estadual do campo conservador em votos para o Senado, enquanto Salles tenta ocupar uma faixa própria do eleitorado de direita.

A disputa paulista tem impacto nacional. O estado concentra mais de um quinto do eleitorado brasileiro e costuma oferecer estrutura, visibilidade e projeção política aos seus representantes.

No Rio, a ordem muda conforme a pesquisa

O Rio de Janeiro apresenta outro cenário aberto. Benedita da Silva (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos) aparecem nas primeiras posições, mas alternam a liderança conforme o instituto.

No Paraná Pesquisas, Benedita registrou 29,8% e Crivella, 25,4%, resultado considerado empate técnico. Pedro Paulo (PSD) apareceu em terceiro, com 17,2%. Em levantamento da Real Time Big Data, Crivella surgiu numericamente à frente de Benedita, com Carlos Portinho (PL) e Pedro Paulo no grupo seguinte.

O estado ainda reúne candidaturas como as de Carlos Jordy (PL) e Mônica Benício (PSOL). A quantidade de nomes conhecidos fragmenta a corrida e amplia a importância do segundo voto. Mais do que liderar isoladamente, cada candidatura precisará demonstrar capacidade de aparecer como opção complementar para parcelas distintas do eleitorado.

Minas procura a segunda vaga

Em Minas Gerais, onde Belo Horizonte concentra os principais movimentos políticos de uma eleição estadualizada, Marília Campos (PT) iniciou a campanha em vantagem. A ex-prefeita de Contagem tinha 21% no levantamento Real Time Big Data divulgado no fim de julho.

A disputa pela segunda cadeira permanece aberta. Marcelo Aro (PP) aparecia com 14%, Carlos Viana (PSD) com 12%, Domingos Sávio (PL) com 9% e Áurea Carolina (PSOL) com 8%.

A pesquisa ainda testava Aécio Neves, que registrava 13%, mas o ex-governador não apresentou candidatura. Sua ausência retirou do tabuleiro um nome conhecido e liberou uma parcela relevante do eleitorado, tornando indispensável uma nova fotografia da corrida mineira.

Com 17 candidatos registrados, Minas possui uma das disputas mais fragmentadas do país. A extensão territorial, as diferenças regionais e o peso das redes municipais tornam o estado especialmente difícil para candidaturas sem estrutura fora da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A segunda cadeira vale ouro

Em Goiás, Gracinha Caiado (União Brasil) começa a campanha à frente. Pesquisa Quaest realizada no fim de julho registrou 20% para a candidata. O quadro torna-se mais acirrado logo abaixo: Vanderlan Cardoso (PSD) tinha 10%, enquanto Zacharias Calil (MDB) e Gustavo Gayer (PL) apareciam com 9% cada.

A primeira cadeira parece mais encaminhada, mas a segunda reúne projetos políticos distintos. Gracinha tenta transferir para sua candidatura a influência estadual do grupo de Ronaldo Caiado. Gayer procura mobilizar o eleitorado bolsonarista. Vanderlan aposta na estrutura construída durante o mandato, enquanto Zacharias Calil busca espaço numa faixa mais moderada.

O Ceará apresenta uma corrida ainda mais apertada. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 12 de agosto colocou Luizianne Lins (Rede) com 24%, Cid Gomes (PSB) com 23,7% e Capitão Wagner (União Brasil) com 21,7%. Os três estavam tecnicamente empatados para apenas duas vagas. Alcides Fernandes (PL), com 15,9%, tentava aproximar-se do grupo da frente.

O resultado cearense dependerá da coordenação dos dois votos. Luizianne e Cid ocupam campos próximos e podem beneficiar-se de uma dobradinha, mas também disputam parte do mesmo eleitorado. Capitão Wagner tenta romper essa composição e transformar a força acumulada em eleições anteriores numa cadeira no Senado.

Cinco nomes para duas vagas no Sul

Poucos estados sintetizam a imprevisibilidade da eleição como o Rio Grande do Sul. Levantamento do Paraná Pesquisas colocou Manuela d’Ávila (PSOL) com 30,7%, Marcel van Hattem (Novo) com 28,6% e Germano Rigotto (MDB) com 26,3%. Os três estavam tecnicamente empatados.

Paulo Pimenta (PT), com 23,7%, e Sanderson (PL), com 20,3%, completam um pelotão de cinco candidaturas conhecidas para apenas duas cadeiras. O confronto reúne esquerda, centro e direita numa disputa atravessada tanto pela polarização nacional quanto pelas alianças estaduais.

No Paraná, outra pesquisa divulgada no início da campanha mostrou Deltan Dallagnol com 34%, Alexandre Curi com 29,6%, Gleisi Hoffmann com 28,1% e Filipe Barros com 26%. Curi, Gleisi e Filipe estavam empatados dentro da margem de erro na corrida pela segunda vaga.

Os dois estados mostram como uma eleição com duas escolhas pode produzir resultados menos previsíveis do que uma disputa convencional. Liderar a pesquisa não basta. É preciso sobreviver à transferência do segundo voto, ao desempenho dos candidatos ao governo e à força dos palanques presidenciais.

A maioria será construída estado por estado

Os casos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Ceará, Rio Grande do Sul e Paraná não esgotam o mapa. Outras disputas permanecem abertas, especialmente onde há um candidato mais destacado e vários nomes separados por poucos pontos na corrida pela segunda cadeira.

A futura maioria do Senado será formada pela soma dessas batalhas locais. Nenhum resultado estadual, isoladamente, definirá o comando da Casa. Mas cada cadeira poderá aproximar ou afastar governo e oposição dos votos necessários para aprovar autoridades, reformas constitucionais e projetos considerados prioritários.

A eleição presidencial poderá seguir até o segundo turno, em 25 de outubro. A composição do Congresso, no entanto, estará decidida três semanas antes. Na noite de 4 de outubro, antes mesmo de o país saber quem ocupará o Planalto, já será possível medir o espaço político que as urnas reservaram ao próximo governo.