Colaborou Fernanda Otero, direto de Évian-les-Bains
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França, com uma agenda que coloca o Brasil no centro de algumas das principais disputas do mundo atual. Entre os dias 15 e 17 de junho, líderes das maiores economias ricas discutem guerra, energia, comércio, inteligência artificial, minerais críticos e financiamento ao desenvolvimento. O Brasil participa como convidado, mas leva ao encontro uma posição própria, construída em fóruns internacionais, nas relações com o Sul Global e na defesa de uma nova governança global.
Lula participa pela décima vez de uma reunião do G7. A presença recorrente do presidente brasileiro no fórum mostra a relevância do país em debates que já não cabem apenas na mesa das potências tradicionais. O Brasil preside articulações do Sul Global, integra os BRICS, sediará a COP30 em Belém e busca ampliar sua presença em negociações sobre clima, tecnologia, comércio, energia e segurança internacional. Em Évian, essa posição ganha peso em um momento de forte instabilidade.
Antes de embarcar, Lula resumiu o sentido político da viagem. Disse que decidiu participar da cúpula porque “é preciso alguém tentar colocar ordem na casa” diante do “desmonte do multilateralismo, da democracia e da desvalorização das instituições”.
Também defendeu a reconstrução da ONU como resposta à crise das instituições internacionais. “Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo, é reconstruindo a ONU”, afirmou.
A fala organiza a presença brasileira no G7. O governo Lula defende que a reorganização do poder mundial não pode ser conduzida apenas pelas economias ricas, pelas grandes potências militares ou pelas empresas que controlam plataformas digitais, algoritmos e infraestrutura de inteligência artificial. Para o Brasil, a governança global precisa incorporar os países em desenvolvimento nas decisões sobre paz, tecnologia, comércio, financiamento, energia e clima.
Além do Brasil, a cúpula convidou Índia, Quênia, Coreia do Sul e Egito. A ampliação da mesa sinaliza o reconhecimento de que os temas centrais do encontro dependem de países que concentram população, recursos naturais, mercados consumidores, biodiversidade e capacidade produtiva. A diferença, desta vez, é que o G7 se reúne sob pressão direta de crises simultâneas e de um ambiente internacional mais fragmentado.
O mundo chega tensionado ao G7
A reunião em Évian começou com parte da atenção voltada para fora do encontro. Às vésperas da cúpula, Donald Trump anunciou, em rede social, que um entendimento entre Estados Unidos e Irã estava concluído e que a circulação de petróleo pelo Estreito de Ormuz seria retomada. A declaração deslocou o noticiário internacional para o Golfo Pérsico antes mesmo da abertura formal das reuniões.
O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais sensíveis do comércio mundial de energia. Qualquer ameaça à navegação no corredor afeta preços do petróleo, cadeias produtivas, inflação e decisões econômicas em diferentes países. O anúncio de Trump foi recebido com alívio cauteloso por governos e mercados, mas ainda cercado de dúvidas sobre a extensão real do acordo, a segurança da navegação e o futuro do programa nuclear iraniano.
A apuração da Focus Brasil em Évian registra que o tema atravessou a chegada dos líderes e empurrou o G7 para uma postura defensiva. O anúncio norte-americano colocou no centro da semana uma questão que sintetiza a fragilidade da ordem internacional. Um corredor energético estratégico, uma guerra com impacto global, um acordo anunciado por rede social e uma mesa de líderes tentando medir seus efeitos.
A guerra na Ucrânia também voltou a impor gravidade à cúpula. Novos ataques russos atingiram cidades ucranianas na véspera do encontro, enquanto Volodymyr Zelenskyy cobrava dos líderes do G7 mais pressão sobre Moscou e reforço da defesa aérea. Em paralelo, protestos contra o G7 reuniram milhares de manifestantes em Genebra e terminaram em confronto com a polícia, com episódios de depredação e forte aparato de segurança.
Esse ambiente ajuda a explicar a importância de espaços multilaterais, mesmo quando suas limitações ficam evidentes. O G7 não resolve sozinho as crises que atravessam o mundo, mas reúne governos que ainda concentram poder financeiro, tecnológico, militar e comercial. Para o Brasil, participar desse debate é uma forma de disputar o conteúdo das decisões e defender que os países em desenvolvimento não sejam tratados apenas como território de extração, mercado consumidor ou zona de influência.
Lula e Trump diante da ordem global
A presença de Trump em Évian acrescenta outra camada à cúpula. O presidente dos Estados Unidos chega ao G7 depois de novas ameaças tarifárias e de uma política externa marcada por decisões unilaterais. O Brasil foi diretamente atingido por esse movimento. O governo norte-americano propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros em uma investigação comercial que também mira o Pix, a regulação das plataformas digitais e decisões soberanas do país.
A reação de Lula foi de afirmação nacional. O presidente brasileiro disse que o país buscará novos parceiros comerciais e que não aceitará pressões externas sobre escolhas internas. “O Brasil é dono do seu nariz. Este é um país democrático e soberano”, afirmou. A declaração dialoga com a viagem ao G7 porque coloca comércio, tecnologia e soberania no mesmo campo de disputa.
A diferença de abordagem entre Lula e Trump aparece no método. Trump opera com anúncios diretos, pressão tarifária e defesa explícita de interesses norte-americanos. Lula leva ao G7 uma agenda de reconstrução de instituições multilaterais, reforma da ONU, fortalecimento da OMC, regulação internacional da inteligência artificial e ampliação da voz do Sul Global. O contraste não é apenas de estilo. Ele expressa duas formas de lidar com um mundo em reacomodação.
Para o Brasil, a defesa do multilateralismo não é uma fórmula diplomática. Ela se relaciona à capacidade de proteger o Pix, regular plataformas, ampliar mercados, reduzir vulnerabilidades externas, atrair cooperação tecnológica e disputar regras mais equilibradas no comércio internacional. A soberania, nesse contexto, passa também pela capacidade de decidir como o país usa seus dados, seus recursos naturais e sua política de desenvolvimento.
A agenda brasileira em Évian
Antes da abertura formal dos debates, Lula realizou encontros bilaterais com o presidente da Suíça, Guy Parmelin, em Genebra, e com o presidente da França, Emmanuel Macron, em Évian-les-Bains. Com Parmelin, tratou da ampliação do comércio bilateral e da diversificação das exportações. Também discutiu o acordo entre Mercosul e EFTA, bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.
Com Macron, a conversa passou por cooperação bilateral, defesa, supercomputadores e integração entre a Guiana Francesa e o Amapá. O interesse francês em apoiar o Brasil na área de supercomputadores tem relação direta com a agenda de inteligência artificial, pesquisa e soberania tecnológica. O encontro também destacou o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, uma das principais frentes de cooperação estratégica entre os dois países.
Essas reuniões ajudam a mostrar que a presença brasileira no G7 não se limita ao discurso. O governo tenta transformar a cúpula em espaço de articulação concreta, com abertura de mercados, cooperação tecnológica, defesa de interesses comerciais e aproximação com parceiros estratégicos. Em um cenário de protecionismo e tensão comercial, a diversificação de relações externas é parte da política de soberania.
O Brasil também chega ao encontro com avanços recentes no comércio exterior. Em Genebra, poucos dias antes da cúpula, o país apresentou na Organização Mundial do Comércio resultados do Portal Único de Comércio Exterior. A integração de órgãos, a redução de prazos e a modernização dos procedimentos fazem parte de uma estratégia para melhorar a inserção brasileira no comércio internacional e reduzir custos para o setor produtivo.
Inteligência artificial, dados e poder
A inteligência artificial é um dos temas centrais da agenda de Lula no G7. A cúpula discute oportunidades e riscos da tecnologia, proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, infraestrutura e papel das grandes empresas do setor. Executivos de big techs e empresas de IA foram chamados para debates ligados ao encontro, o que evidencia o peso político dessas companhias na reorganização da economia global.
O governo brasileiro tem defendido que a regulação da inteligência artificial precisa ser construída em ambiente multilateral, com participação dos Estados e da sociedade. Em fevereiro, durante agenda na Índia, Lula afirmou que a IA deveria ficar sob responsabilidade de uma instituição “com o porte das Nações Unidas”, de modo a beneficiar a sociedade como um todo, e não “um ou dois donos”.
No G7, essa discussão ganha dimensão estratégica. O controle de dados, algoritmos e infraestrutura digital define quem terá capacidade de produzir conhecimento, prestar serviços públicos, proteger crianças, desenvolver sistemas de saúde e educação e participar das novas cadeias produtivas. Para países do Sul Global, o risco é repetir no mundo digital uma relação histórica de dependência, com dados extraídos de suas populações e valor econômico concentrado em empresas sediadas nos países ricos.
A apuração em Évian também mostra que a proteção de crianças e adolescentes entrou com força na agenda internacional. O Reino Unido anunciou medidas para restringir o acesso de menores de 16 anos a determinadas plataformas, com exigência de mecanismos de verificação de idade e possíveis limites ao uso de chatbots de IA. O tema dialoga com a posição brasileira de tratar o ambiente digital como espaço sujeito a regras públicas, especialmente quando envolve crianças, adolescentes, mulheres e grupos vulneráveis.
Para Lula, a inteligência artificial não pode ser vista apenas como inovação de mercado. Ela reorganiza trabalho, consumo, serviços públicos, segurança, educação, saúde e informação. Sem governança pública, tende a concentrar renda, poder e capacidade tecnológica. Com regras democráticas e cooperação internacional, pode ser incorporada a projetos de desenvolvimento, inclusão e melhoria dos serviços oferecidos à população.
Minerais críticos e desenvolvimento
Outro ponto sensível da cúpula é a disputa por minerais críticos. A transição energética, a indústria de semicondutores, baterias, carros elétricos, defesa e infraestrutura digital dependem de recursos que se tornaram estratégicos para as grandes potências. O G7 discute formas de reorganizar cadeias globais de suprimento e reduzir dependências externas. O Brasil entra nessa conversa com reservas relevantes e uma posição clara.
Segundo o Itamaraty, o país possui a segunda maior reserva de terras raras e minerais críticos do planeta. A posição brasileira é que essa riqueza não deve recolocar o país na condição de exportador primário sem agregação de valor. O governo defende que a exploração desses recursos esteja associada a industrialização, inovação, emprego qualificado, tecnologia e desenvolvimento regional.
O tema dialoga com a Nova Indústria Brasil e com a estratégia de transição ecológica do governo Lula. Recursos naturais, energia limpa, biodiversidade e capacidade científica podem sustentar um novo ciclo de desenvolvimento, desde que o país retenha parte relevante do valor gerado. No G7, a disputa por minerais críticos mostra como a tecnologia depende de território, energia, logística e decisões políticas.
Esse é um dos pontos em que a defesa brasileira da multipolaridade se torna mais concreta. Multipolaridade não significa apenas a existência de mais atores no sistema internacional. Significa também o direito dos países de decidir como usar seus recursos, como se inserir nas cadeias globais e como transformar vantagens naturais em desenvolvimento produtivo e social.
O Sul Global na mesa das decisões
A principal mensagem de Lula ao G7 é que a governança global precisa incorporar os países que ficam fora das decisões, mas sofrem seus efeitos. Guerras elevam energia e alimentos. Tarifas reorganizam mercados. A falta de financiamento climático compromete adaptação e proteção ambiental. A concentração tecnológica amplia dependências. A dívida limita políticas públicas em países em desenvolvimento.
Por isso, o Brasil pretende cobrar a ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento, mecanismo pelo qual países industrializados financiam ações de bem-estar e desenvolvimento econômico em países vulneráveis. Segundo o Itamaraty, esses valores caíram nos últimos anos, o que aumenta a preocupação entre economias em desenvolvimento.
A defesa do Sul Global, na agenda brasileira, não aparece como gesto retórico. Ela se expressa na cobrança por financiamento, na defesa da reforma da ONU, no fortalecimento da OMC, na regulação da inteligência artificial, na agregação de valor aos minerais críticos e na busca por comércio mais equilibrado. Em Évian, Lula tenta ligar esses temas sob uma mesma estratégia.
O G7 discute como proteger cadeias produtivas, conter guerras, garantir energia, regular tecnologia e preservar influência. O Brasil leva ao encontro a defesa de que essas decisões não podem ficar restritas ao núcleo tradicional do poder mundial. A disputa envolve regras, recursos, dados, mercados e instituições. É nesse terreno que Lula tenta afirmar o papel do Brasil como voz de soberania, desenvolvimento e multipolaridade.
