Em um ano eleitoral marcado pela disputa nas redes, pela circulação de desinformação e pelo uso frequente da religião como linguagem de mobilização política, uma nova cartilha voltada a cristãos propõe recolocar o voto no campo da consciência, da responsabilidade pública e do compromisso democrático.
O material discute polarização, fake news, participação cidadã e os limites entre presença religiosa no debate público e instrumentalização da fé.
A publicação foi lançada pelo Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Sul 2), que reúne dioceses da Igreja Católica no Paraná. Com o tema “A Política Melhor e a Cultura do Encontro” e o lema “Para que todos sejam um” (Jo 17,21), a edição de 2026 chega a menos de quatro meses do primeiro turno das eleições gerais, marcado para 4 de outubro.
Editada em todos os anos eleitorais desde 2008, a cartilha se apresenta como um subsídio apartidário, voltado a eleitores, candidatos, comunidades, grupos pastorais e meios de comunicação. O objetivo, segundo a apresentação do material, é contribuir para a formação de uma consciência política saudável e incentivar uma participação responsável no processo eleitoral. O texto não indica nomes, partidos ou ideologias.
Formação política sem indicação de candidatos
A cartilha reafirma uma posição já consolidada da Igreja Católica: orientar não significa indicar candidatos, partidos ou projetos eleitorais. O foco está na formação do eleitor e na defesa de critérios éticos para a participação na vida pública.
Ao tratar do papel dos cristãos no processo eleitoral, o texto defende o engajamento consciente e combate a ideia de que a política deve ser simplesmente rejeitada. A publicação também apresenta critérios legais para candidatura e reconhece a participação de leigos e leigas na disputa por cargos públicos, desde que esse envolvimento esteja vinculado ao compromisso com o bem comum.
Um dos pontos centrais da edição é a crítica à radicalização do debate político. Ao abordar a diferença entre adversários e inimigos, a cartilha busca reagir ao ambiente de hostilidade que tem marcado disputas eleitorais no país. A proposta é recolocar a política no terreno do confronto de ideias e projetos, e não da destruição moral do outro. Nesse sentido, o material se alinha à noção de “cultura do encontro” como caminho para o diálogo e a convivência democrática.
Religião, Estado e desinformação
A publicação também dedica espaço aos riscos da instrumentalização religiosa da política. Entre os temas abordados está a chamada “teologia do domínio”, apresentada no material como um uso da religião para justificar o controle da vida pública e a imposição de doutrinas ao conjunto da sociedade.
Ao demarcar essa posição, a cartilha distingue a presença ética dos cristãos no debate público de qualquer tentativa de captura religiosa do Estado. A orientação apresentada é iluminar a realidade social com base em valores cristãos, sem suprimir a liberdade de consciência dos cidadãos nem transformar a fé em ferramenta de imposição política.
Outro eixo da publicação é o combate à desinformação, com alerta sobre o risco da circulação de conteúdos falsos ou enganosos, especialmente em aplicativos de mensagens e redes sociais. O material propõe cuidados básicos de verificação e chama a atenção para a responsabilidade de quem compartilha informações sem checar a origem.
A edição de 2026 tem 24 páginas e está dividida em três partes: a relação entre Igreja e política; os aspectos técnicos das eleições gerais; e uma reflexão sobre a política como expressão do encontro e do bem comum. Ao fim de cada seção, o texto propõe perguntas para debate em grupo.
Além da cartilha, o Regional Sul 2 anunciou uma série semanal de podcasts a partir de 30 de julho, com o objetivo de aprofundar os temas abordados no subsídio. O material pode ser adquirido no site da CNBB Sul 2, responsável pela distribuição e pela venda.
