O poema novo é dos insurgentes.
Surde, subterrâneo
e somente eles o escutam.
Não parece poema, parece
que todos podem escrevê-lo
mas não o escrevem
nem o escreverão nunca.
Não tem cabeça e pé
princípio ou fim definidos
mas não são sem pé nem cabeça.
Tem peito, plexo solar, e dois
dedos de prosa quebrados.
Só vai ser poesia, depois.
Quando muitos o terão lido
relido e estabelecido.
Armando Freitas Filho, poeta e ensaísta, começou seu itinerário no seio da vanguarda Praxis. De lá para cá, muito escreveu, publicou, mudou e foi evoluindo. Sua arte é elaborada e, depreende-se, muito pensada, originária da oficina de um poeta culto, habituado a conviver com a mais alta poesia advinda da inspiração de seus confrades. Filia-se voluntariamente a um certo legado, dialogando com Drummond, Bandeira e João Cabral. Já viram a luz uma vintena de seus livros, desde o primeiro, Palavra, até o último: Dever (2013). Anteriormente, Máquina de Escrever reunira toda a sua produção até 2003. Já foi agraciado com os mais prestigiosos prêmios do país. Profissionalmente, trabalhou sempre em órgãos ligados à cultura, como a Casa de Rui Barbosa, a Biblioteca Nacional e a Funarte. É o guardião e organizador da obra de Ana Cristina César, outra poeta de escol a quem o unia grande amizade. O poema selecionado para esta edição dedica-se a uma meditação sobre o que é poesia
