Maria de Jesus dos Santos Lima, conhecida como Claudinha Lima, é uma das vozes que hoje integram a Comissão Executiva Nacional e o Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores. À frente da Secretaria Nacional de Nucleação, ela assumiu uma das missões mais simbólicas e urgentes da atual gestão petista, liderada por Edinho Silva: reconstruir o elo entre o partido e as bases, resgatando aquilo que esteve no coração da fundação do PT, nos anos 1980, os núcleos de base.

Foram os núcleos agrários, sindicais, religiosos, estudantis, das comunidades eclesiais de base e do chão de fábrica que deram ao PT seu enraizamento social e o transformaram em um partido nascido de baixo para cima. Com o tempo, porém, essa capilaridade foi se perdendo.

A chegada ao governo levou quadros de base às máquinas administrativas, os grandes sindicatos operários se esvaziaram diante da uberização e da pejotização, e o espaço deixado nos territórios acabou, em boa parte, ocupado pelas igrejas neopentecostais e, em muitos casos, pelo próprio crime organizado.

Para Claudinha, o PT é um partido “vocacionado ao poder”, já que “a nossa construção sempre esteve ligada à disputa do poder e ao espaço da democracia representativa”. A secretária pondera, no entanto, que essa característica “não deveria resultar do nosso afastamento dos territórios”.

“É evidente, e real, que ao longo de todos esses anos os governos do PT mudaram a realidade da vida do povo. Mas também é uma realidade que, embora tenhamos mudado a vida do povo, não conquistamos corações e mentes”, avalia.

É justamente essa lacuna que Claudinha se propõe a enfrentar. Nesta entrevista, ela fala sobre a importância histórica da nucleação, por que ela se perdeu, o que muda no PT com sua retomada e como reconstruir a presença do partido junto às bases, no Brasil e entre a militância espalhada pelo mundo. Também explica que a meta do seu mandato é chegar a 10 mil núcleos de base até 2029.

Como foi a sua chegada ao PT e como chegou à Secretaria Nacional de Nucleação?

Eu sou filiada ao PT desde os meus 16 anos. Entrei no partido através do movimento sindical rural; sou sindicalista, e do movimento de mulheres, que foi a minha base de construção como mulher, como feminista e como defensora da pauta das mulheres e dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Ocupei vários cargos na direção estadual do PT do Pará. Fui da Executiva Estadual, da Secretaria-Geral e da Secretaria de Finanças. Essa construção me levou à Executiva Nacional do PT. Após passar pelo Diretório Nacional, assumo a Secretaria de Nucleação, que representa um grande desafio para a reconstrução e o fortalecimento do partido nos próximos 46 anos, ela nos coloca na perspectiva de fazer com que o PT retome sua atuação nos territórios, retome o trabalho de base. Porque, como diz o nosso presidente Edinho, é a nossa volta ao território que vai fazer o partido continuar sendo forte, vivo e perene na sociedade brasileira, e seguir sendo o maior partido da América Latina.

O que está sob a sua responsabilidade? O que significa, na prática, a Secretaria de Nucleação?

Embora os núcleos de base não sejam uma novidade no PT — nós nos constituímos a partir deles na década de 1980, das comunidades eclesiais de base, das igrejas, do chão de fábrica —, ao longo do tempo, pela nossa própria luta histórica para ocupar espaços nos governos municipais, estaduais e no governo central, a gente foi buscando outros caminhos.

O trabalho de base é parte da construção e da disputa estratégica do partido. E isso a gente vem sendo cobrado, inclusive pelos movimentos sociais, há bastante tempo: de que o PT se afastou da base, de que o PT não dialoga mais com a base. Eu, inclusive, tenho uma certa divergência sobre esse argumento, porque nós continuamos na base, nós moramos no território, nós vivemos em cada lugar. Porém, é verdade que hoje temos dificuldade em dialogar com as pessoas que estão no território.

Basta ver tudo o que o presidente Lula vem fazendo nesses três anos de reconstrução do país. E, mesmo assim, muitas vezes a gente não consegue dialogar diretamente com as pessoas que são beneficiárias das políticas do nosso governo. Isso demonstra uma dificuldade real do partido em dialogar com a sociedade.

O que mudou, na retomada da Secretaria, em relação ao modelo original? Como é feita essa nucleação hoje?

No começo eram nove pessoas, agora são cinco. Nessa perspectiva de atualizar a forma como dialogamos com a sociedade e no território, se você tem cinco pessoas numa rua, na escola, na universidade, no local de trabalho que querem discutir política de esquerda, projetos de desenvolvimento, melhorias na vida do povo — sejam elas filiadas ou não ao PT —, já é possível construir um núcleo.

E isso é importante: você não precisa ser filiado para participar de um núcleo, o núcleo é a porta de entrada para o PT. A pessoa pode estar ali sem ser filiada e, a partir dessa experiência, decidir se quer vir para as fileiras do partido ou se prefere continuar votando no PT e construindo o partido sem vínculo formal.

Depois, o núcleo precisa definir uma coordenação, que chamamos de secretário ou secretária do núcleo. E por que não “presidente”? Porque o PT é um partido vertical, com a referência da nossa presidência como principal coordenação e liderança política, mas o núcleo trabalha de forma horizontal. O papel do secretário ou secretária é coordenar as agendas e promover o intercâmbio entre as direções municipal, estadual e nacional. Porque nós não queremos construir um número de cadastro — queremos núcleos ativos no território, com agenda organizada a partir da realidade de cada lugar: um café com as pessoas do bairro, uma panfletagem, uma roda de conversa sobre a realidade daquela rua.

Nós aprovamos, na primeira parte do VIII Congresso, essa formatação inicial da nucleação. Então, já está recomendado e definido: para formar um núcleo, cinco pessoas, cadastro no SISFIL, indicação de um coordenador ou coordenadora, grupo de WhatsApp e uma agenda ativa que dialogue com o PT nacional e estadual, isso já está alinhado.

O que vamos discutir em 2027, na segunda parte do Congresso, é o papel do núcleo como instância partidária. Hoje o PT tem direção nacional, estadual, municipal e zonal. Precisamos definir como o núcleo se incorpora a isso: qual é o seu papel na decisão eleitoral, no PED, se poderá tirar representantes para os congressos e encontros nacionais. Essas questões mais internas da organicidade partidária ficaram para 2027.

Então o núcleo hoje está mais aberto ao ativismo individual e à liderança que surge do próprio território?

Essa é a ideia, mas a principal perspectiva do núcleo é alcançar aquela pessoa que hoje não dialoga, que não consegue chegar ao diretório municipal, à zonal, no caso das capitais, que não consegue dialogar com um mandato parlamentar do PT, mas que quer conversar sobre política, esse é o nosso público principal.

Como essas demandas chegam à Secretaria? Como se organiza esse fluxo?

O núcleo realiza o cadastro no nosso sistema de filiação, o SISFIL, que possui um link específico para isso. O coordenador cadastra o núcleo, que precisa ter um grupo de WhatsApp é por ali que construímos a comunicação direta entre o núcleo e a Secretaria Nacional de Nucleação. A partir daí, acompanhamos as atividades e alimentamos o núcleo com as informações do PT, como por exemplo, o “Pode Espalhar”, com os porta-vozes do Lula. O núcleo, por sua vez, traz à Secretaria as informações do território.

A nossa perspectiva é que essas necessidades reais das pessoas se transformem em política dentro do partido e também dentro do nosso governo. Porque hoje muitas políticas do governo são importantíssimas, mas, infelizmente, nem sempre dialogam com as necessidades reais das pessoas; esse é o nosso principal objetivo.

Houve um período de esvaziamento dos núcleos. A chegada do partido ao poder, a ida de lideranças de base para cargos de governo e o avanço das igrejas neopentecostais ajudam a explicar esse processo?

Nós nascemos como um partido vocacionado para o poder, um partido político de disputa da democracia representativa. Isso é a nossa principalidade e não deveria ter resultado na nossa saída dos territórios, mas é real que, durante todos os governos do PT, nós mudamos a vida do povo, sem conseguir, entretanto, conquistar corações e mentes. O próprio presidente Lula diz muito sobre isso: é preciso voltar a olhar nos olhos das pessoas.

Os núcleos falam exatamente sobre isso. O PT chegou ao poder central, governou muitos municípios e estados, mas hoje estamos em menos estados do que já governamos. Mudamos a vida das pessoas, mas deixamos de disputá-las no território. Por que o neopentecostalismo ocupou esse espaço? Porque quando uma mãe vê o filho se perder para o mundo do crime, ela não nos encontra no território — ela encontra o pastor. Quando ela precisa de um médico, de uma consulta, de uma cesta básica, ela não nos encontra mais — encontra o pastor. As pessoas vivem a vida real, e é a quem as ampara no momento mais difícil que elas dedicam sua gratidão, precisamos ter essa compreensão.

Não podemos negar que o PT é o partido que mais governou o país e o mais reconhecido pela população, mas é verdade que deixamos de ser o lugar que as pessoas procuram quando precisam resolver suas necessidades reais. E esse espaço foi tomado pelas igrejas e, em muitos casos, infelizmente, pelo crime organizado. Na política, assim como no território, não existe espaço vazio: se alguém sai, o outro ocupa. Nosso desafio é reocupar o território que sempre foi nosso.

Como a nucleação dialoga com pautas de mulheres, LGBTQIAPN+, população negra e juventude sem se confundir com as secretarias setoriais?

Essa é uma das coisas que vamos ter que ajustar. Hoje o PT tem secretarias e setoriais que cuidam da sociedade organizada por segmentos: a Secretaria de Mulheres cuida da pauta feminista, da pauta e das lutas das mulheres, temos a Secretaria LGBT, a de Meio Ambiente, a Sindical. São secretarias e setoriais com pautas específicas, voltadas aos movimentos sociais já organizados em suas respectivas categorias.

A nucleação vem de outra perspectiva: como atingir aquelas pessoas e aqueles lugares que não estão organizados em lugar nenhum é um desafio muito maior. Nosso principal desafio é dialogar com uma juventude que, às vezes, a gente nem entende o vocabulário; com mulheres que não estão organizadas em nenhum movimento; com homens, com LGBTs que não se sentem parte de nenhum grupo. Essas pessoas não estão nas secretarias setoriais, não dialogam com nenhum mandato, não conseguem chegar às direções municipais, porque, infelizmente, muitos diretórios municipais do PT não são acessíveis. O papel da nucleação é exatamente trazer quem hoje não consegue discutir política nem pautar suas necessidades em lugar nenhum do PT. O desafio não é pequeno.

A nucleação terá agenda própria para além do período eleitoral?

Quando assumimos, em agosto de 2025, fomos aos arquivos do partido procurar o que tínhamos sobre núcleos de base. E, embora tenham sido a estratégia central do PT nos anos 1980, temos pouquíssima literatura interna sobre a organização de núcleos. Então começamos pela parte teórica: o que é um núcleo.

Só tínhamos Secretaria Estadual de Nucleação no estado São Paulo. É impossível construir núcleos sem uma rede de dirigentes no país, nosso primeiro trabalho foi criar essas secretarias estaduais. Hoje temos 16 estados com Secretaria de Nucleação, e o desafio de alcançar os demais. Trabalhamos em forte integração com a Secretaria de Organização, com o secretário nacional Laércio, e com a Secretaria de Movimentos Populares, com a Lucinha, que coordena os setoriais, porque a nucleação perpassa todas essas áreas.

Apresentamos o Plano Nacional de Nucleação e o Sistema Nacional de Nucleação, lançado no aniversário do PT, em Salvador, e, no Congresso, lançamos a plataforma de nucleação, nossa inclusão no sistema interno do partido, porque nem isso existia, e esse foi um primeiro trabalho que realizamos que envolveu outros dirigentes partidários. Agora estamos executando: primeiro, resgatando o que já tínhamos. O PT tinha muitos núcleos, mas desarticulados: as pessoas criavam seus núcleos e depois não tinham com quem dialogar, não tinham informação do partido, e isso gerava desânimo. Por que criar um núcleo se não há ressonância no partido?

Só para se ter uma ideia, tínhamos um cadastro de mais de 8 mil núcleos e comitês. Estamos num processo de busca ativa, junto com a Fundação Perseu Abramo e o Instituto Lula, para resgatar o que existe e identificar o que precisa ser reconstruído, fazemos as duas coisas ao mesmo tempo. Nossa perspectiva é que, a partir de 2027, esses núcleos, que agora também se constituem para a campanha, se transformem em núcleos permanentes de construção, organização e formação partidária: o primeiro lugar de acolhimento de quem quer vir para o PT e não encontra a porta de entrada, e um espaço para ecoar as faltas reais da sociedade.

Como a Secretaria de Nucleação dialoga com os núcleos do PT no exterior? Há projeto de expansão?

Já realizamos três atividades com núcleos do exterior, coordenadas pela Secretaria de Relações Internacionais, em parceria com a Secretaria de Nucleação, é um processo de muita integração. Os núcleos do exterior continuarão sob a coordenação da Secretaria de Relações Internacionais, porque é o papel dela dialogar com o PT e com a sociedade internaciona,  mas numa integração com a nucleação, assim como já fazemos com as secretarias de Organização, Movimentos Populares e Formação.

A expansão e o fortalecimento desses núcleos seguem sob a Secretaria de Relações Internacionais, articulados conosco, num processo de aprendizado mútuo. Inclusive porque as experiências já implementadas lá fora podem servir de base para a construção da nucleação aqui no Brasil.

Que partido a senhora espera deixar ao fim do seu mandato, daqui a quatro anos?

Como dissemos no nosso plano: 10 mil núcleos pelo país, para a construção, o fortalecimento e o enraizamento do PT no território brasileiro. Se, ao final do mandato, conseguirmos ter secretarias estaduais e municipais de nucleação em todo o país e alcançar essa meta de 10 mil núcleos organizados, construindo PT em cada lugar, integrados também com a comunidade internacional, teremos um partido for e e perene pelos próximos 46 anos.

Foto: PT/Divulgação

A Secretaria de Nucleação: da experiência paulista ao desafio nacional

A retomada da nucleação não nasce do zero. Ela recupera uma aposta que Edinho Silva já havia colocado em prática quando presidiu o PT de São Paulo, entre 2007 e 2013, ao recriar, depois de décadas, a Secretaria Estadual de Nucleação, que deixou marcas importantes e realizou dois encontros, além de vídeos, cartilhas e formações pelo estado.

Iduigues Martins, então secretário de nucleação do período, lembra da experiência que chegou a articular cerca de 70 núcleos. Em um registro da II Plenária Estadual de Núcleos de Base, em 2009, ele defendia que a estrutura precisava ganhar caráter permanente e ser institucionalizada em todos os diretórios municipais, para não depender de esforços pessoais. 

Para ele, o desafio é justamente resgatar a importância dos núcleos e refletir sobre a forma que assumiriam hoje: se seguem sendo fundamentais, que configuração teriam diante das mudanças da sociedade e da própria organização social? E por que essa retomada agora, depois de tanto tempo? A resposta, segundo ele, passa pela necessidade de aprofundar o trabalho e voltar às bases, um debate que havia muito não se colocava no partido.

Hoje essa aposta é elevada à condição de prioridade nacional na gestão de Edinho à frente do PT, que completa um ano no dia 7 de julho, sob a máxima de que “é a volta ao território que vai manter o partido vivo”. E ela tem amparo no Estatuto do PT: o artigo 61 define os núcleos como agrupamentos de filiados organizados por local de moradia, trabalho, estudo ou tema, reconhecidos como “instrumentos fundamentais da organização partidária e de integração com os movimentos sociais”. 

Ao lado de Congresso, Encontros, Diretórios e Setoriais, figuram entre as instâncias oficiais do partido, conforme o artigo 16, enquanto os núcleos no exterior, previstos no artigo 62, se vinculam ao Diretório Nacional pela Secretaria de Relações Internacionais, moldura que dá o contorno da missão hoje conduzida por Claudinha Lima.