Com 10 milhões de habitantes e 112.492 quilômetros quadrados, Honduras é o segundo maior país da América Central.
As últimas eleições gerais no país foram realizadas em 30 de novembro de 2025. Segundo anunciou o Conselho Nacional Eleitoral, controlado pela direita, a candidata de esquerda, Rixi Moncada, do Partido Livre, ficou em terceiro lugar, com 19,9% dos votos. O direitista Salvador Nasralla, do Partido Liberal, teve 39,39%.
Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, de direita, obteve 40,27% dos votos e assumiu a Presidência da República em 27 de janeiro de 2026.
Contexto
A campanha eleitoral de 2025 em Honduras começou até mesmo antes da posse de Xiomara Castro, do Partido Libre (de esquerda), eleita em novembro de 2021.
Dos 128 deputados eleitos para aquela legislatura, o Livre tinha 50, dos quais metade vendeu-se à direita já em dezembro, apoiando para presidente da casa um candidato do bipartidarismo de direita (Partido Liberal e Partido Nacional, aliados permanentes desde o golpe de 2009).
Em meio ao impasse na eleição da Assembleia, onde se configuraram duas juntas diretivas, não se podia determinar quem era o titular da presidência da casa que deveria dar posse a Xiomara.
No dia 27 de janeiro de 2022, instantes antes de a nova presidenta fazer seu juramento, chegou uma juíza para fazer as honras da posse e cumprir o protocolo. Pois foi essa a condição que os Estados Unidos impuseram para enviar Kamala Harry, então vice-presidenta, à cerimônia. E até que a juíza chegasse, Kamala aguardou dentro de uma limousine no ginásio onde aconteciam os trabalhos.
Era o prenúncio de um período e de eleições gerais seguintes marcados por interferência principalmente dos Estados Unidos, tendo por seus agentes internos os partidos de direita e a elite financeira hondurenha.
O governo teve início enfrentando — já em março, abril e maio — a oposição dos Estados Unidos à proposta de reforma da lei de energia. Outras propostas importantes daquele primeiro trimestre do governo incluíam: a condenação do golpe de Estado; o reconhecimento do Acordo de Cartagena, que permitiu ao presidente Zelaya retornar a Honduras; o reconhecimento das vítimas do golpe e de suas famílias — especialmente daqueles que foram mortos — a fim de estabelecer um plano abrangente de apoio e assistência; a condenação da reeleição ilegal de Juan Orlando Hernández, que violou a Constituição; e a autorização para que a presidenta criasse a CICI (Comissão Internacional Independente de Inquérito) como órgão internacional de investigação sob os auspícios das Nações Unidas. Essas medidas — juntamente com a anistia para os perseguidos por motivos políticos após o golpe (incluindo aqueles haviam servido no governo do presidente Zelaya) — foram os primeiros projetos de lei enviados ao Congresso, e lá também o governo enfrentou oposição quase total. O governo não conseguiu implementar a CICI, pois as Nações Unidas impuseram milhares de condições. Essas condições exigiam reformas no Congresso, mas, no final das contas, o governo tinha como base 42 das 128 cadeiras.
“Os Estados Unidos sempre estiveram presentes — exercendo influência constante e, fundamentalmente, apoiando a oposição que enfrentamos durante a nossa gestão. Mas, pelo menos, conseguimos concluir o mandato, como diz o presidente Zelaya. O mandato dele não chegou ao fim, foi interrompido em junho de 2009. Nós conseguimos concluir o mandato de Xiomara. E o simples fato de terminar a gestão é considerado um sucesso. Com bons resultados — tanto em termos de indicadores macroeconômicos quanto em nível microeconômico. Resultados realmente muito bons”, declarou a ex-ministra e ex-candidata presidencial Rixi Moncada durante entrevista remota em 25 de julho de 2026.
Áudios traziam os planos de fraude eleitoral: ficou por isso mesmo
Nunca se investigou a fundo, tampouco alguém foi responsabilizado com relação a 26 gravações de áudio que chegaram ao conhecimento do conselheiro Marlon Ochoa, representante do Livre no Conselho Nacional Eleitoral (CNE) no exercício de suas funções oficiais no órgão. Os outros dois conselheiros do CNE são do bipartidarismo.
Segundo Rixi, os áudios continham um relato de como o establishment bipartidário da direita pretendia manipular o processo eleitoral. Eles alegavam que os representantes do Livre tentariam cometer fraudes ou impedir a realização das eleições, e detalhavam como gerenciariam o processo — desde os dias que antecediam a votação (incluindo a contratação de empresas para transmitir os resultados) até o dia da eleição propriamente dito e os dias subsequentes de transmissão dos resultados. Eles discutiam como os resultados seriam divulgados.
As gravações incluíam, afirma Rixi, declarações do presidente do Conselho Nacional Eleitoral, representantes do Partido Liberal e do Partido Nacional no Conselho, e a pessoa que atualmente é presidente do Congresso — o deputado Tomás Zambrano, líder da bancada do Partido Nacional —, bem como dirigentes do Partido Liberal. Também participavam os candidatos presidenciais Salvador Nasralla e Nasry “Tito” Asfura e alguns especialistas técnicos envolvidos no gerenciamento da transmissão dos resultados.
A ex-candidata presidencial afirma que eles mencionavam números específicos associados às antenas das operadoras de telefonia celular — os identificadores de cada antena que seria usada para transmitir os resultados.Considerava-se importante ter esses números das antenas para que, se necessário, pudessem bloquear a transmissão — não dentro do próprio sistema, mas via antenas; ter um mapa dos números das antenas era crucial para controlar a comunicação. Isso envolvia um setor do empresariado privado, já que a telefonia em Honduras é gerida por duas empresas — Claro e Tigo — que detêm as concessões; o serviço é totalmente privatizado.
As gravações foram apresentadas pelo conselheiro do Livre no CNE ao Ministério Público, que iniciou investigações, mas depois chegou uma ordem judicial solicitando os autos do processo, e as investigações foram interrompidas. O governo Xiomara nunca teve controle sobre o Congresso, a Suprema Corte ou o Ministério Público. E a campanha eleitoral seguiu como se nada tivesse acontecido.
“Esse plano [mencionado nos áudios] reconhecia que, segundo pesquisas independentes, eu estava vencendo a eleição, mas também estipulava que os resultados das seções eleitorais não seriam transmitidos com prioridade — em vez disso, os resultados do candidato do Partido Liberal seriam os primeiros a ser transmitidos e divulgados. Em outras palavras, pretendiam controlar o fluxo de informações na noite da eleição”, conta Rixi.
Nas gravações de áudio, segundo ela, nunca se falou na vitória de Nasry “Tito” Asfura (PN). Em vez disso, a discussão concentrava-se em como impedir que as atas de apuração de Rixi Moncada viessem a público e como mantê-las longe das mãos de Salvador Nasralla. O plano era garantir que Salvador Nasralla (PL) não vencesse. Esse era o plano: o que iriam divulgar na noite da eleição; como controlariam o sistema de transmissão de resultados e quais medidas tomariam em cada etapa. Tudo isso constava nas gravações de áudio feitas antes da eleição. No entanto, a investigação estagnou.
O deputado Zambrano veio a público negar que os áudios fossem legítimos. Para o ICN Digital, declarou em 29 de outubro de 2025: “São falsos, são adulterados, são manipulados e utilizaram inteligência artificial, porque nos áudios que apresentaram não sou eu, não é a minha voz”. Além disso, anunciou que solicitaram uma verificação pericial nacional e internacional sobre os áudios e que levariam a denúncia a outras instâncias.
Alegaram perseguição
Nesse momento, o establishment bipartidário — que detinha a presidência do órgão eleitoral por meio do Partido Liberal — começou a alegar que estava sendo perseguido, especificamente pelo Ministério Público. “Então eles se refugiaram em uma embaixada, que ninguém soube ao certo qual era, especula-se a da Argentina e a representação da União Europeia, mas sempre com o respaldo da Embaixada dos EUA, e era de lá que emitiam seus comunicados, e nunca mais voltaram às sedes do Conselho Nacional Eleitoral”.
Participavam via aplicativo Zoom de sessões em que decisões eram tomadas. Alegavam que isso era necessário para a segurança do Estado e a integridade do processo eleitoral, sustentando que o governo — por meio do Ministério Público — queria prender os membros do CEN para inviabilizar a eleição. “No entanto, isso era algo que jamais poderíamos ter feito, uma vez que o processo estava parado na Suprema Corte de Justiça”, explica Rixi.
Postagens de Trump
Mas a etapa mais relevante da interferência estadunidense se deu nos cinco dias prévios às eleições, quando, em Honduras, deve-se guardar silêncio eleitoral. Com destaque para a postagem do presidente Donald Trump na plataforma X, no dia 26 de novembro. Nessa mensagem, Trump conclamou o povo hondurenho a votar em Nasry “Tito” Asfura, afirmando que Rixi Moncada não poderia vencer porque era aliada de Nicolás Maduro. Ele argumentou que não se poderia entregar uma vitória a Nicolás Maduro permitindo que uma “narcocomunista” e admiradora de Fidel Castro ganhasse a eleição em Honduras. Ele insistiu que isso precisava ser impedido. Declarou que seu candidato era Nasry “Tito” Asfura — “alguém com quem ele poderia trabalhar, uma pessoa excepcional” — e que os Estados Unidos teriam um bom relacionamento e veriam uma governança eficaz sob a liderança dele.

“Eu diria que o impacto no partido e em nossa equipe de campanha foi positivo, considerando que faltavam apenas 72 horas para o pleito. O fato de ele ter publicado aquela mensagem sinalizou para nós que estávamos vencendo a eleição. Também confirmou os dados das pesquisas que mostravam minha candidatura à frente de Nasry “Tito” Asfura por 12 pontos e de Salvador Nasralla por três pontos”, avalia Rixi passados oito meses da eleição.
Duas pesquisas internacionais e uma nacional — com monitoramento diário — encomendadas pelo Livre indicavam a vitória de Rixi. “Então encaramos isso de forma positiva, pensando: ‘Eles estão desesperados, e Donald Trump está divulgando essa mensagem porque, obviamente, estamos ganhando a eleição’. “O que foi que não conseguimos perceber? Qual era o plano por trás da mensagem de Donald Trump? Assim que Donald Trump enviou aquela mensagem, começou uma guerra — uma avalanche de mensagens chegando aos celulares de milhões de eleitores”.
Rixi se refere ao fato de que chegavam mensagens SMS — aquele tipo de alerta que aparece na tela do celular — dizendo (tradução livre): As remessas não se podem perder; votar para que suas remessas cheguem é importante. Não vote por Rixi Moncada. #VocêElege. “Isso foi feito em larga escala. Quatro milhões de mensagens. De manhã, ao meio-dia e à tarde — começando logo após a publicação de Donald Trump. Mas não percebemos que isso estava acontecendo. Só vimos essas mensagens depois da eleição.Não percebemos que essas mensagens estavam chegando em massa. Ninguém nos avisou, simplesmente não notamos. É simples assim: não notamos”.
Ameaçar os votantes e as famílias hondurenhas de não receber remessas se mostraria um mecanismo de pressão dos mais eficientes. As remessas que hondurenhos que vivem no exterior (nos Estados Unidos são 2 milhões) representam atualmente quase 27% do PIB em Honduras. Em paralelo, a campanha para desgastar a imagem de Rixi Moncada seguia firme. Pelo menos quatro páginas online que já tinha destaque na campanha eleitoral repercutiram o assunto, usando a pior foto possível da candidata do Livre. “Eu também só vi essas páginas depois da eleição”.
Seu futuro está em jogo. Não vote na Rixi Moncada era a mensagem difundida numa enorme quantidade de conteúdo digital, incluindo vídeos no TikTok, que ainda diziam: As remessas serão canceladas, o TPS[1] será cancelado e as relações com os Estados Unidos serão cortadas. “Não houve silêncio eleitoral aqui, o silêncio eleitoral foi totalmente violado”, atesta Rixi.
Também depois da eleição,o Livre descobriu que as plataformas usadas por migrantes para enviar remessas (são 1,8 milhão de famílias receptoras e a população votante total é de 3,5 milhões) — vinculadas a operadoras de telefonia como Tigo e Claro — foram utilizadas para abordar os destinatários com informações específicas sobre suas seções e locais de votação. Mensagens foram enviadas em massa, segmentadas por local de votação, para as pessoas que recebiam remessas. “Tudo muito organizado. Era apenas uma mensagem de texto curta, de três linhas: Se você votar em Rixi Moncada, perderá sua remessa; a escolha é sua”. Os bancos teriam facilitado o acesso a essa base de dados. “Temos provas de que a mensagem continuava chegando aos celulares até o dia da eleição, domingo, dia 30, às 7h30 da manhã. Eles enviaram na quarta, quinta, sexta, sábado e domingo, o próprio dia da eleição”.
Enquanto o Livre seguia respeitando o silêncio eleitoral, mais de quatro milhões de mensagens foram enviadas aos eleitores e suas famílias pelos opositores. “Nem percebemos que as mensagens estavam chegando. Acreditamos que isso teve um impacto enorme e aterrorizou as famílias dos migrantes. Aterrorizou nossos eleitores no exterior porque envolvia o presidente dos Estados Unidos dizendo: ‘Não trabalharei com Rixi Moncada; trabalharei com um bandido’. E então a mensagem continuava chegando: A escolha é sua. E fizeram um vídeo com todos — ou quase todos — os TikTokers do país, com uma melodia cativante que repetia minha foto e dizia: Não faça isso. Não faça isso. Não marque”.
Rixi classifica a campanha da direita de “espetacular para eles”. “E nós não vimos isso chegar. Nós não vimos. É simples assim. Nós fomos… fomos ingênuos demais, respeitando o Estado de Direito, respeitando o período de silêncio eleitoral. Eu nem queria dar entrevistas porque dizia: ‘Estamos no período de silêncio e respeitamos as regras do sistema democrático’. E eles não respeitaram regra nenhuma. E não sabíamos que mensagens direcionadas estavam chegando a todos os cantos do país, tanto áreas urbanas quanto rurais, mas especialmente às 1,8 milhão de famílias que recebem remessas”.
Perdão de Trump
Embora inicialmente a aposta e o apoio da Casa Branca em Honduras fosse pelo candidato presidencial do Partido Liberal, Salvador Nasralla, ao final daquela mesma mensagem de 26 de novembro, Trump declara que “Nasralla não é um aliado confiável para a liberdade” e reitera o pedido de voto em “Tito”, do PN. “Consequentemente, o Partido Nacional — que não tinha força aqui — ganhou, de repente, um impulso enorme”.
A hipótese para essa mudança é que representantes da elite hondurenha, que tem por articulador-chave Juan Orlando Hernández, um aliado de Israel, tenham viajado a Washington durante a campanha para pleitear apoio a Asfura, do PN. Hernández é ex-presidente de Honduras e estava preso nos EUA condenado há 45 anos de prisão mais cinco de liberdade supervisionada por permitir o contrabando de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos. Ele só havia cumprido quatro anos, mas, pasmem, ganhou perdão de Trump. O presidente estadunidense anunciou a decisão na véspera da eleição hondurenha. Ele disse: “Quero informar ao povo hondurenho que decidi conceder um perdão total ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, a quem os democratas submeteram a um julgamento falho e a quem a esquerda hondurenha acusou injustamente”, e assim por diante. A previsão é que Hernández chegasse a Honduras no domingo, 26 de julho de 2026. “Ele é quem manda. Ele controla Nasry [Asfura], controla o Congresso e controla a segurança”.
“Pessoas que pretendiam votar — ou que estavam considerando mudar de comportamento para votar em nós — mudaram de ideia e alteraram seus votos. Em outras palavras, a eleição não foi livre. Como uma eleição pode ser livre nessas circunstâncias?”, avalia Rixi.
Rixi afirma que nunca testemunharam ou souberam depresença física de americanos nas reuniões que fazia a direita em Honduras, mas existia uma gestão direta por meio de ligações e mensagens enviadas pelos assessores; toda a estrutura nacional sentia-se protegida por uma blindagem — a blindagem do governo dos Estados Unidos. “É por isso que acredito que a intervenção de Donald Trump ocorreu na fase final: a elite foi aos Estados Unidos e disse: ‘Não é o Salvador Nasrallah — queremos apoio para Nasrallah, porque Salvador Nasralla é inaceitável, não pode ser ele. Queremos que seja Nasry Asfura, e isso pode ser feito da seguinte forma: já avaliamos a situação e a temos consolidada. Se vocês enviarem esta mensagem, nós enviaremos automaticamente uma mensagem a 1.800.000 famílias dizendo que Rixi vai tirar as remessas delas — o que terá um grande impacto psicológico — e faremos isso e aquilo… temos o banco de dados, temos as seções eleitorais’. Eles o convenceram — a elite hondurenha convenceu Donald Trump de que o candidato tinha de ser Nasry. E Nasry acabou sendo o candidato eleito — para a surpresa de todo o povo hondurenho. Pois, se você fizesse uma pesquisa em qualquer bairro ou distrito aqui em Honduras, encontraria sete pessoas contra ele para cada duas ou três a favor — afinal, tínhamos acabado de nos livrar deles em 2021; eles haviam permanecido no poder por 12 anos e 7 meses”.
Ambiente de medo
No dia da eleição, que costuma ser uma atividade festiva em Honduras, as pessoas iam às urnas com atitude de desconfiança, olhando em volta para ver se estavam sendo observadas, agindo com medo. “Normalmente, é um momento mais alegra, mais animado. É como quando alguém próximo está prestes a te trair, pensando: ‘Coitada, gosto dela, me importo com ela, sou grata a ela, mas não vou votar nela — não posso votar nela, simplesmente não posso, porque a minha remessa vem em primeiro lugar’. No fundo, era assim. É assim que vejo agora. A eleição passou, os resultados começaram a sair e houve um silêncio em todo o país. Sabe, ninguém saiu para comemorar nada. Era um silêncio — uma sensação de tristeza. Era… era como um cortejo fúnebre, e não era do Partido Libre. Nós éramos os que defendiam o processo, certo? Não, eram os partidos que estavam ganhando. Onde eles estavam, não havia aquela alegria, nenhuma comemoração; as pessoas também não estavam nas ruas — não. Foi como se as pessoas fechassem as portas. Elas foram votar, fecharam as portas e não saíram mais”.
Para Rixi, o ocorrido no último processo eleitoral foi o ataque imperial mais preciso que ela já viu na história das eleições hondurenhas. “O mais preciso, o mais refinado. Talvez o mais estratégico. O mais estratégico, o mais tático, o mais meticulosamente planejado — utilizando estatísticas e o banco de dados dos nossos migrantes. Veja, digo-lhe sinceramente: a capacidade que aquelas equipes de direita tiveram de conceber essa estratégia é algo que realmente nos falta. Somos muito emocionais; depositamos fé demais em nossos anúncios, acreditando que o povo responderá e reconhecerá as conquistas do governo. Nada disso importa na hora de votar. No dia da eleição, vi comunidades inteiras — comunidades que estavam alinhadas conosco — onde o resultado foi chocante. E, no dia seguinte, as pessoas se arrependiam, mas já era tarde demais”.
Impressão digital obrigatória foi suspensa
Legalmente, em Honduras, é obrigatória a exigência da impressão digital. Só depois de colocar o polegar no aparato de leitura e o sistema reconhecer é que o eleitor ou eleitora pode prosseguir à cabine de votação. No entanto, a exigência da impressão digital foi eliminada apenas um dia antes da eleição de novembro de 2025. Foi uma decisão tomada por dois votos a um durante a sessão plenária do Conselho Eleitoral no sábado, véspera do pleito. Os dois partidos de direita argumentaram que a exigência da impressão digital não deveria ser obrigatória, devido a falhas no fornecimento de energia em várias partes do país. Eles alegaram que o governo iria sabotar o processo, mas não houve apagões no país. Imediatamente após a decisão, o candidato Asfura enviou uma mensagem de texto, um SMS, sinalizando que tudo estava pronto. Nessa mensagem — também enviada durante o período de silêncio eleitoral, o candidato incentivava as pessoas a irem votar, afirmando que a leitura da impressão digital não era obrigatória. “Como resultado dessa mensagem, tivemos 400 mil eleitores que votaram, mas não constavam no registro de impressões digitais. Então, este é o segundo elemento forte — muito forte — envolvido em uma fraude sistêmica, abrangente e bem estruturada.”
A contagem e a transmissão
Já não bastasse toda essa fraude, durante a contagem de votos, o código-fonte do sistema eleitoral foi adulterado e alterado com autorização CNE, de novo por dois votos a um. Alegaram que havia um problema de transmissão e que, por isso era necessário ajuste no código-fonte.“Esse foi outro elemento chocante. Não temos sequer dados precisos sobre quantos votos foram alterados ou transferidos de um candidato para outro — isso exigiria uma investigação forense detalhada. Envolveria cruzar as atas oficiais de apuração com os resultados consolidados pelo sistema. No entanto, o que está devidamente documentado é que, durante o processo de apuração,aoperação foi interrompida por horas enquanto o código-fonte era modificado. Alegaram que havia um problema técnico. Nosso representante se opôs, mas a maioria votou por prosseguir com a alteração do código-fonte mesmo assim”.
Já era dia de Natal quando saiu o resultado final das eleições. “E com um fator adicional: o Conselho reconheceu que não conseguiu contabilizar todas as atas de apuração. Consequentemente, mais de mil atas da eleição presidencial não foram contabilizadas, mais de três mil da eleição legislativa e um número significativo das eleições para prefeito também. Elas simplesmente não foram contadas — o próprio conselho declarou que não podiam ser contabilizadas devido a todos os problemas que surgiram. Assim, acabaram dependendo exclusivamente dos resultados do sistema digital [cujo código-fonte foi adulterado]. E não houve uma contagem real das atas. Eles poderiam ter feito qualquer coisa. Está totalmente documentado — e admitido — que o código foi adulterado. A única explicação deles é que fizeram a alteração por motivos A, B e C. Mas como se pode alterar o código-fonte depois da noite da eleição? Sem auditoria? Sem qualquer supervisão? Afinal, trata-se de processos altamente técnicos. Então, como justificar isso? Não sei. Não há como acreditar que a alteração tenha sido feita com boas intenções — para garantir os resultados mais confiáveis e justos. O que concluo é que, apesar de toda a pressão exercida sobre a população — ameaças de perda de remessas financeiras, e assim por diante —, eles ainda não tinham certeza de que conseguiriam vencer. Por isso, precisaram manipular os resultados digitais. Para garantir o desfecho”. O desfecho nos mostra também que o Partido Libre acabou elegendo apenas três deputados ao Congresso. “Se todas as atas de apuração referentes aos deputados tivessem sido efetivamente contadas, não seriam as pessoas que estão atualmente no cargo que o ocupariam, seriam outras”.
O membro titular oficial do Partido Livre no Conselho Nacional Eleitoral apresentou, em 12 de dezembro de 2025, uma denúncia formal ao Ministério Público sobre cada um desses incidentes:a questão do código-fonte, a não contagem de todas as atas de apuração e a eliminação da verificação de impressões digitais; os disparos em massa. “Nós, como partido, também apresentamos uma denúncia referente à violação do período de silêncio eleitoral de cinco dias — especificamente devido à interferência estrangeira e ao envio de mais de quatro milhões de mensagens. Chegamos a apresentar as provas e o banco de dados utilizado para enviar essas mensagens, pois conseguimos obter esse banco de dados — que estava vinculado à seção eleitoral específica de cada eleitor. Conseguimos isso graças a colaboradores que confirmaram a ocorrência do fato. Além disso, esse banco de dados foi fornecido a empresas de telefonia e a bancos — especificamente aos bancos que lidam com remessas de valores. Dois bancos entregaram esse banco de dados. Portanto, trata-se de uma fraude sistêmica que envolve as forças da elite de poder de fato, a elite financeira e a elite das telecomunicações”.
O caso das mensagens em massa que informavam que as remessas estavam em risco é assim relatado pelo Livre ao Módulo de Recepção de Denúncias da Direção Geral do Ministério Público: Honduras é o país do mundo que mais depende de remessas dos Estados Unidos, as quais equivalem a 25,9% do PIB; 72 mil hondurenhos com TPS; ao redor de 1,8 milhão de hondurenhos vivendo nos Estados Unidos; e 109 mil hondurenhos deportados no ano de 2019 pelo [primeiro] governo de Donald Trump, e ante a referida coação realizada em cumplicidade com a empresa Tigo e a empresa Claro, ingerindo na vontade soberana do povo hondurenho para efeito de coagir o voto de cada um dos cidadãos a favor a favor do candidato do Partido Nacional de Honduras, ameaçando que o fato de votar pela candidata presidencial do Partido Liberdade e Refundação (Livre), advogada Rixi Moncada Godoy, incorreria na perda das remessas que lhes são enviadas por seus familiares ou amigos residentes nos Estados Unidos da América, ficando evidenciada a ingerência, intromissão, coação, ameaças e associação ilícita em que incorreram as empresas hoje denunciadas, as quais são tipificadas como delitos em nosso Direito Positivo vigente.
Rixi acusa que uma elite formada por banqueiros, a indústria de máquinas, e as de telecomunicações está unida, e agora controla o país. “Eles controlam as telecomunicações e a energia — o Estado hondurenho não controla a energia —, bem como o sistema bancário. Essa combinação, por si só, permite que gerenciem todas as informações do país. Além disso, contam com dois conselheiros no Conselho Nacional Eleitoral (CNE) que lhes garantem acesso a esses dados; esses conselheiros chegaram a estabelecer um canal direto de transmissão de dados para o próprio Partido Nacional, enviando informações brutas enquanto a apuração dos votos estava em andamento. Há também o setor de combustíveis — especificamente a importação de combustíveis e petróleo —, e isso, por si só, basta para assegurar o poder. O restante de nós também representa empresas privadas, mas pertencemos a uma categoria diferente; não estamos no mesmo patamar desses grupos que detêm, de fato, concessões e isenções fiscais. Foram essas pessoas que conduziram o processo e venceram a eleição — venceram com o apoio de Donald Trump e de Israel. Fatores importantes estiveram em jogo aqui, como o papel das igrejas — especificamente daquelas apoiadas e financiadas por Israel. Existe aqui um bloco de igrejas evangélicas financiadas por Israel; o embaixador de Israel em Honduras as convocou e se reuniu com elas para discutir ‘eleições livres’ e ‘a importância de barrar o comunismo’. Tudo isso foi de conhecimento público; não ocorreu a portas fechadas. As igrejas exerceram grande influência, especialmente aquelas financiadas por Israel”.
Embora Honduras seja um país de tradição católica, as igrejas evangélicas têm aumentado sua influência. “Para mim, a situação atual é de uma divisão de 50 a 50 [católicos e evangélicos].Honduras tem cerca de 20 mil igrejas evangélicas que exercem um enorme impacto e abordam os problemas fundamentais das pessoas. Qual é esse problema fundamental? Primeiro, há a esperança em Deus — a esperança de alcançar o Seu reino. Mesmo em meio às dificuldades materiais, elas acreditam que o reino dos céus pertence aos pobres e que o alcançarão; isso é o principal — é algo profundamente enraizado. Em segundo lugar, quando uma criança adoece ou um parente morre, a igreja está lá para ajudar; cria-se um vínculo — uma relação de dependência —, pois o membro da igreja é um amigo próximo, um vizinho da porta ao lado, pronto para resolver problemas, oferecer ajuda, dar um abraço e transmitir paz, dizendo: ‘Venha à igreja; vamos orar para que Deus cure a sua enfermidade’. Elas têm um impacto real”.
Consolidação da denúncia
Rixi planeja publicar brevemente um relatório contendo os dados que compartilhou. “Com nossas conclusões organizadas de forma mais sistemática — talvez até a segunda semana de setembro. É algo para a comunidade nacional e internacional ver, pois toda a região das Américas não está imune a esse tipo de fraude. Eles aperfeiçoaram seus métodos. Acredito que eles tenham suas próprias equipes de análise; nossas equipes, no entanto, atuam dentro da legalidade — respeitando as regras e o Estado democrático. Eles não; suas equipes de análise operam à margem das regras. No entanto, eles falam com você sobre regras. Eles usam a linguagem do sistema republicano e da democracia, mas não têm nenhum compromisso real com isso. Veja, por exemplo, o caso do prefeito do Distrito Central — a capital da República: se todas as atas de apuração tivessem sido contabilizadas, ele teria vencido a eleição, mas 223 atas ficaram de fora da contagem, fazendo com que ele perdesse. Ele apresentou uma queixa formal ao Judiciário — o caso está atualmente na Sala Constitucional da Suprema Corte —, mas, nesse meio-tempo, o outro candidato tomou posse sem que todos os votos tivessem sido apurados. Para nós, essa fraude é a mais escandalosa da história de Honduras”. O prefeito empossado já anunciou a privatização do abastecimento de água a favor de uma empresa israelense.
“Portanto, não devemos nos iludir quanto às forças do mercado; a oligarquia busca mercados, domínio e controle sobre os negócios, não o bem-estar do povo. Acredito que nós, da esquerda, em particular, devemos enfrentar o desafio de confrontar a direita usando as suas próprias ferramentas. Decidimos participar de processos eleitorais, quando entramos nos processos deles, na democracia e na lógica deles, respeitamos o Estado de Direito, ao passo que eles operam à margem dele”.
Mais interferência via X
Depois das eleições, Trump publica mais um post com relação a Honduras. Afirmou que quem havia vencido a eleição fora Nasry “Tito” Asfura e que o Conselho Nacional Eleitoral deveria declará-lo vencedor ou se armaria um “escândalo”.

Asfura tomou posse em 27 de janeiro de 2026 e já tomou medidas para favorecer Trump. “O povo hondurenho — tanto dentro quanto fora do nosso partido, ou seja, a sociedade hondurenha como um todo — não tem dúvidas de que Donald Trump controla a política do governo de Honduras. Em outras palavras, os Estados Unidos comandam tudo aqui. Comandam tudo — absolutamente todas as ações. Veja as ações iniciais: uma visita a Mar-a-Lago, a residência de Donald Trump; determinar a compra de medicamentos diretamente de empresas farmacêuticas dos EUA, ignorando o processo de licitação; o retorno de Honduras ao CIADI[2] — já que havíamos retirado o país do CIADI, aquele órgão de arbitragem ligado aos EUA; a expansão das bases militares dos EUA e a construção de uma no departamento insular de Islas de la Bahía; o retorno ao modelo das ZEDEs [Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico] — expandindo essas zonas econômicas especiais dentro do território hondurenho para criar mais empregos. As ZEDEs representam a entrega de território a um governo que opera fora da legislação hondurenha. Estão sendo entregues parcelas de terra. Tratava-se de uma reforma constitucional que o tribunal já havia declarado inconstitucional. Mesmo assim, ele insistiu em retomar as ZEDEs, alegando que eram um mecanismo de geração de empregos. Peter Thiel — o principal investidor (e um estrangeiro atualmente está na Argentina e que também influencia a comunicação sobre eleições em toda a região) está envolvido no projeto das ZEDEs. Enquanto isso, Donald Trump não prorrogou o TPS para os nossos migrantes. Ele está deportando o nosso povo todos os dias. O ICE[3] está atrás do nosso povo todos os dias e, anteontem, ele nos impôs uma tarifa de 10% sobre produtos que antes tinham tarifa zero. Portanto, não há dúvida de que ele está fazendo o que Donald Trump quer. Simplesmente não existimos como país aos olhos daquele presidente”.
Hondurasgate
Recentemente, outro escândalo se revelou em Honduras envolvendo gravações de áudio. Em colaboração com o Canal R(e)D América Latina, o site hondurasgate.ch publicou em abril 37 arquivos[4]. O vazamento indica que o indulto concedido pelo presidente Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández teria sido parte de uma operação internacional conduzida por Estados Unidos e Israel para transformar Honduras em um centro de operações da extrema direita na região.[5]
O honduragate.ch afirma: “Antes de publicar cada gravação, esta redação executa sobre o arquivo uma análise forense automatizada com Phonexia Voice Inspector”[6]. E o manual do operador atesta que: “Abaixo de 10% de probabilidade de IA e acima de 80% de confiança, o motor considera a amostra firmemente como voz humana”. Cada áudio publicado pelo site traz o gráfico dessas medições e outras informações técnicas sobre o respectivo arquivo.
Dessas gravações constariam também provas de que Juan Orlando Hernández comanda todo o atual governo. Além de áudios do ex-presidente também há gravações do atual presidente do Congresso e de um operador político do Partido Liberal.
Segundo Rixi, Hernández diz em um dos áudios: “Estou voltando para o país e, lembre-se, tenho o apoio de Donald Trump. Temos que aproveitar a situação agora — antes das eleições de meio de mandato — para fazer todas as mudanças e tomar o poder, o poder total. Não podemos governar de outra forma a não ser pela força e pela violência”, exatamente como Pablo Escobar costumava dizer. Romeo Vázquez,— o general que liderou o golpe de Estado — também aparece nas gravações. Esse general é procurado por um assassinato cometido durante o mesmo — é ouvido falando com Juan Orlando [Hernández]. Ele diz: “Tenho a lista, sr. Presidente, das pessoas que precisamos eliminar”. E Juan Orlando responde: “Eu quero essa lista”, conta Rixi.
“Essas 37 gravações também afirmam que Juan Orlando [Hernández] está montando uma operação de notícias falsas sediada nos Estados Unidos para influenciar as eleições na Colômbia e no México. Porque o único objetivo é destruir a esquerda. E eles contam com o apoio de Donald Trump e de suas equipes. E — acredito que sejam 300 mil ou 150 mil, não sei, alguma quantia em dólares — o presidente da Argentina, Javier Milei, está enviando fundos para eles. Isso também consta nas gravações”.
Duas semanas após as primeiras publicações em hondurasgate.ch, um outro meio de comunicação de Honduras, Contra Corriente, publicou reportagem com o seguinte título: A suposta denúncia honduragate que sacudiu dois governos vem de uma fonte opaca com antecedentes de inautenticidade. O texto afirma que há inconsistências na verificação das mensagens e que não houve contraste com a voz das pessoas envolvidas. Contra Corriente afirma que o canal de Youtube usado agora por hondurasgate foi criado na Espanha em 2022 com o nome de Elon Musk Noticias e posteriormente rebatizado de Noti Bloom. E que se trata de um meio de comunicação sem publicações jornalísticas prévias.
De todo modo, Canal R(e)D publicou mais áudios referentes ao escândalo hondurasgate em 27 de julho.[7] Em um áudio atribuído ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, escuta-se: “O primeiro-ministro de Israel vai nos dar o apoio. Nós somos muito gratos a eles, na verdade, eles tiverem tudo a ver com a minha saída e negociação…”. A ex-candidata presidencial do Livre confia na veracidade das denúncias e na autenticidade dos áudios.
Alerta para a América Latina
Rixi conta que compartilhou sua experiência com os companheiros da Colômbia antes das eleições naquele país. “Falei na Colômbia, no encontro da Internacional Progressista. Compartilhei minha experiência com eles. Eu lhes disse: ‘Eleições não são ganhas ou perdidas com base no voto livre dos eleitores. Elas são ganhas ou perdidas por meio de artimanhas e fraudes que estão sendo implementadas agora. E, bem, na Colômbia, as pesquisas previam uma vitória para [Ivan] Cepeda, o candidato Petro. E como terminou aquela eleição, no final das contas? E o que realmente aconteceu? Acho que eles conseguiram superar a fraude eletrônica até certo ponto. No entanto, isso aconteceu dentro do sistema de transmissão. Não tenho dúvidas de que a eleição é fraudada”.
E faz um alerta ao PT: “Veja, juro a você: não tenho dúvidas de que a eleição no Brasil será uma eleição com armadilhas. Será uma eleição em que eles usarão todos os truques possíveis. Se vocês estão organizando a campanha com base na estrutura definida pela Constituição, digo sinceramente: levem esta mensagem à equipe de campanha do Lula — mudem de estratégia, adotem uma que leve em conta o “impossível”, aquelas coisas que vocês acham que não vão acontecer, porque eles vão fazê-las. Refiro-me àqueles cenários em que se pensa: ‘Não, eles não seriam capazes de fazer isso’ ou ‘eles não seriam capazes de fazer aquilo’”.
Quanto ao Brasil, Rixi recomenda que estejamos preparados. “Vejam o que aconteceu conosco — imaginem que nós éramos o governo, mas nem a polícia nem os militares nos alertaram sobre nada, simplesmente porque estavam do lado da oposição. Isso é crucial, porque a mesma coisa acontece aí; eles simplesmente ficam do lado oposto. Portanto, não dá para apenas se submeter ao processo eleitoral; a base precisa sair às ruas e defendê-lo. Não dá para ficar de braços cruzados.O chamado à ação deve ser feito publicamente — não importa se é durante o período de silêncio eleitoral, e não importa se for preciso flexibilizar as regras para garantir que as pessoas possam votar livremente. Já não penso mais em sutilezas constitucionais. Enquanto a direita agir como age, não podemos nos dar ao luxo de ser ingênuos ou nos apegar a uma narrativa de ‘respeito às normas’. Quando seus direitos estão sendo violados, você precisa jogar o jogo da mesma maneira que eles. Sinto muito, mas, depois da minha própria experiência, não posso dar outro conselho. Mesmo durante o período de silêncio, é preciso dizer às pessoas que elas precisam sair e votar livremente, diante dos roubos eleitorais que vêm ocorrendo em toda a região. Sei que vocês têm uma eleição em outubro e vou dizer honestamente qual narrativa estão promovendo agora sobre a eleição brasileira — tanto no continente quanto no mundo todo: a de que é uma disputa acirrada. Essa é a narrativa que estão estabelecendo — que está tudo muito próximo, um empate técnico. Por que estão promovendo isso? Que narrativa a campanha de Lula deveria promover? A campanha de Lula precisa projetar a ideia de que ele está vencendo em toda parte — vencendo por X pontos. Não importa quantos pontos; a mensagem tem que ser a de que ele está à frente e ganhando. Não dá para seguir as regras ou tentar ser honesto em um mundo cheio de trapaceiros; essa é uma mensagem muito importante. Implementem seu próprio código de defesa eleitoral; vocês precisam montar equipes que incluam alguém que pense no pior — alguém que antecipe os piores cenários —, pois qualquer pior cenário que se possa imaginar é exatamente o que tende a acontecer. As regras constitucionais já estão estabelecidas, o que importa agora é formalizar os aspectos não escritos e preparar-se para as próximas eleições. Honestamente, acredito que nossos sistemas democráticos na América Latina precisam ser avaliados porque, antes de tudo, a votação não ocorre livremente. Como um voto pode ser válido se o cidadão não o deposita livremente, se o faz sob pressão de interferência estrangeira ou sob coação de táticas de intimidação? Especialmente em nossos países, na região da América Central, onde temos tantos migrantes”.
Notas:
[1] TPS, sigla de Temporary Protected Status: benefício migratório dos Estados Unidos que concede residência temporária a cidadãos estrangeiros.
[2] CIADI – Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas sobre Investimentos.
[3] ICE é a sigla para Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).
[4] https://hondurasgate.ch/audios
[5] https://www.brasildefato.com.br/2026/05/06/audios-revelam-coordenacao-de-eua-e-israel-com-a-extrema-direita-em-honduras/
[6] Mais detalhes aqui: https://hondurasgate.ch/investigaciones/como-verificamos-os-audios-vazados-hondurasgate
[7] https://www.youtube.com/watch?v=PqF6tqQbuzg
Rita Camacho é jornalista
