Com Lula no centro da estratégia, o PT chega aos 46 anos defendendo entregas do governo, justiça tributária e presença popular como resposta política ao avanço da extrema direita

Foto: João Valadares/Agência PT
“Essa eleição vai ser uma guerra”, avisou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao subir ao palco da celebração dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores, em Salvador, no último dia 5. A frase não veio como bravata. Ela organiza o sentido político do momento.
Perto de completar cinco décadas de existência, o PT se prepara para mais um ciclo eleitoral decisivo, encabeçado por Lula, mas consciente de que a disputa de 2026 não se resolverá apenas na eleição presidencial. O desafio é mais amplo: enfrentar a extrema direita, sustentar um projeto de país e reconstruir força institucional com bancadas estaduais, federais e no Senado.
No entendimento do presidente, a disputa de 2026 não se resolve apenas no saldo das políticas públicas, ainda que o governo tenha acumulado entregas relevantes na reconstrução social e econômica do país.
Ao longo de sua fala, Lula convocou militantes e dirigentes a confrontar diretamente a extrema direita, defender as realizações do governo e sustentar um discurso coeso, por dentro e por fora do partido, diante do que classificou como um ambiente marcado por mentiras organizadas e manipulação política.
Disputa de sentidos e resultados
Aos 46 anos, o PT chega a um ponto raro na política brasileira. Governa novamente o país, pela quinta vez, após derrotas profundas, muitas impostas, como o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, a prisão de seu principal líder e um ciclo recente de erosão democrática.
Esse percurso molda o tom das falas e das estratégias quando o tema é o desafio que está por vir. O que se impõe é a leitura de que o partido atravessa uma encruzilhada histórica. Ainda durante o ato em Salvador, Lula alertou que a extrema direita atua de forma sistemática na desinformação e na manipulação de sentimentos, explorando frustrações sociais e o descrédito na política institucional.
A disputa, portanto, não é apenas eleitoral. É simbólica, cultural e institucional. “A extrema direita mente sem pudor”, afirmou o presidente, ao cobrar unidade discursiva e capacidade permanente de confronto político.
Nesse contexto, o governo Lula apresenta resultados concretos que entram no centro da disputa pública: o desemprego caiu aos menores patamares da série histórica recente, a renda voltou a crescer, programas sociais foram fortalecidos e o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome. As entregas aparecem como argumento político e como resposta direta à narrativa antipolítica disseminada pela extrema direita.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi enfático ao tratar da justiça tributária como eixo decisivo dessa disputa. “O presidente Lula colocou o dedo na ferida”, afirmou, ao defender que o país enfrente a lógica histórica de concentração de renda e privilégios fiscais.
Haddad insistiu que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até dois salários mínimos e a taxação dos super-ricos não são medidas ideológicas, mas instrumentos de equilíbrio social. “Pobre paga imposto demais, rico paga de menos”, resumiu.
O ministro reforça, assim, um ponto central do discurso petista: sem enfrentar a desigualdade, não há estabilidade institucional. A extrema direita prospera justamente onde o Estado falha em proteger, distribuir e explicar.
Organização, base e formação política
Lula reconheceu, sem rodeios, que o partido “não está com essa bola toda em todos os estados” e defendeu a construção de alianças amplas para vencer as eleições. “É preciso fazer alianças para ganhar”, afirmou, ao apontar a correlação de forças no Congresso como obstáculo concreto à governabilidade.
O Senado aparece como campo sensível dessa disputa. A ausência de maioria parlamentar, segundo dirigentes e lideranças do partido, encarece politicamente o governo e limita sua capacidade de entrega. Lula alertou que governar sem base sólida no Congresso significa negociar cada passo sob pressão permanente.
A resposta à extrema direita, na visão do PT, não se resolve apenas com resultados econômicos ou alianças institucionais. Passa, sobretudo, pelo trabalho cotidiano do partido. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que “só filiar não é suficiente” e defendeu a centralidade da formação política. Para ele, nenhum militante nasce pronto, e a ausência de formação abre espaço para a captura do debate público por discursos simplificadores.
Edinho argumentou que a política contemporânea se move por sentimentos e que a extrema direita soube explorar medo, frustração e desencanto. A resposta, segundo ele, exige presença territorial, debate permanente e construção de lideranças locais capazes de sustentar o projeto nacional no cotidiano.
Comunicação e as ruas como campo político
Ao falar de 2026, as lideranças do PT insistiram em um ponto comum: não basta governar, é preciso disputar sentido. Lula defendeu que o partido fale de forma direta com a sociedade, sem mediações excessivas e sem subestimar a força da extrema direita na comunicação. Para o presidente, o adversário opera “na mentira organizada”, ocupando o cotidiano das pessoas com medo, desinformação e versões distorcidas da realidade.
“O PT é organização popular”, afirmou Benedita da Silva, ao lembrar que o partido nasceu da mobilização social e não pode se afastar desse chão. A participação não é tratada como adereço, mas como condição para sustentar o projeto político diante de um adversário que atua de forma permanente, fora dos períodos eleitorais.
“Se não sabe sambar, não entra”, disse a deputada.
Também nesse ponto surge a crítica à política confinada aos gabinetes. “Só filiar não é suficiente”, voltou a alertar Edinho Silva, ao defender que o partido fortaleça o diálogo direto, a escuta e a presença cotidiana nos territórios. Em um ambiente em que a extrema direita se alimenta da antipolítica, a resposta passa por ocupar as ruas, os debates e os espaços onde a vida acontece.
Lula resumiu esse desafio ao afirmar que a vitória não virá apenas do balanço do governo, mas da capacidade de transformar entregas em linguagem política compreensível.
A disputa, afirmou, é para que as pessoas saibam “quem está do lado delas” e quem atua contra seus interesses. É nesse terreno, entre comunicação, participação e presença, que o PT aposta parte decisiva de seu caminho rumo a 2026.
Para o presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, a relação entre o partido e sua fundação vai além da ideia de parceria. “A razão de ser da Fundação é o Partido. É uma relação muito presente, muito viva”, afirma.
Segundo ele, ao longo dessas quase três décadas, a FPA tem contribuído para fortalecer a formação política, aprimorar a atuação das bases e ajudar o PT a compreender melhor os caminhos da sociedade brasileira, seus valores, expectativas e o país que deseja construir.
“Celebrar os 46 anos do PT é também renovar esperanças, seguir contribuindo para a formação de dirigentes e ajudar o partido a entregar o melhor de seu conteúdo à sociedade brasileira, para que o povo possa sonhar um sonho novo.”
