A Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu como tema do Dia Mundial Sem Tabaco de 2026 “Desmascarando o apelo — combatendo a dependência de nicotina e tabaco”. A campanha, com nome e sobrenome, mira as engrenagens que tornam produtos viciantes palatáveis para uma nova geração: sabores, design, aparência tecnológica e marketing, especialmente em ambientes digitais.
Segundo a OMS, ao menos 40 milhões de crianças e adolescentes de 13 a 15 anos no mundo, relatam uso atual de algum produto de tabaco; ao menos 15 milhões nessa faixa etária já usam cigarro eletrônico; e, nos países com dados, crianças têm, em média, nove vezes mais probabilidade de vaporizar do que adultos.
No Brasil, o tema se conecta a números e a um incômodo: depois de décadas de queda, o tabagismo dá sinais de aumento no consumo e o cigarro eletrônico, apesar de proibido para comercialização no país, aparece como peça central na discussão. A publicação da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde registra que a prevalência de tabagismo caiu de 35% (1989) para 9,3% (2023), mas aponta um aumento para 11,6% (2024).
Para a pneumologista Dra. Maria Vera de Oliveira Castellano, Diretora do Serviço de Doenças do Aparelho Respiratório do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, coordenadora do ambulatório de Tabagismo do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE) e membro da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), o alerta de 2026 não é abstrato. “A gente até brinca que tudo é nicotina”, afirma, ao explicar por que a discussão sobre “produtos novos” pode ser uma cortina de fumaça. “Tanto quando você usa o narguilé, quanto os vapes, ou o tradicional, você está consumindo nicotina. É a nicotina que causa dependência.”
Quando o vício vira “gadget”
Vera aponta dois motores que ajudam a explicar o retorno do apelo do fumo — agora com uma nova roupagem. Um é subjetivo e social: “A nicotina é uma substância psicoativa, estimula a liberação de dopamina e uma população ansiosa quer isso para si”, diz. O outro é a dinâmica de grupo: “O narguilé, mesmo o cigarro eletrônico, tem uma questão de sociabilização: meu colega usa, alguém usa, então eu também vou usar”.
A estética e o paladar atuam como aceleradores. O problema não é só a dose, é a incerteza. No cigarro tradicional, o consumo costuma ser contabilizado em unidades; no vape, a régua desaparece. “Você não sabe ao certo o quanto a pessoa consome de nicotina”, afirma. “Muitas vezes tem que pedir para ele levar a caixinha para descobrir o que ele está usando realmente. Dependências podem surgir de forma muito intensa e rápida, o que dificulta o tratamento.”
Aromatizantes “facilitam o uso”
A OMS vinha insistindo no ponto dos sabores desde 2025, ao pedir ação urgente para proibir aromas artificiais por mascararem a aspereza e atraírem jovens, o que, segundo a especialista, “tende a facilitar o uso e a pessoa se tornar dependente mais rapidamente por conta desses aromatizantes.”
Ela acrescenta que o sabor não é só marketing: pode representar um risco adicional. “Tem o sabor de pipoca, em que eles usam o diacetil”, afirma. “Nós temos muitos casos de bronquiolite obliterante em pessoas que trabalham na fabricação de pipocas de micro-ondas, porque acabam inalando essa substância. E o aromatizante do cigarro eletrônico pode ter essa substância também”.
A proibição e o mercado ilegal
No Brasil, a comercialização de cigarros eletrônicos é proibida por decisão regulatória, mas o produto é visível no cotidiano, especialmente entre jovens. Vera defende manter a restrição. “Nós temos uma posição muito firme quanto à manutenção da proibição. E, no Brasil, a Anvisa mantém essa proibição: é proibido o comércio, a fabricação”, diz. O nó, segundo ela, é o circuito informal: “Mas existe o mercado ilegal.”
A cautela, afirma, se sustenta na literatura médica. “Você não pode liberar uma coisa de que você nem tem noção dos riscos. Toda semana, sai um artigo mostrando os problemas de saúde causados pelo consumo de vape.”
Antes da pandemia, um termo passou a condensar o medo do “novo”: EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico. “Em 2019, tivemos o EVALI mais de mil casos nos Estados Unidos, em torno de 60 mortes”, lembra Vera. Ela também cita evidências acumuladas em estudos epidemiológicos. “A gente sabe que pode haver início de asma ou piora de asma pré-existente”, diz.
SUS: mais procura por tratamento
O aumento da busca por ajuda é evidenciado nos dados do próprio Ministério da Saúde. Em 2025, 2,5 milhões buscaram atendimento relacionado ao tabagismo na Atenção Primária — alta de 95% em relação a 2022. O ministério também informa aumento das atividades coletivas nas UBS: de 61,9 mil (2022) para 157,1 mil (2025); e de 1 milhão para 2,1 milhões de participantes no mesmo período. (Ministério da Saúde)
Vera reconhece a estrutura. “Nós temos um programa de cessação de tabagismo muito bem elaborado presente em várias unidades básicas”, diz, citando também CAPS que oferecem cuidado. “Tem fila de espera, mas o programa funciona”, diz.
“Parar de fumar exige motivação, especialmente entre jovens”, pontua, explicando que o método varia conforme o produto: no cigarro tradicional, costuma-se escolher uma data e fazer redução gradual; no vape, a orientação tende a ser parada abrupta. Ela afirma que o tratamento pode incluir reposição de nicotina e medicamentos, como bupropiona, para lidar com a ansiedade. E ressalta que recaídas são comuns — em média, são necessárias cinco a seis tentativas até parar de vez; com acompanhamento estruturado, a taxa de sucesso fica em torno de 40% a 50%.
Informação: “pilar mais importante”
Para Vera, a agenda do controle do tabaco depende de políticas, preço e legislação — mas, sobretudo, de comunicação. “A questão da informação é o pilar mais importante”, afirma. “Não só nas escolas, mas também nas mídias.” E, se o alvo é o adolescente, o canal precisa mudar. “Você vai ter que usar as mídias sociais, usar outras formas de comunicação para poder alcançar esses jovens.”
A preocupação com o início precoce — que alguns especialistas já descrevem como “pediatrização” do tabagismo — aparece na fala da médica como relato de bastidor: “Eu escuto, às vezes, que o coleguinha forçou a pessoa a colocar o cigarro eletrônico na boca, porque quem não colocava era bobo”, diz. “Os pais, os professores precisam estar informados.”
Fatores de risco: mais de 50 doenças
Ao falar de danos, Vera volta ao básico — porque o básico ainda é subestimado. “O cigarro causa mais de 50 doenças”, afirma, citando as cardiovasculares (infarto, AVC), as pulmonares e o câncer. Ela lembra o “período de latência”: quem começa cedo pode adoecer décadas depois.
Para quem parou, há melhora progressiva — mas não instantânea. Vera menciona tabelas de redução de risco: “Doença cardiocirculatória em torno de cinco anos, câncer em torno de dez anos” após parar, variando conforme a intensidade do consumo. “Vamos continuar por esse caminho para ver se as pessoas realmente não iniciam o tabagismo, seja de que forma for, e que elas parem de fumar”, diz Vera.
Serviço: Como buscar ajuda para parar de fumar no SUS
O Ministério da Saúde informa que o SUS oferece atendimento gratuito nas UBS, com acompanhamento de profissionais capacitados e a possibilidade de atendimentos individuais ou em grupo (abordagem cognitivo-comportamental). O cuidado pode incluir medicamentos gratuitos, como adesivos, gomas ou pastilhas de nicotina e bupropiona, além de práticas integrativas como apoio complementar.
