Nesta quarta-feira (5), começa a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, a Flipei. O evento ocorre em São Paulo com uma extensa e diversificada programação que vai até o domingo (9) no Galpão Elza Soares, espaço do MST no bairro dos Campos Elíseos, na região central.
Na oitava edição, o encontro conta com mais de 150 expositores e se destaca pela ampliação dos debates, com convidados nacionais e internacionais do pensamento crítico voltado ao tema dos movimentos sociais, política e literatura.
Os ataques à Palestina, a discussão sobre a adoção da Tarifa Zero, violência racial, Inteligência Artificial, soberania dos povos e questões políticas e econômicas do Sul Global estão entre os principais temas. A edição deste ano prevê ainda a distribuição de livros a estudantes, professores da rede pública e coletivos ligados a cursinhos populares.
Como destaque, além dos livros, será oferecido ao público uma programação musical com shows gratuitos do rapper mineiro FBC, a banda punk Inocentes, além de festas de música latina e funk a preços populares.
“É uma das poucas festas literárias do Brasil que tem festa de verdade. O resto só tem nome de festa, mas são, na verdade, feiras, as festas que elas promovem são em espaços privados”, comenta Cauê Seignemartin, um dos organizadores da Flipei.
Exposição censurada
Em maio deste ano, a exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade”, que estava em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, foi encerrada antes da data prevista devido a críticas e denúncias ao Ministério Público por parte de parlamentares do PL na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Como forma de combater a censura instalada contra a mostra, haverá a remontagem da exposição dentro da programação da feira, em um dos espaços parceiros. “Trabalhamos na chave da solidariedade. Eles têm armas, grana, a mídia, nós atuamos com os trabalhadores, oprimidos, precisamos de uma grande frente ampla”, pontua Seignemartin.
Alvos da extrema direita
O crescimento da programação e a consolidação perante o público ocorre em um contexto de resistência que começou ainda em 2019, nos primeiros ataques políticos que o evento sofreu. Com uma proposta de alternativa à Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, a Flipei realizou boa parte de suas edições na cidade do Rio de Janeiro com a transferência para São Paulo em 2024.
O alinhamento aos ideais de esquerda colocam a festa literária no centro da polarização política no país. O idealizador Cauê Seignemartin lembra dos ataques sofridos por bolsonaristas nas primeiras edições e conta que a decisão de realização em São Paulo veio nesse contexto.
Para Seignemartin, “ a Flipei acabou se consolidando a partir do recuo da esquerda, de certa forma, por causa da ascensão da extrema direita. Outros eventos que cumpriam esse papel de encontro como Fórum Social Mundial e o Festival da Utopia não têm mais a força, aquele impacto, que tinham. E acaba que, nesse sentido, também sofremos com as consequências disso, com os ataques”.
“A Flipei é feita por trabalhadores da base, pelos editores, por quem está com os livros nas mãos o dia inteiro, com os trabalhadores do meio, nós vivemos esse mercado”, diz Cauê Seignemartin.
Dentre as diferenças perante outros eventos do gênero, há o fato de que os expositores não pagam taxas. Além disso, o fundador da editora Autonomia Literária explica que para outros realizadores pautar determinados temas se torna difícil a partir do financiamento. “Para muitos, não é possível colocar certos debates por causa dos patrocinadores”, opina.
Na edição do ano passado, a prefeitura de São Paulo, com Ricardo Nunes, cancelou a autorização do evento que ocorreria na Praça das Artes, dias antes da realização, alegando uso político do espaço, o que fez com que a organização tivesse que realocar a festa literária às pressas em outro espaço.
Convidados Internacionais
Na programação de debates, são mais de 10 nomes de pesquisadores, ativistas e autores de outros países como: Ruth Wilson Gilmore, referência mundial no debate sobre abolicionismo penal e o sistema prisional; o historiador e jornalista Vijay Prashad, que discute o imperialismo e as lutas do Sul Global; a ativista pacifista Medea Benjamin (cofundadora do Code Pink), focada em direitos humanos e anti-intervencionismo; o premiado jornalista Gideon Levy, colunista do jornal Haaretz conhecido por sua cobertura da ocupação da Palestina.
Os nomes nacionais também não ficam atrás na atratividade do público, dentre eles: Txai Suruí, Cida Bento, Jamil Chade, Bel Santo Mayer, Luiza Erundina, Michel Alcoforado e Rita von Hunty.
Piratinhas
Assim como na edição passada, será realizada uma programação infantil. As crianças serão recebidas em um espaço com atividades lúdicas e inclusivas. A área será organizada em parceria com o Kindezi, projeto voltado ao cuidado e à formação das infâncias a partir de referências indígenas e afro-brasileiras. De acordo com a organização, o evento proporciona espaços com acessibilidade para pessoas com deficiência.
