Ao publicar, em 24 de junho, vídeos em que se diz “apunhalada” e maltratada pelo enteado Flávio Bolsonaro, e ao deixar em seguida o comando do PL Mulher, Michelle Bolsonaro fez mais do que abrir um novo capítulo na guerra sucessória do clã. Ela expôs a lógica que sustentou sua ascensão política e, ao mesmo tempo, os limites desse mesmo projeto.
No vídeo, Michelle conta que criticou a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará e ouviu do enteado que “seria melhor ficar fora das decisões do partido”, pois “havia chegado ontem e não entendia nada de política”. A reação veio em forma de desabafo: “Me tratam como se eu fosse idiota (…), mas eu sei mais do que eles pensam”. Ao longo da fala, a madrasta chama Flávio de “meu enteado” e “pré-candidato”, nunca de Bolsonaro, apagando justamente o sobrenome que virou moeda de poder dentro da disputa.
A chave Serena Joy
A atitude de Michelle remete diretamente à personagem Serena Joy, de The Handmaid’s Tale. Na série, Serena é uma mulher com voz pública, ambição e projeto político, mas coloca tudo isso a serviço de uma ordem que subordina as próprias mulheres. Defende um “feminismo doméstico”, ajuda a erguer um regime teocrático e termina aprisionada pelas regras que ajudou a legitimar, proibida de ler, de opinar e reduzida ao papel de esposa e mãe.
Michelle não é uma coadjuvante silenciosa. Lidera, discursa, converte religiosidade em capital político e se apresenta como “a Bolsonaro mais leal a Jair”. Seu protagonismo, porém, opera dentro de uma gramática que naturaliza a hierarquia e transforma a fé em instrumento de poder. Quando Flávio diz que ela deveria ficar fora das decisões, cobra o preço do papel que essa estrutura lhe reservou. Como Serena, Michelle descobre que a ordem que ajudou a fortalecer não lhe garante a cadeira que imaginava ocupar.
A transmutação
O que aparece nesse episódio é menos feminismo do que sua transmutação. A linguagem do empoderamento é capturada e reconvertida em combustível para o extremismo religioso. Fala-se em “mulher forte” e “protagonismo”, mas o horizonte político é a ocupação da política pela igreja, projeto que Damares Alves, ainda em 2020, resumiu sem meios-termos: “É o momento de a igreja ocupar a nação, sim”.
No caso da senadora, o que mudou foi a embalagem. Depois de anos associada a falas estridentes, Damares tenta há meses um rebranding: recua em temas, ameniza o tom e busca parecer menos ruidosa. O método, no entanto, permanece. Sua operação mais sofisticada é criticar em público o uso político da fé, simulando incômodo com aquilo que continua a praticar. É o extremismo que aprende a falar baixo e, por isso, pode se tornar mais eficaz.
O custo eleitoral
Segundo a colunista Daniela Lima, do UOL, pesquisas internas de acompanhamento diário mostram que a rejeição de Flávio entre mulheres chegou a 55% no fim de junho, dez pontos acima de maio. No mesmo segmento, a intenção de voto no senador caiu de 30% para 24%, enquanto Lula aparecia com 43%.
Michelle é uma das principais pontes do bolsonarismo com o voto feminino evangélico, justamente o público que Flávio tem mais dificuldade de converter. Ao se recolher e deixar o PL Mulher, ela sinaliza que o capital político que carrega tem dono, densidade própria e não se transmite automaticamente por sobrenome.
O episódio revela um projeto que instrumentalizou a fé e a imagem da “mulher forte” e agora encara suas próprias contradições. Como a Serena da ficção, Michelle ajudou a erguer uma ordem que tenta colocá-la em seu devido lugar. A diferença é que, no roteiro brasileiro, a aia se recusa a calar. E transforma essa recusa em cálculo político.
