Marcia Tiburi levou mais de 20 anos para concluir Ninfa Morta: uma história do ódio às mulheres, livro publicado pela Ed. Planeta ainda em 2025, antes mesmo que a “epidemia”de violência às mulheres tomasse conta do noticiário diário com a devida atenção.
Filósofa, escritora e artista visual, ela partiu das imagens de mulheres mortas que atravessam a literatura, o teatro, a pintura e o cinema para investigar a relação entre essas representações e a violência concreta produzida pelo patriarcado. “Esse livro é sobre a imagem da mulher morta como uma figura idealizada na história do patriarcado”, explica.
Nascida em Vacaria, no Rio Grande do Sul, Tiburi é formada em Filosofia e Artes, mas construiu uma trajetória marcada pelo feminismo e pela circulação do pensamento para além da universidade. Em 2000, organizou o congresso As Mulheres e a Filosofia, quando as discussões de gênero ainda ocupavam pouco espaço nas faculdades brasileiras. Depois vieram os ensaios, romances, programas de televisão, cursos, exposições e uma intervenção constante no debate público.
Em Ninfa Morta, a filósofa percorre figuras como Branca de Neve e Ofélia para examinar a valorização da mulher silenciosa, inerte e vulnerável. A investigação chega ao presente, às imagens reproduzidas nas redes sociais e ao que Tiburi chama de “esteticonomia patriarcal”, conceito usado para descrever os padrões pelos quais as mulheres são medidas e moldadas. “As feministas seriam as antininfas, porque incomodam”, afirma.
Na entrevista à Focus Brasil, Marcia Tiburi fala sobre feminicídio, misoginia, mulheres antifeministas, participação política, Estado laico e os limites do diálogo com a extrema direita. Também analisa as eleições deste ano, conta como pretende atuar na campanha, defende a volta de Jean Wyllys à Câmara dos Deputados e reafirma seu apoio a Lula. Ao recordar o exílio e o retorno ao país, em 2023, fala das ameaças que sofreu, da experiência de viver fora e da esperança que ainda deposita no Brasil. “A esperança não está dada, é você que tem que construir”, diz.
O que é Ninfa Morta e por que esse nome?
Acabo de criar um clube de leitura, e o primeiro livro a ser lido é justamente o Ninfa Morta. É um livro que vai se beneficiar muito de uma leitura coletiva, até porque se trata de um trabalho muito denso. Eu demorei mais de 20 anos concebendo, elaborando, pesquisando e redigindo esse livro; nos últimos dois anos me dediquei à redação com muita intensidade.
Esse livro é sobre a imagem da mulher morta como uma figura idealizada na história do patriarcado. A minha pergunta original era: existe um nexo entre a matança de mulheres que a gente vê na vida real, concreta, em determinados momentos históricos, e essa matança de mulheres que a gente vê nos textos literários, sejam as tragédias gregas, sejam as tragédias modernas, como os textos de Shakespeare, a poesia ao longo da história, o teatro contemporâneo, o cinema? Estudando isso, me perguntando por que havia tantas imagens de mulheres mortas nesses textos, fiz um pós-doutorado e cheguei à conclusão de que existe uma fetichização dessa imagem na história. Minha hipótese é de que existe esse nexo entre a produção do crime feminicida numa cultura misógina, ela mesma simbolicamente feminicida, como a gente vê desenhado nesses textos diversos.
No começo da minha pesquisa, eu estava muito apegada a um conto de fadas, o da Branca de Neve — apresentei um trabalho sobre uma leitura biopolítica desse conto num congresso de filosofia do direito na Espanha, em 2003. Eu queria entender por que a Branca de Neve tinha sido condenada à morte, tinha escapado da morte e tinha sido confinada dentro de uma casa que era controlada por homens trabalhadores, que eram anões. Comecei a ver nesse texto, que em princípio era uma brincadeira de criança, toda uma discussão sobre o trabalho doméstico, a misoginia que confina as mulheres dentro da casa e que, num nexo direto, condena essas mulheres a esse aprisionamento e à morte, simbólica ou física.
Ninfa Morta vem daí porque um dos autores com quem trabalhei foi o historiador Aby Warburg, que trabalhava com a noção de história das imagens. Ele construiu o que chamou de Atlas Mnemosyne, o atlas do imaginário do mundo, com pranchas de imagens que se repetiam ao longo da história, uma delas era a prancha das ninfas: certas mulheres que aparecem sempre, desde a Roma Antiga, caminhando com os vestidos esvoaçantes, carregando alguma coisa na mão, porque são serviçais — dos afrescos romanos às pinturas do século XIX, passando pelo Renascimento. E eu disse: poxa, o Warburg nunca percebeu que havia também uma sequência de imagens de ninfas mortas, de mulheres que vão aparecendo sempre mortas, deitadas, dormindo nuas, em posições de vulnerabilidade, até um ponto em que começam a parecer mortas mesmo.
Escrevi um capítulo sobre a Ofélia, personagem do Hamlet, de Shakespeare, houve um culto dessa mulher morta nos séculos XVIII e XIX, recolocada em cena através da pintura. O romantismo fez o culto daquela menina morta, adolescente, com tuberculose, branca, que não se alimenta, essa mulher começa a aparecer morta, até dentro de um caixão em certas pinturas e o mais doido: no final do século XX, principalmente neste século XXI, essa imagem de uma jovem branca, morta, dentro da água, como a Ofélia, começou a aparecer nas redes sociais, em fotografias de artistas, e nunca deixou de estar presente no cinema. Quis juntar tudo isso para dizer: tem um culto dessa mulher morta. O que ele significa? Significa que as mulheres vão ter que amargar uma morte física ou uma morte simbólica, porque a mulher valorizada no patriarcado é essa mulher inerte, branca, que não come, que não engorda, que não fala, que não grita, que não reclama, que não pensa, isso é uma espécie de estátua anulada para a contemplação e o prazer masculino, é disso que eu estou falando no meu livro.
Como esse estudo de uma vida se conecta ao momento presente e à atuação das mulheres na política, inclusive às antifeministas?
A ninfa é essa jovem em estado de noiva, como dizia Boccaccio, que cito no livro, é essa pessoa que não é mais criança, mas ainda não é exatamente uma mulher — o estágio larval da própria condição feminina. Como ele dizia, elas são iguais às mulheres em tudo, só que não fazem as necessidades é uma mulher idealizada, sem mácula, uma mulher que não incomoda. As feministas seriam as antininfas, porque incomodam.
Por que a questão fetichista é tão importante? O patriarcado é um regime econômico, político e ideológico, mas é também um regime perverso, esse regime fetichizou as mulheres. Assim como existe uma fetichização negativa da mulher idosa, odiada historicamente, da mulher gorda, da mulher negra, todas são fetichizadas, valorizadas ou desvalorizadas pelo patriarcado. Por quê? Porque a medida é sempre o olhar machista, o olhar do macho, e aquilo que lhe causa prazer. Falo muito do prazer visual e auditivo dos homens em relação a essas mulheres — o prazer com a narrativa, não o prazer de escutar uma mulher, porque uma mulher que não fala, que não tem falo no sentido de dominar o funcionamento falogocêntrico, é benquista, tipo a “loira burra”, expressão machista que tivemos que desconstruir, e que ainda faz o jogo do patriarcado, como aquela antifeminista que defende a monarquia e fala contra o voto das mulheres.
O regime patriarcal é heteronormativo: todas as pessoas que não forem adeptas do binarismo sexual, homem e mulher, pagarão um preço altíssimo. O patriarcado constrói apenas dois gêneros — por isso o Trump, no primeiro decreto do seu mandato, disse que agora só existem dois gêneros. Claro: o patriarcado precisa de dois gêneros porque precisa subalternizar as mulheres para manter o privilégio dos homens. Ele quer que existam mulheres, mas mulheres subalternas, não mulheres que tenham consciência da sua condição, que são as feministas. As mulheres acabam sendo vítimas de uma ninfetização compulsória, assim como existe a heterossexualidade compulsória, toda mulher, independentemente da idade, a não ser as que têm uma crítica ao status quo, vai tentar parecer aquela boneca ninfetinha, loira, de cabelo liso, com os lábios e os olhos desenhados de uma determinada maneira, com os peitos siliconados — todo um combo estético-político que no meu livro eu chamo de esteticonomia patriarcal. As mulheres são medidas, moldadas, desenhadas, porque existe um design de gênero.
Aí você me pergunta sobre a Damares Alves, e outras, nesse momento, chega a ser engraçado, porque ela está reclamando da violência política de gênero que sofre, sendo que sempre promoveu violência política de gênero contra mulheres. Devemos respeitá-la como ser humano, como mulher, como pessoa que merece ter respeitados os direitos humanos, mas ela é uma pessoa que sofre de uma dissonância cognitiva terrível, que faz discursos antiéticos, que me parece uma abusadora da democraci, para muita gente pode parecer simplesmente burra, mas o fato é que uma pessoa burra no poder acaba se tornando perversa, porque vai fazer uso disso a partir de pressupostos mal estabelecidos. É um perigo gente burra no poder.
Michelle e Damares são a mesma coisa: mulheres que fazem propaganda da submissão ao marido e, ao mesmo tempo, querem ter poder. As antifeministas cometem aquilo que eu vivo avisando: a autocontradição performativa: uma mulher antifeminista, se quiser ser coerente, tem que se trancar dentro de casa, botar uma burca e ficar lambendo as botas do seu senhor, não pode ter expressão pública. Falo isso meio irritada porque elas têm atrapalhado a nossa luta. Essa que fala contra o voto feminino deveria calar a boca — a única coisa coerente que poderia fazer, mas ela gosta de falar, porque está tentando se beneficiar da cena pública que as feministas conquistaram para todas as mulheres. Só que, na hora em que usam esse direito, conquistado pelas feministas, para destruir o feminismo, o que conseguem é atrapalhar a compreensão das pessoas sobre os direitos das mulheres e dar um tiro no próprio pé e autoimplodir-se.
O projeto que criminaliza a misoginia não deve ser votado antes da eleição. Como você vê isso?
Eles não vão votar esse projeto, a não ser que os ventos mudem realmente muito a favor das mulheres. Esse Congresso não tem como se beneficiar de um projeto assim, até porque metade desses políticos de extrema direita são envolvidos em processos, já foram condenados ou estão sendo investigados por crimes relacionados a mulheres. Se a criminalização da misoginia chegar a acontecer, esses homens se sentirão abalados pelo espaço conquistado pelas mulheres, vão perder espaço culturalmente, à medida que se reconheça que as mulheres são vítimas de violências diversas, inclusive a violência política de gênero.
As mulheres estão avançando cada vez mais. Eu localizo isso, pelo menos, nos últimos 10 anos, desde que começamos com o movimento chamado Partida, em 2015. As mulheres descobriram que não apenas tinham o direito de votar, mas também o direito de serem votadas. O Brasil é um país extremamente machista, está nos últimos lugares do ranking internacional de presença feminina nas esferas legislativas. Então esses políticos homens não têm nenhum interesse em criar essa criminalização, porque isso vai criar um lastro cultural, condições de possibilidade para que as mulheres avancem na luta feminista, esse, para mim, é o maior problema. E esses cidadãos misóginos sabem disso.
Diante de um cenário tão sombrio, onde você encontra esperança? E como vê a religião nessa conta?
Eu só tenho esperança naquilo que venho defendendo como uma governança de mulheres, a minha esperança vem das mulheres e segue com as mulheres. O nosso sistema patriarcal chegou a um ponto de estrangulamento da vida — a vida não é mais possível se continuarmos nesse lugar. A gente precisa avançar para além do patriarcado capitalista, da exploração dos corpos, das mulheres, da natureza, da matança generalizada do todo da vida, enquanto as mulheres lutam pela sobrevivência, os homens fazem guerra. Os homens se tornaram o gênero matador; as mulheres, o gênero matável. E quando falo em mulheres, falo do todo do feminino: mulheres cis, mulheres trans, pessoas homossexuais, marcadas pelo signo do feminino e tratadas como dissidentes do patriarcado. Falo de um patriarcado capitalista, do homem branco, mas há também toda uma ala do esquerdismo-machismo que precisa se repensar.
Nós, mulheres, precisamos governar — essa é a minha defesa concreta para um caminho a seguir. E esse governo das mulheres tem que ser um governo ecossocial feminista. Trato hoje o feminismo como um avanço da esquerda, um avanço da própria noção de comunismo. A extrema direita ataca as feministas porque se deu conta de que o comunismo evoluiu para o feminismo. Chamo essa evolução de ecossocial feminismo, porque aprendemos com os comunistas, com os direitos humanos, com os primeiros feminismos. Aliás, a palavra feminismo vem da filosofia dos comunistas utópicos do século XIX, Fourier e figuras desse tipo. Hoje é o feminismo popular que guarda os grandes ideais da esquerda: solidariedade, comunidade atuante, luta pela vida, ética do cuidado. Isso é Marx com Lenin, com Clara Zetkin, com Rosa Luxemburgo, com toda a esquerda do século XX, que foi se dando conta de que avançar implicava envolver a luta pelos direitos das mulheres, que é a luta pela vida, pelo planeta, pelos povos originários, pelas pessoas escravizadas e massacradas por uma violência que sempre foi colonialista, que sempre foi branca.
Uma das coisas que precisamos combater é a bobagem de falar em identitarismo, coisa que a extrema direita continua falando. Os esquerdo-machos que ainda falam em identitarismo não estão suportando que as mulheres, as pessoas negras, as pessoas LGBTs queiram defender seus próprios direitos, coisa que eles mesmos não defendem. Quando essas pessoas chegam defendendo seus direitos, constroem a democracia radical, que não é a democracia branca burguesa, a democracia fachada do capitalismo. Nós somos a democracia concreta, real, radical. A extrema direita inventou um comunismo imaginário; o esquerdo-machismo inventou um identitarismo imaginário. Acho maravilhoso ver que um homem homossexual do Rio de Janeiro, o Rick Azevedo, que criou o movimento VAT, Vida Além do Trabalho, junto com Erika Hilton, que é uma mulher trans, hoje protagonizam a luta pelo fim da escala 6×1, que é uma luta dos trabalhaores. Reginaldo Lopes e Paulo Paim também lutaram por isso, mas quem veio reorganizar essa luta foram pessoas do campo da democracia radical. As lutas estão todas engajadas, unidas entre elas. Qual é o burro que vai me dizer que as mulheres não são trabalhadoras? A maior parte da população brasileira são mulheres e trabalhadoras. As pessoas LGBTs são trabalhadoras, as mulheres trans são trabalhadoras. A gente se dá conta da interseccionalidade das lutas, que nos leva à luta contra a identidade hegemônica do homem branco capitalista, dono de tudo. Para mim, esse é o mundo dos sonhos: o mundo em que a gente possa lutar todo mundo junto.
Sobre a questão religiosa: do meu ponto de vista, nós precisamos de um Estado laico. A minha cabeça democrática não consegue suportar a presença dessa gente religiosa nos espaços de decisão democrática. Padres, pastores, freiras, líderes religiosos do hinduísmo, do budismo, do candomblé, que é a religião que eu prefiro — ninguém poderia estar se colocando em pleitos, se engajando politicamente, se candidatando, deveria ser proibido. Se pensarmos bem, do ponto de vista da Constituição, a presença dessas pessoas nesses espaços já é inconstitucional. Ninguém vai me ver jamais defendendo a participação de pessoas religiosas, inclusive as minhas preferidas, fui criada no catolicismo, tenho o maior respeito pelo judaísmo, pelo islamismo, pelo candomblé, pela Umbanda, não gosto das religiões do mercado, que abusam da psique das pessoas, mas respeito as religiões que não abusam. Não sou uma pessoa anti-religião: pode ser uma coisa boa na vida de um ser humano uma religiosidade, dependendo do contexto, dependendo de se ela constrói comunidade, se ela faz as pessoas evoluírem emocionalmente, espiritualmente, eticamente; mas sou uma pessoa pelo Estado laico, porque o Estado laico promove a democracia e o respeito às religiões.
Do contrário, continuará havendo esse tipo de abusador. Abusadores da democracia, que usam a ignorância do povo, a vulnerabilidade intelectual, o sofrimento psíquico produzido por essa cultura patriarcal capitalista, usam a fé dessas pessoas para se elegerem e depois roubarem.
Com essa extrema direita atual, ainda dá para “conversar com um fascista” ou a aposta hoje é outra?
Quando escrevi Como Conversar com um Fascista, eu estava me colocando uma pergunta num tom de perplexidade: como a gente vai fazer para viver agora que os fascistas saíram do armário? Lá em 2015. Eu mesma, em 2018, deixei um fascistinha falando sozinho numa rádio do Rio Grande do Sul, um cara do MBL que hoje é deputado, e paguei um preço altíssimo, hoje compreendemos melhor o que é o fascismo. Meu livro foi provavelmente o primeiro a apontar para esse problema da sociedade brasileira, a presença do fascismo. Hoje há zilhões de livros sobre isso, no Brasil e fora — meu livro também foi publicado fora do Brasil, mas, naquela época, eu estava dizendo: e agora, José, como vamos conviver, como vamos tratar diplomaticamente, na mesa do jantar, com essas pessoas?
O livro se colocava um desafio: eu dizia que existem gradações de fascismo, do fascistinha mais básico até o fascista radical, com o fascista radical não se consegue conversar de jeito nenhum. Fiz esse exercício ao longo dos anos: com aquele fascista que pontuava pouco na escala, tentei conversar para ver o que acontecia, e é muito difícil.
Com os que já têm uma agenda, como os agitadores do MBL, não tem conversa — chegam agredindo, atacando, ameaçando, causando terror psíquico, mas às vezes tem: houve meninos que chegaram para mim e disseram “Marcia, que bom que encontrei teu livro, porque percebi que estava indo por um caminho muito ruim e interrompi esse caminho”. Isso me deixou feliz. Tenho esperança de que a gente consiga construir uma sociedade de diálogo, uma educação melhor, um projeto de educação antifascista. Muita coisa vai mal no nosso Brasil, mas eu não perco a esperança, porque o esperançar do Paulo Freire é, sem dúvida, um protocolo de resistência.
Como você vai atuar nas eleições deste ano? E o que achou de Janja dizer que votará numa mulher?
Achei ótimo a Janja falar isso, achei maravilhoso ela sempre tentou falar em nome das feministas, tem um papel fundamental, então super apoio.
Eu fui candidata em 2018, tentei fazer uma campanha feminista, era muito vanguarda, foi muito difícil. Participava da Partida, o primeiro movimento que estimulou a criação de mais mulheres na política, as feministas não quiseram um partido, mas queríamos ocupar os partidos, e fomos fazendo isso — continuo filiada ao PT. Apoiei muitas mulheres que se elegeram nesse processo: Marielle Franco era da Partida; Tainá de Paula, no Rio de Janeiro, nasceu na Partida; Luciana Boiteux, Áurea Carolina, muitas mulheres. Depois muitas outras cresceram fazendo política feminista. A Manuela d’Ávila, por exemplo, hoje uma das principais figuras da política nacional, que vai ser candidata pelo Rio Grande do Sul, criou o movimento Mulheres em Luta e descobriu o feminismo no meio do caminho; o Levante Feminista contra o Feminicídio, primeiro movimento antifeminicida do Brasil, do qual participei desde o começo, juntou as feministas do país.
O que eu vou fazer? Como fiz nos últimos anos, apoiei muitas mulheres, mesmo quando estava fora do Brasil, em 2020 — foi super importante a utilização das redes sociais —, em 2022, em 2024, em cada pleito. Este ano vou apoiar a volta do Jean Wyllys para a Câmara dos Deputados, o Jean foi e continua sendo muito importante, eu e um grupo chamado Um Outro Congresso é Possível, que fundei, estimulamos muito o Jean a voltar. Esse movimento deve apoiar várias candidatas e candidatos pelo Brasil afora, apoio o Jean como amigo pessoal e como figura política essencial, mas apoio várias outras mulheres ao mesmo tempo, seja em São Paulo, a Juliana Cardoso, entre outras diversas deputadas pelo Brasil.
E vamos todos lutar pela democracia, defender nosso atual presidente, que é uma pessoa heroica e uma garantia de democracia para o Brasil hoje. Precisamos ainda de Lula e precisamos construir alternativas, porque, se o Brasil vivesse em condições normais de temperatura e pressão democrática, ele poderia já estar aposentado, mas ele é muito jovem, saudável, animado, dá um banho em gente muito mais nova, e por enquanto é o nosso bastião. Vai ser um ano bonito, porque temos mais consciência sobre a fascistização que o Brasil viveu, sobre como funciona a extrema direita, a desinformação, as fake news. Flávio Bolsonaro vai derreter completamente — não sei nem se vai conseguir ser candidato, se não vai ser substituído pelo Caiado, como venho escrevendo há um bom tempo: a mentira tem perna curta, e as pernas estão se trançando; eles estão caindo nos buracos que eles mesmos cavaram. Eu tenho muita esperança de que tem muita gente lutando, é claro que tem muita sacanagem, muita gente cretina se armando, tem essas igrejas neopentecostais, ou melhor, igrejas do mercado, igrejas do cristofascismo avançando, mas existe ao mesmo tempo muita consciência de classe, muita gente muito digna e muito boa na luta, construindo suas próprias lutas.
Eu funciono de forma freiriana, na base da esperança: é uma estratégia dos trabalhadores, das trabalhadoras, uma estratégia feminista: a esperança não está dada, é você que tem que construir. A questão para mim é sempre como construir esperança, me colocando a pergunta: posso eu ser mais criativa do que o instinto de morte, do que o capitalismo, do que o patriarcado? É isso que a gente tem que se perguntar.
O que a experiência do exílio mostrou que você não conseguia ver de dentro do Brasil?
Acabei de escrever um livro, que entreguei há dois meses e será lançado no ano que vem, sobre esse período do exílio, em que conto a coisa do ponto de vista da minha experiência individual, dos meus atravessamentos, sofrimentos e desafios. Eu e o Jean também escrevemos um livro sobre isso, O que não se pode dizer: experiências do exílio, e de fato, a gente não saiu do Brasil nas melhores condições; saímos por necessidade de sobreviver, porque estávamos sendo ameaçados, fui muito ameaçada e sofri muito. Não consegui sair porque quis, pura e simplesmente; consegui sair ajudada por pessoas.
O que descobri? Que o Brasil é um lugar maravilhoso para se viver, porque tem uma bossa, um charme, um campo aberto, uma afetividade. E o Brasil é um lugar horrível, porque é patriarcal, é machista, está vivendo um surto de feminicídio horroroso, temos um país oligárquico, colonialista, externo e interno; a nossa história é uma história de escravizações muito tenebrosas, de matança de pessoas negras, indígenas, de mulheres, mas, ao mesmo tempo, o Brasil é um território do possível, um lugar para a gente construir. Tem muita luta se desenvolvendo, e essa luta é muito criativa. Morei em lugares que não tinham essa graça, que eram frios; eu sempre quis voltar.
Quando saí, eu estava muito assustada, não sabia o que ia acontecer, e lutei naquilo que pude, dentro dos meus limites, para que a democracia avançasse, isso que eu fiz, milhões de brasileiros fizeram. Voltei para o Brasil muito grata pelas pessoas que lutaram pela democracia, mas muito ciente dos meus limites — o que eu aprendi foram os meus limites. Quando fui candidata, eu não tinha noção deles, e essa falta de noção prejudicou o meu avanço, a minha possibilidade de continuar no território da política. E esses limites não são só meus, no sentido das minhas competências; são também limites relacionados à minha condição de gênero, ao longo desses 56 anos de vida, me dei conta de que eu, você e todas as mulheres não temos consciência do quão vítimas da misoginia a gente é. A misoginia estrutural nos barra.
Na condição de mulher branca, professora, doutora, hoje eu nem tenho mais trabalho nesse território: não tenho mais universidade, não tenho mais emprego, mas sou uma escritora — fui resgatada do Brasil justamente porque sou escritora, por uma instituição que protege escritores perseguidos. Aprendi que a gente avança quando se une com as pessoas certas, e as pessoas certas para a gente se unir são as mulheres. Marielle Franco morreu porque estava desprotegida; estava unida às mulheres, estava na Partida, com as mulheres pretas, mas estava desprotegida, porque não sabia que podia ser morta mesmo, a gente precisa ter consciência dessa fragilidade. A gente tem que estar viva, saudável do ponto de vista físico, emocional e psíquico, buscando, a partir dos nossos limites, os melhores encontros para construir um outro mundo possível, e, para mim, um outro mundo possível no Brasil passa por um outro Congresso possível, que é o nome do nosso atual movimento.
Quando não está nos ajudando a pensar um futuro mais esperançado, o que Marcia Tiburi mais gosta de fazer?
Pintura. Sou formada em artes e, nos últimos anos, desde que saí do Brasil, me dediquei às artes visuais. É uma carreira, um trabalho que estou realmente levando a sério. Isso que você está vendo aqui é uma obra minha. Este ano vai ter uma exposição no final do ano, e as pessoas vão poder ver — é um trabalho que faço muito escondidinho, pouca gente sabe.
Escrevi vários livros: sete romances, um livro de contos, toda uma produção acadêmica, seis diálogos, várias coletâneas. Mas tem uns dez ensaios que eu considero a minha obra não ficcional que talvez realmente importem. O Ninfa Morta é o último deles, mas tem o Complexo de Vira-Lata, o Mundo em Disputa, o Olho de Vidro, o Filosofia Prática, o Como Conversar com um Fascista, o Do Turbotecnomacho Nasce o Fascismo, o Ridículo Político, o Delírio do Poder, e assim por diante. Hoje me dedico às artes visuais, aos meus cursos de filosofia e de psicanálise, e agora a esse clube do livro que estou começando. Tenho colaborado com os ativismos diversos e trabalhado no campo da produção da consciência, que acho que pode ser algo realmente importante, sobretudo numa época em que a gente começa a terceirizar nossa consciência para a inteligência artificial, para as redes sociais, nesse universo de vícios psíquicos em relação a telas e algoritmos. Tenho tentado ser uma pensadora da minha época. Isso dá um bom trabalho, porque você tem que ler muito, estar sempre pensando, refletindo, escrevendo, me dedico a isso.
Serviço
Ninfa Morta: uma história do ódio às mulheres
Autora: Marcia Tiburi
Editora: Planeta
Ano: 2025
304 páginas
