O músico irlandês Glen Hansard, 56, morreu na quarta-feira, 29, em um acidente de motocicleta na região metropolitana de Dublin. Ele chegou a ser socorrido, mas teve a morte constatada ainda no local. Deixa um filho de 3 anos.
A notícia silenciou os palcos e as ruas da capital irlandesa, as mesmas em que Hansard começou a tocar, aos 13 anos, e às quais voltou todos os anos até o fim da vida.
Das ruas ao Oscar
Hansard cresceu em Ballymun, bairro periférico e violento de Dublin. Abandonou a escola aos 13 anos e foi para o centro da cidade fazer busking, prática de tocar nas ruas em troca de doações. Foi ali que desenvolveu a característica mais citada por quem o conheceu: a solidariedade com o próximo.
Em 1991, aos 21 anos, participou do clássico irlandês The Commitments e alcançou as primeiras posições nas paradas do país com sua banda, The Frames. Em 2006, formou o duo The Swell Season com a tcheca Markéta Irglová, sem abandonar o grupo.
A projeção internacional veio com Once (2007), que protagonizou ao lado de Markéta. O filme acompanha dois jovens que tentam se firmar como músicos enquanto enfrentam conflitos e decepções amorosas. Sem final feliz, tornou a dupla um sucesso mundial e rendeu a ambos o Oscar de melhor canção original, em 2008, por “Falling Slowly”.
Hansard seguiu carreira solo a partir de 2012, com Rhythm and Repose, e foi indicado ao Grammy pelo álbum Didn’t He Ramble, de 2015.
O busking de Natal
Desde 2010, Hansard organizava, na véspera de Natal, um busking coletivo na Grafton Street para arrecadar doações destinadas à população em situação de rua de Dublin.
A origem do evento, contada por ele a um veículo australiano, é quase acidental. Na antevéspera de Natal, andava apressado pelo centro para fazer as últimas compras quando foi abordado por um voluntário de um coro que cantava canções natalinas. Recusou o convite, foi para casa e se sentiu culpado. Na noite seguinte, pegou o violão e foi para a rua fazer o que fizera durante boa parte da vida: busking. Decidiu que a arrecadação iria para a ONG Simon Community, que atende pessoas sem-teto.
Nas primeiras canções, um amigo músico se juntou a ele. Depois veio a multidão, e outros artistas passaram a se revezar. O ato virou tradição anual, com grandes nomes da música irlandesa e aparições como a de Bono. Hansard fazia questão de ajustar a agenda internacional de shows para não perder nenhuma edição, mantendo sempre o formato de movimento de rua, sem palco nem ingresso.
Um por todos
A morte súbita chocou o país. No local do acidente, fãs deixaram flores. Na quinta-feira (30), músicos de diferentes pontos da cidade se reuniram no centro para uma homenagem coletiva, e vários buskers tocaram “Falling Slowly”.
O compositor Barra Donovan, de Swords, lamentou a perda. “Once foi um dos meus filmes favoritos enquanto eu crescia, e sua música foi uma grande influência no meu trabalho de compositor. Ele era um pilar para a nossa comunidade. Estamos todos desolados”, disse. Donovan lembrou um encontro recente com Hansard. Ao pedir um conselho, ouviu: “Não pare e não desista”.
Para o músico e compositor Chris James, Hansard representa toda uma cultura de músicos, poetas e artistas irlandeses. “Ele era a personificação da arte”, resumiu. James acredita que o busking de Natal será mantido. “Eu acredito que será ainda maior: um por todos e todos por um, vamos manter a tradição.”
Uma referência internacional

O alcance de Hansard extrapolou os nascidos na ilha. Para a brasileira Paula Freitas, que mora na Irlanda há oito anos, o músico foi a primeira chave de leitura do país.
“Muito mais do que homenagem, é agradecimento”, disse ela, emocionada, ao comparecer às homenagens. “Fui apresentada a Glen em 2019, pouco depois de chegar à Irlanda. Como todo imigrante, o primeiro contato que a gente tem com ele é pelo filme Once.”
A partir dali, conta, veio o resto: outros artistas, outras referências, outra compreensão da Irlanda. “Ele é um artista que agrega muito em tudo o que faz. Através dele consegui conhecer outros artistas, entender um pouco mais da Irlanda, da generosidade dele e viver momentos especiais por causa das músicas dele e da Markéta.”
Paula acompanhou shows do cantor sozinho e ao lado da parceira tcheca, entre eles uma apresentação no National Concert Hall, em que Hansard chamou crianças e famílias para cantar com ele, e outra na Vicar Street, no lançamento de “The Answer Is Yes”. O busking de Natal, no entanto, ficou entre os planos não cumpridos. “Nunca tive a oportunidade de me deparar com ele na Grafton, ou às vezes pegar ele ali com o Bono. Nunca tive, não.”
Ela morava na região onde ocorreram as homenagens e se mudou recentemente. “Não tinha lugar melhor para esse ciclo ser fechado. Ver as homenagens, perceber quão especiais são as pessoas que o cercavam e experienciar essa atmosfera acalenta um pouco o coração.”
A despedida
Diferentemente do Brasil, na Irlanda o velório e o enterro não ocorrem em 24 horas. O processo pode levar até uma semana. O velório costuma acontecer na casa da família ou em uma agência funerária, em meio a uma pequena celebração, com comida e bebida. O de Glen Hansard começou nesta segunda-feira (3), e o enterro está marcado para terça-feira (4).
O intervalo, estranho aos olhos brasileiros, faz sentido para quem já viveu os dois lados. “Comparado com o Brasil, leva muito tempo”, avalia Paula. “Mas, do ponto de vista de quem ficou, é um tempo necessário: ajuda a pessoa a digerir a situação e a se recompor para estar presente nesses últimos momentos, que é quando todo mundo se junta e relembra as memórias. Você precisa estar forte para um momento desses. Eles dão muito valor a essa despedida.”
