Em texto para discussão do Instituto de Economia da Unicamp – “A política social e os limites do experimento desenvolvimentista (2003-2014)” -, André Calixtre e Eduardo Fagnani dividem os anos 1990 até 2014 no Brasil em cinco períodos: contrarreforma truncada (1990-94); retomada da contrarreforma liberalizante (1995-2002); continuísmo econômico e ambiguidades na proteção social (2003-06); crescimento e inclusão social (2007-10); e recrudescimento das tensões (2011-14).

Gráfico retirado da publicação revela que o salário mínimo sofreu perdas reais expressivas entre 1963 e 1994, quando então inicia uma etapa de recuperação intensificada a partir de 2004. No entanto, o Brasil fez um curto salto de 4,24 pontos percentuais entre 2003-2014, recuperando apenas uma parte do que foi perdido desde o Golpe de 1964 e a taxa de salários sobre o PIB nunca se tornou majoritária.

Os autores apontam que o período democrático da era trabalhista (especialmente entre 1951 e o começo de 1964) e os governos Lula e Dilma (2003-2016) guardam similaridades: foram dois tempos em que o Brasil transitou nos limites da experiência desenvolvimentista e foram períodos curtos, depois dos quais houve longos períodos de estabilidade ou retrocesso do conflito na distribuição das rendas, com golpes (militar no primeiro caso e parlamentar no segundo). Segundo os autores, em ambos os casos, os golpes vêm reverter os ganhos da classe trabalhadora sobre a apropriação do excedente social.

Segundo os autores, o período 2016-18 pode representar o fim desse ciclo inédito de construção da cidadania social (1988-16). A radicalização do projeto liberal, derrotado nas últimas quatro eleições, representa uma oportunidade para que os detentores da riqueza levem ao extremo a reforma do Estado iniciada nos anos de 1990.