“Ratificamos, oficializamos. Lula presidente, Geraldo Alckmin vice-presidente.” A declaração do presidente do PT, Edinho Silva, formalizou, diante de cerca de 3 mil pessoas reunidas no Expo Center Norte, em São Paulo, a chapa que disputará a reeleição em outubro.
A convenção nacional da sigla, realizada no domingo, 2, confirmou Luiz Inácio Lula da Silva como candidato à Presidência e Geraldo Alckmin, do PSB, novamente como vice. Soberania e crescimento econômico com inclusão social foram apresentados como os eixos da campanha.
A composição repete a parceria de 2022, mas parte de uma aliança mais ampla. PT, PCdoB e PV, reunidos na Federação Brasil da Esperança, chegam ao primeiro turno ao lado de PSB, PSOL, Rede e PDT. Segundo o levantamento histórico apresentado pelo PT, é a primeira vez desde a retomada das eleições diretas, em 1989, que as sete siglas classificadas como de esquerda e centro-esquerda apoiam uma única candidatura presidencial desde o início da disputa. Em 2022, o PDT concorreu com candidatura própria.
Lula entra em sua sétima eleição presidencial, aos 80 anos, e busca um quarto mandato, o segundo consecutivo. A convenção ocorreu num cenário de competição estreita com o senador Flávio Bolsonaro, oficializado candidato do PL em 25 de julho e ainda sem vice definido.
Os dois candidatos chegam à campanha sob pressões distintas. Flávio ainda busca ampliar sua aliança e enfrentou a repercussão das negociações mantidas com o empresário Daniel Vorcaro para obter patrocínio para um filme sobre Jair Bolsonaro.
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, já foram homologadas as candidaturas de Ronaldo Caiado, do PSD, Romeu Zema, do Novo, Renan Santos, do Missão, Samara Martins, da Unidade Popular, Leonardo Avalanche, do PRTB, Edmilson Costa, do PCB, e Hertz Dias, do PSTU. As convenções partidárias terminam em 5 de agosto. Os pedidos de registro poderão ser apresentados à Justiça Eleitoral até o dia 15, e a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto.
Entregas e próxima etapa
O discurso de Lula foi organizado em dois tempos. O candidato recorreu aos programas criados em seus primeiros mandatos e às ações do governo federal desde 2023 para sustentar a ideia de continuidade, mas procurou definir o eventual quarto mandato como uma nova etapa. “Quem fez pode prometer mais, quem não fez não tem o que prometer”, afirmou.
Lula mencionou Prouni, Reuni, Fies, Pé-de-Meia e Minha Casa, Minha Vida, além da reforma tributária, da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e da retomada das demarcações de terras indígenas e da regularização de territórios quilombolas.
A enumeração funcionou como base para a expressão repetida no discurso: o país está pronto para um “salto de qualidade”, com mais investimentos em educação, ciência, tecnologia, indústria e infraestrutura.
O crescimento das emendas parlamentares também entrou no pronunciamento. Lula afirmou que a transferência de recursos e atribuições do Executivo para o Congresso deverá ser discutida e defendeu uma bancada comprometida com a recuperação da capacidade do Estado de planejar e executar políticas de alcance nacional.
O candidato também reconheceu limites de seus governos. Pediu desculpas pelos erros e pelo que não conseguiu realizar e afirmou que governar exige escolhas. Ao dizer que não pretende ser lembrado somente pelo Bolsa Família, sinalizou que a próxima campanha deverá apresentar compromissos estruturais para além da proteção social já existente.
Cinco temas foram destacados para um eventual novo mandato: soberania sobre recursos estratégicos, enfrentamento à violência contra as mulheres, transformação da educação, criação de uma política nacional para os idosos e fortalecimento da defesa do país.
No trecho dedicado às mulheres, Lula afirmou que o combate ao feminicídio não pode ser responsabilidade apenas das vítimas e dos movimentos feministas. “Não existe contrato que permita ser dono”, disse, ao falar sobre relações afetivas e violência.
A participação feminina também produziu um dos momentos de autocrítica da convenção. Ao perceber que nenhuma mulher havia discursado até então, Lula chamou a primeira-dama Janja Lula da Silva ao palco. “Somos nós, mulheres, que vamos eleger você novamente”, disse Janja, antes de tratar do Pacto Brasil contra o Feminicídio e da rotina de trabalho e cuidado enfrentada pelas mulheres.
Soberania liga economia, defesa e política externa
A soberania foi o ponto de contato entre diferentes partes do discurso. Lula associou o tema à exploração de terras raras e minerais críticos, ao desenvolvimento de inteligência artificial no Brasil, à capacidade da indústria nacional de transformar matérias-primas e ao investimento em defesa. A formulação deslocou a soberania de uma referência abstrata para escolhas econômicas e tecnológicas que poderão integrar o programa de governo.
“No Brasil, não aceitamos que ninguém se meta onde não deve”, declarou. A frase também respondeu ao ambiente internacional que passou a cercar a eleição. Na convenção do PL, uma semana antes, Flávio Bolsonaro recebeu manifestações de apoio do presidente da Argentina, Javier Milei, presente ao evento, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por vídeo. Jair Bolsonaro, preso desde 2025, apareceu em uma peça produzida com inteligência artificial para apoiar o filho.
Inteligência artificial e disputa pelo eleitor
Lula dedicou parte do pronunciamento à desinformação produzida com inteligência artificial. O assunto ganhou materialidade depois do vídeo exibido na convenção do PL e deve permanecer na campanha. “O que vai prevalecer é a entrega que nós estamos fazendo ao povo brasileiro”, afirmou.
Ao orientar apoiadores a esclarecer, em vez de brigar, o candidato reconheceu que a disputa exigirá diálogo com eleitores que votaram no bolsonarismo, mas não mantêm adesão permanente ao grupo. O ponto indica uma estratégia voltada para fora da base organizada dos partidos que compõem a aliança.
A idade, tema recorrente entre adversários, também foi enfrentada diretamente. Lula falou sobre a rotina de exercícios, comparou sua sétima candidatura à longevidade de atletas e afirmou que não pretende concorrer novamente em 2030. O assunto apareceu ao lado da defesa de experiência política e capacidade física para mais um mandato.
Convenções desenham os palanques nos estados
A convenção nacional foi precedida por uma série de encontros estaduais que começaram a definir as chapas apoiadas pelo PT. Em São Paulo, Fernando Haddad concorrerá ao governo com Márcio França, do PSB, como vice; Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB, disputarão as duas vagas ao Senado.
Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues tentará a reeleição, enquanto Jaques Wagner e Rui Costa foram lançados ao Senado. No Piauí, Rafael Fonteles disputa novo mandato ao lado de Washington Bandeira, com Marcelo Castro, do MDB, e Júlio César, do PSD, para o Senado.
No Rio Grande do Norte, a convenção confirmou Cadu Xavier ao governo, Larissa Rosado, do PSB, como vice, e Samanda Alves para o Senado. No Rio Grande do Sul, Edegar Pretto foi homologado como vice de Juliana Brizola, do PDT, e Paulo Pimenta como candidato ao Senado. Fábio Trad concorrerá ao governo de Mato Grosso do Sul; Leandro Grass, ao governo do Distrito Federal, com Érika Kokay e Leila Barros, do PDT, ao Senado; e Hélder Salomão, ao governo do Espírito Santo.
No Ceará, Elmano de Freitas concorrerá à reeleição com Gabriella Aguiar, do PSD, como vice e Cid Gomes, do PSB, ao Senado. No Rio de Janeiro, o PT formalizou apoio à chapa de Eduardo Paes, do PSD, ao governo, com Jane Reis, do MDB, como vice, Benedita da Silva e Pedro Paulo, do PSD, para o Senado.
Também foram oficializados Humberto Costa por Pernambuco, Décio Lima por Santa Catarina e Randolfe Rodrigues pelo Amapá na disputa pelo Senado. Em Sergipe, a convenção que deverá homologar a candidatura do senador Rogério Carvalho à reeleição está marcada para 5 de agosto.
