Após o terremoto de grande magnitude que ocorreu há duas semanas na Venezuela, o governo brasileiro segue em contribuição com o país vizinho. Além dos trabalhos de resgate das vítimas, durante o final de semana, foram enviadas mais de 12 toneladas de suprimentos entre medicamentos, vacinas e outros insumos de saúde, e também purificadores de água.
O Brasil se destaca entre entre os países da delegação humanitária, com cerca de 174 profissionais somente na área da saúde e um hospital de campanha montado pelo governo brasileiro, com estrutura para cirurgias e atendimento emergencial, na região mais afetada, em La Guaira, ao norte do país. Na unidade, há 93 militares da Marinha brasileira em serviço.
Para fortalecer as buscas por sobreviventes, os trabalhos nos escombros das estruturas contam com 71 bombeiros brasileiros, quatro especialistas da Defesa Civil e seis técnicos da Anatel. No total, a delegação internacional conta com profissionais de 31 países.
De acordo com o último balanço do governo venezuelano, há o registro de 3.342 mortos e mais de 16 mil desabrigados. O Serviço Geológico dos Estados Unidos informou que a previsão para o número total de mortes pode ultrapassar 10 mil. Há uma contagem não oficial que circula no país que já aponta 41 mil desaparecidos.
“A postura do governo brasileiro é a de reafirmação de um compromisso com os trabalhadores latino-americanos, com um país que vem sofrendo sanções históricas do império norte-americano, e simboliza uma postura digna do povo brasileiro de contribuição nesse momento tão necessário para salvar vidas e reconstruir as casas populares para as famílias que ficaram desoladas, sem moradia”, afirma Rosana Fernandes, militante do MST.
A coordenadora da brigada Apolônio de Carvalho, na Venezuela, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, afirma que: “o Brasil representa uma força no continente e no Sul Global, é uma grande referência do progressismo atual e para governos de esquerda”. E completa: “seguimos acreditando que é possível fazer muita coisa desde o institucional”.
Solidariedade
Movimentos populares lançaram na semana passada a campanha de solidariedade internacionalista “Somos Venezuela”, com o foco em receber apoio e concentrar a ajuda financeira em doações via pix para a Associação Brasil Popular, que repassa integralmente os valores para o atendimento das equipes de socorro e famílias desabrigadas. Para contribuir, a chave pix é [email protected] .
Há pelo menos 20 anos, o MST mantém uma parceria estabelecida com o povo venezuelano. Por meio da brigada Apolônio de Carvalho, que hoje é coordenada por Rosana, o movimento colabora com o país nas áreas de produção agroecológica, soberania alimentar, produção de sementes, trabalho cooperativo e formação política, além de manter intercâmbio de estudantes em medicina.
As ações de integração popular ocorrem em parceria com os movimentos camponeses, Ministério da Agricultura e o Ministério de Comunas da Venezuela. A iniciativa teve início em 2006, após a visita do ex-presidente Hugo Chávez a um assentamento do MST em Tapes, no Rio Grande do Sul, durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, no ano anterior.
Contexto político
Na última sexta-feira (5), a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, completou seis meses no comando do país desde que Nicolás Maduro foi capturado e segue detido pelo governo dos Estados Unidos.
Após o terremoto, Rodríguez contou à imprensa que conversou com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio. Apesar de condenar a captura de Maduro, a presidente mantém relações diplomáticas com os EUA desde sua chegada ao poder.
Para Rosana Fernandes, a realidade no cotidiano venezuelano é bastante diferente das informações que circulam. “Há narrativa da extrema direita com informações falsas disseminadas pelas redes sociais e até mesmo pelos grandes meios de comunicação. São distorções do que está ocorrendo aqui. Precisamos combater essa atuação, trazer o que está acontecendo de verdade”, opina.
Neste sentido, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, ligado aos movimentos, elaborou um boletim com a perspectiva de desmontar mitos relacionados ao momento atual da Venezuela.
Sanções
Desde 2014, o governo da Venezuela encara uma situação de sanção internacional. A história do bloqueio começa quando o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Defesa dos Direitos Humanos na Venezuela, que previa a aplicação de sanções contra os venezuelanos. A partir desse ponto, o quadro só piorou, com mais sanções promovidas por Barack Obama, a partir de 2015, e intensificadas no primeiro governo de Donald Trump.
Em 2019, foi levantado um bloqueio comercial contra a estatal petrolífera PDVSA, além do congelamento de ativos do governo venezuelano nos EUA e restrições secundárias a países que comercializam petróleo venezuelano. O que retraiu ainda mais o PIB do país.
Após o terremoto, o presidente dos Estados Unidos suspendeu até outubro as sanções comerciais para que o país possa receber ajuda internacional no período de reconstrução. Movimentos populares pressionam para que o bloqueio seja revertido em definitivo.
“Essa situação das sanções demonstra uma desumanidade, arbitrariedade, um anti democratismo diante de um país, assim como outros que os Estados Unidos buscam conflitos. Isso traz um impacto direto na vida das pessoas, na vida do país, no desenvolvimento econômico e político”, pondera Rosana Fernandes.
