Em telefonemas com os presidentes dos Estados Unidos e da França, Lula apresenta propostas sobre Gaza, reforma da ONU e cooperação internacional, reforçando a centralidade do multilateralismo em um cenário de instabilidade global

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve, em sequência, conversas telefônicas com os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da França, Emmanuel Macron, colocando o Brasil no centro da agenda diplomática internacional em um momento de instabilidade global.
Os contatos ocorreram em meio a conflitos armados em curso, tensões institucionais e desgaste político do governo norte-americano, e tiveram como eixo a apresentação de posições brasileiras próprias sobre segurança internacional, multilateralismo e governança global.
A ligação com Trump ocorreu na manhã de segunda-feira (26) e durou cerca de 50 minutos, segundo nota do Palácio do Planalto.
Na conversa, Lula tratou da relação bilateral e de temas da agenda internacional, com destaque para a proposta norte-americana de criação de um “Conselho da Paz”.
O presidente brasileiro condicionou qualquer participação do Brasil à limitação do órgão à situação em Gaza e à garantia de assento para a Palestina. “O presidente Lula propôs que o órgão se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina”, informou o Planalto.
A posição apresentada diretamente ao presidente norte-americano dialoga com críticas públicas feitas por Lula nos dias anteriores. Em declarações recentes, durante eventos públicos do Planalto, o presidente alertou que iniciativas paralelas podem enfraquecer o sistema multilateral.
“Criar uma estrutura fora da ONU é enfraquecer a ONU”, afirmou, ao defender o fortalecimento das instituições existentes.
Lula reiterou ainda a defesa de uma reforma ampla da Organização das Nações Unidas, com ampliação do Conselho de Segurança. Segundo o presidente, a estrutura atual não reflete a correlação de forças do século XXI. “A ONU precisa ser fortalecida, não substituída”, disse.
Cooperação internacional é pauta de Lula
No mesmo telefonema, Lula apresentou a Trump proposta de aprofundamento da cooperação bilateral no combate ao crime organizado transnacional, com foco em lavagem de dinheiro, tráfico de armas, congelamento de ativos e intercâmbio de informações financeiras.
A Presidência da República informou que a iniciativa foi recebida de forma positiva. Os dois presidentes também trocaram informações sobre indicadores econômicos e mencionaram a recente redução de tarifas aplicadas a produtos brasileiros.
A situação da Venezuela integrou a conversa, com Lula destacando a importância da estabilidade regional e da busca por soluções diplomáticas. Ao final do diálogo, ficou acertada a realização de uma visita oficial do presidente brasileiro a Washington, após compromissos internacionais na Ásia, com data a ser definida.
No dia seguinte, Lula conversou por telefone com o presidente francês Emmanuel Macron. Segundo o Planalto, os dois líderes convergiram na defesa de que iniciativas de paz e segurança estejam subordinadas ao Conselho de Segurança da ONU e à Carta das Nações Unidas, reforçando a centralidade do multilateralismo.
Também trocaram impressões sobre a situação na Venezuela e condenaram o uso da força em desacordo com o direito internacional.
Lula reiterou ainda o apoio ao acordo entre Mercosul e União Europeia, destacando seu papel estratégico para o comércio internacional baseado em regras e para a diversificação das relações econômicas do Brasil. Os contatos diplomáticos ocorreram em um momento de pressões externas e internas sobre o governo dos Estados Unidos, marcado por tensões envolvendo a Groenlândia, o Irã e a Venezuela, além de disputas políticas domésticas, contexto no qual o presidente brasileiro manteve diálogo direto sem abrir mão das posições históricas da diplomacia brasileira.
