Quase uma década após o vexatório PowerPoint criado por Deltan Dallagnol para tentar responsabilizar Lula por crimes que jamais cometeu, a Globo resolveu repetir a estratégia do ex-procurador da Operação Lava Jato ao usar uma “arte” em que o presidente aparece relacionado ao escândalo do Banco Master.
O quadro, inspirado em murais de investigação policial, foi exibido no telejornal Estúdio I no último dia 19 de março e imediatamente gerou enorme repercussão negativa nas redes. Isso porque a escolha dos personagens do quadro foi feita sem nenhum critério técnico, negligenciando as menções feitas pela própria Polícia Federal. Como agravante, ainda colocou Lula logo ao lado de Daniel Vorcaro, hoje preso por fraudes financeiras bilionárias.
De acordo com levantamento do analista de redes Pedro Barciela, publicado pelo portal ICL Notícias, o assunto foi amplamente dominado por postagens críticas à arte feita pelo canal. Segundo a análise, 84% dos comentários sobre o assunto foram potencialmente negativo para a GloboNews.
Ao todo, o levantamento monitorou 159 mil publicações no período de 72h (do programa de sexta até a manhã desta segunda-feira), nas redes sociais X, o antigo Twitter, Instagram e Facebook. Apenas 8% dos posts defendiam a GloboNews e outros 8% foram neutros.
“O que a Globonews tentou fazer ali nada mais é do que um grafo. A ideia de um grafo é que as conexões (arestas) têm importância e, principalmente, peso. O peso de uma conexão é o que define a proximidade entre os atores e principalmente o tamanho da aresta”, explicou o analista de redes Pedro Barciela.
Dia da vergonha
Nesta segunda-feira (23), a jornalista Andrea Sadi se pronunciou para tentar diminuir o efeito negativo da publicação. “O material estava errado e incompleto, e também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações. A arte também está incompleta, pois não foram incluídos nomes que já se tornaram públicos por envolvimento com o caso Master, como os de ministros do Supremo e políticos, nem ex-diretores do Banco Central que estão sob escrutínio da Polícia Federal por suspeitas de corrupção na relação com o banqueiro… Diante de um material incompleto e em desacordo com nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas”, informou.
Além da reação das redes, diversos portais de notícias e até ex-jornalistas da emissora criticaram o PowerPoint. A jornalista Neide Duarte, que atuou durante muitos anos como repórter especial da Globo, chamou o fato de “Dia da vergonha”.
“Acredito que a editoria que mandou fazer essa cartolina esqueceu vários nomes principais dessa história. Por exemplo, Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, foi na época dele que tudo começou; Tarcísio de Freitas, que recebeu 2 milhões de reais de Vorcaro; Jair Bolsonaro, que recebeu 3 milhões de reais de Vorcaro; Ibaneis Rocha, governador de Brasília, que quis comprar o Banco Master através do Banco de Brasília para salvar Vorcaro; Claudio Castro, governador do Rio, que investiu bilhões do fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio em papéis podres do Master”, escreveu.
O jornalista Ari Peixoto, que trabalhou por 34 anos na TV Globo, também fez críticas ao PowePoint da emissora. “A Globo se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda (…) “Preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O power point da lava a jato vai parecer desenho de criança do jardim de infância”, completou o jornalista.
Escolha errada e seletiva
O PowerPoint exibido no programa comandado pela jornalista Andréa Sadi mostra que os quatro principais nomes supostamente ligados a Vorcaro, são todos do campo da esquerda: Lula, Guido Mantega, “PT da Bahia” e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
Em contrapartida, o quadro ignora o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que receberam R$ 5 milhões do operador financeiro de Vorcaro no Master, Fabiano Zettel, na campanha de 2022.
O PowerPoint também ignora diversos nomes já investigados pela PF e que fazem parte da extrema direita e do chamado Centrão.
