A semana foi marcada por uma escalada de tensões diplomáticas envolvendo o Brasil, pela expansão de incêndios florestais em diferentes partes da Europa e por novos movimentos da extrema direita diante de episódios de violência. Em comum, os acontecimentos revelam como crises políticas, ambientais e sociais passaram a se alimentar mutuamente em um cenário internacional cada vez mais instável.

Na América do Sul, o governo brasileiro reagiu aos ataques de Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes durante a convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. O episódio elevou o tom da relação entre Brasil e Argentina e levou o Itamaraty a convocar os embaixadores dos dois países para tratar do caso.

Ao mesmo tempo, a Europa voltou a enfrentar incêndios de grandes proporções, com milhares de pessoas retiradas de suas casas e áreas naturais destruídas em França, Espanha, Itália, Irlanda e Escócia. Em Berlim, um ataque nas proximidades da Parada do Orgulho reacendeu o debate sobre terrorismo, leis antiextremismo e o avanço eleitoral da extrema direita. Já na relação entre Brasil e China, Xi Jinping manifestou apoio à soberania brasileira diante da pressão tarifária exercida pelos Estados Unidos.

Brasil convoca embaixador após ataques de Milei a Lula e Moraes

O governo brasileiro convocou neste domingo, 26, seu embaixador na Argentina, Julio Bitelli, para consultas, em reação aos insultos proferidos pelo presidente argentino Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras autoridades durante ato político realizado em São Paulo. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o governo também convocou o embaixador argentino no Brasil para tratar do episódio.

Milei viajou ao Brasil para participar, no sábado, 25, da convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. Durante o discurso, sem citar nomes diretamente, chamou Lula de “condenado” e “ladrão” e se referiu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes como “careca lixo”.

O presidente argentino também alertou para um suposto “risco Lula” e conclamou o Brasil a se libertar da “subjugação à esquerda”. Para uma fonte diplomática brasileira ouvida pela AFP, Milei “insultou dois Poderes, o povo brasileiro e a democracia brasileira”.

Milei afirmou ainda que Moraes o teria impedido de visitar seu “amigo injustamente preso” Jair Bolsonaro, condenado por envolvimento na tentativa de golpe de 2022. O magistrado já havia negado autorização para a visita ao ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.

Durante a posse da presidência do Sindicato dos Metalúrgicos, no domingo, Lula reagiu. Sem citar nomes, afirmou que seguirá governando “sem a interferência de ninguém”, porque “no Brasil não aceitamos que ninguém meta o nariz onde não deve”.

Mais tarde, em entrevista à Rádio Mitre, Milei sustentou que a Argentina seria alvo de uma campanha negativa financiada por Brasil, México e pelo Partido Democrata dos Estados Unidos. “São os líderes progressistas que não querem que as ideias de liberdade funcionem”, afirmou, sem apresentar evidências.

O argentino parecia se referir, em parte, às críticas dirigidas à seleção de seu país durante a Copa do Mundo. A Espanha venceu a final por 1 a 0 em uma partida marcada por faltas, confusão em campo e jogadores argentinos de costas durante a cerimônia de premiação, episódio que rendeu acusações de falta de espírito esportivo.

Do site France 24/7

Incêndios sem precedentes ameaçam Bordeaux e devastam regiões da Espanha

As chamas chegaram neste domingo, 26, aos arredores de Bordeaux, cidade histórica no coração da região vinícola francesa, enquanto França e Espanha enfrentavam incêndios florestais que já forçaram a retirada de centenas de milhares de pessoas.

Na França, cerca de 220 mil moradores foram evacuados. Na Espanha, mais de 75 mil deixaram suas casas e outros 30 mil receberam ordem de permanecer abrigados.

O fogo devastou a península de Cap Ferret, na costa atlântica francesa, e avançou pelas áreas próximas à capital regional. O prefeito Thomas Cazenave informou que as chamas estavam a cerca de 15 quilômetros dos acessos à cidade e descartou, por enquanto, a evacuação da região metropolitana, onde vivem cerca de 850 mil pessoas.

“Temos um incêndio que não está sob controle e que se move em direção à área urbana. A situação geral é muito desfavorável, estamos diante de um cenário sem precedentes”, afirmou o ministro do Interior, Laurent Nuñez, à France 24/7.

Durante a madrugada, policiais percorreram casa a casa os municípios de Marcheprime e Cestas para retirar moradores.

Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez visitou as áreas atingidas em Ávila, uma das três províncias centrais afetadas, ao lado de Madri e Toledo. Segundo a ministra do Meio Ambiente, Sara Aagesen, o fogo já consumiu mais de 50 mil hectares na província, no maior incêndio da história recente do país.

Outro foco, em Castellón, no leste, destruiu mais de 4.300 hectares e entrou no parque natural da Serra de Espadán, região de pinheiros e sobreiros.

“O incêndio está fora de controle, é muito difícil de extinguir do ponto de vista técnico, sobretudo pelas condições meteorológicas adversas”, disse o líder regional de Valência, Juanfran Pérez.

Sánchez anunciou que declararia nesta terça-feira, 28, emergência de proteção civil nas províncias centrais, liberando recursos adicionais. Mais de 150 mil hectares queimaram na Espanha desde janeiro, área seis vezes maior que a destruída no mesmo período do ano passado.

Pelo mecanismo de proteção civil da União Europeia, Grécia e Itália enviaram dois aviões Canadair cada uma à Espanha. Portugal deslocou mais de 100 militares e equipamentos, e duas aeronaves também foram enviadas pela Turquia.

Os incêndios são o mais recente desastre associado à seca prolongada e às sucessivas ondas de calor intensificadas pelas mudanças climáticas, segundo cientistas. Tanto em Bordeaux quanto em Ávila, as máximas de julho ficaram em média em 32 °C, quase 6 °C acima do padrão registrado entre 1961 e 1990, conforme o Reuters Climate Monitor.

O papa Leão, de sua residência de verão em Castel Gandolfo, manifestou solidariedade e convocou orações “por todos os afetados e pelas equipes de resgate”.

Fogo se espalha por diferentes regiões da Europa

Na Escócia, cerca de 500 bombeiros combatem desde 15 de julho um grande incêndio no Parque Nacional de Cairngorms. Moradores da vila de Nethy Bridge, retirados na sexta-feira, puderam voltar no sábado.

Na Itália, focos fecharam por horas um trecho sul do anel viário de Roma e uma via de acesso à capital. As chamas também obrigaram a retirada de turistas de balneários na região do Gargano, na Puglia, alguns resgatados por mar pela guarda costeira, e suspenderam temporariamente o tráfego ferroviário perto de Acireale, na Sicília, e ao sul de Termoli.

Na Irlanda, equipes de resgate enfrentaram no sábado, 25, o sexto dia de combate às chamas em Slievenamon, no condado de Tipperary, onde a atividade do fogo voltou a crescer no flanco sul da montanha.

“Havia áreas já extintas ou sob controle que voltaram a queimar”, relatou ao RTE a chefe adjunta interina do serviço de bombeiros, Carol Kennedy.

A população foi orientada a evitar a região, manter portas e janelas fechadas nas áreas atingidas pela fumaça e redobrar os cuidados com crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas. Pecuaristas foram aconselhados a retirar os animais das zonas afetadas.

Em Wicklow, o principal incêndio em Glencree foi extinto, embora algumas áreas ainda permanecessem em chamas e a Military Road continuasse fechada. Outro foco, em Glencullen, no condado de Dublin, foi controlado com apoio de drone e de uma unidade especializada 4×4.

Do RTE e EuroNews

Ataque à Parada do Orgulho em Berlim fortalece discurso da extrema direita

O ataque ocorrido na noite de sábado, 25, nas proximidades do Christopher Street Day de Berlim, uma das maiores paradas do Orgulho LGBTQIA+ da Europa, deixou uma mulher morta e 29 pessoas feridas, algumas em estado grave.

Um veículo avançou contra a multidão no parque Tiergarten e o agressor, segundo o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, passou depois a atacar pessoas com um machete. O evento foi encerrado imediatamente.

O ministro classificou o caso como “ataque terrorista islamista” e afirmou estar “perplexo e profundamente abalado”. O prefeito-governador Kai Wegner destacou que a ação ocorreu fora do trajeto oficial da parada, mas a poucas centenas de metros de onde muitas pessoas ainda se concentravam.

O hospital Charité informou à agência DPA que quatro pacientes já haviam sido liberados e outros quatro permaneciam em terapia intensiva, nenhum em risco de morte naquele momento.

O suspeito, Abdul Ballout, alemão de 21 anos e de origem libanesa, foi localizado no domingo em uma área de hortas comunitárias no distrito de Spandau, após horas de buscas. Ele morreu em operação policial depois de avançar contra os agentes com uma faca.

Conhecido das autoridades por delitos como lesão corporal, extorsão e roubo, era classificado como radicalizado e propenso à violência. Tentou ir à Síria para se juntar ao Estado Islâmico, foi preso no retorno de uma viagem ao Líbano sob suspeita de preparar um atentado e permaneceu em prisão preventiva até maio de 2026.

Na tarde de domingo, o chanceler Friedrich Merz participou de um culto pelas vítimas na Igreja de Santa Maria, em Alexanderplatz. “Vamos defender a liberdade” e não permitir que “esse veneno do terrorismo e esse veneno dirigido contra nossa liberdade se espalhe mais em nossa sociedade”, declarou.

A secretária de Justiça de Berlim, Felor Badenberg, reconheceu a indignação pública diante da sequência de atropelamentos e ataques com faca no país e defendeu a revisão do direito penal juvenil.

A extrema direita passou a explorar o episódio a poucas semanas de três eleições estaduais previstas para setembro. A AfD, líder nas pesquisas nacionais, aparece com índices entre 38% e 40% na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

A colíder Alice Weidel acusou Merz de ignorar o extremismo islamista e a chamada “violência migrante”. Já a candidata do partido em Berlim, Kristin Brinker, atribuiu o ataque à “catastrófica política migratória dos últimos anos”.

Para Guido Friebel, da Universidade Goethe, que pesquisa os efeitos eleitorais de atentados, a AfD deve capitalizar politicamente o episódio. Segundo ele, a CDU enfrenta o dilema de ceder espaço à extrema direita ao ignorar o tema ou reforçar sua agenda ao adotar a mesma retórica.

A organização LSVD+ registra aumento de dez vezes nos ataques homofóbicos e antitrans nos últimos anos. Com marchas ainda previstas em Hamburgo, Nuremberg e Dortmund, ativistas afirmam que alertavam sobre ameaças vindas de islamistas e da extrema direita sem receber resposta adequada.

Do EuroNews e The Guardian

Xi declara apoio à soberania do Brasil diante da pressão dos Estados Unidos

O presidente chinês, Xi Jinping, afirmou nesta segunda-feira, 27, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que apoia o Brasil na oposição à “interferência externa”, segundo a agência estatal Xinhua.

“A China valoriza altamente a posição internacional e a importante influência do Brasil”, disse Xi. O líder chinês afirmou ainda que Pequim “apoia o Brasil na salvaguarda de sua soberania e independência, na oposição à interferência externa e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regionais e mundiais”.

O telefonema durou mais de uma hora e ocorreu a menos de três meses das eleições brasileiras. Lula e Xi concordaram sobre a importância de acelerar as negociações de um acordo entre Mercosul e China.

Lula afirmou estar “comprometido com a diversificação de mercados e parceiros comerciais”, em meio à pressão tarifária exercida pelos Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do Brasil.

Washington impôs neste mês duas rodadas de tarifas sobre produtos brasileiros, após uma primeira grande elevação em 2025, em retaliação ao julgamento da trama golpista que levou Jair Bolsonaro à prisão.

Lula tem denunciado a pressão tarifária norte-americana como tentativa de influência política em ano eleitoral.

Em outro desdobramento, o Brasil negou visto a dois funcionários dos Estados Unidos que pretendiam se reunir com autoridades eleitorais em Brasília antes da votação de outubro, segundo fonte diplomática ouvida pela AFP.

Flávio Bolsonaro voltou recentemente a repetir alegações sem provas de que o sistema de votação brasileiro seria inseguro, enquanto Donald Trump mantém afirmações falsas sobre as eleições norte-americanas.

Da AFP e da Agência Hong Kong Free Press