Relatórios da ONU apontam escalada em Gaza, no Líbano e na Cisjordânia; secretário-geral alerta que a guerra regional já se tornou motor de instabilidade global

Menina anda pelas ruas de Gaza. Foto: Jaber Jehad Badwan/Wickcommons

A violência e as baixas civis aumentaram em todo o Oriente Médio — de ataques aéreos israelenses em Gaza às hostilidades no Líbano e na Cisjordânia —, segundo relataram agências da ONU na sexta-feira, 31, quando o secretário-geral António Guterres declarou que “os combates precisam parar”. No sul do Líbano, o escritório de assuntos humanitários (OCHA) contabilizou ao menos 4.329 mortes e 12.233 feridos desde 2 de março, sendo 349 mortos e 229 feridos após o anúncio do último cessar-fogo. Em Gaza, Israel matou 1.180 palestinos e feriu outros 3.810 entre o cessar-fogo de outubro de 2025 e 22 de julho de 2026, informou a UNRWA, agência da ONU para refugiados palestinos, que registrou nesta semana novos ataques aéreos e disparos, restrições à entrada de ajuda e avanços da chamada “linha amarela”, que demarca o controle israelense. Na Cisjordânia ocupada, os ataques israelenses mataram 1.122 palestinos — ao menos 246 deles crianças — entre o início da guerra, em outubro de 2023, e 24 de julho de 2026, com 76 mortos apenas neste ano. Guterres registrou ainda que o Hamas e o Board of Peace do presidente norte-americano Donald Trump chegaram a um acordo sobre desarmamento e retirada total de Israel de Gaza.

As crianças seguem como as maiores vítimas: nos últimos cinco meses, mais de 4 mil foram mortas ou feridas em seis países, incluindo 2.500 no Irã, onde os bombardeios dos EUA prosseguem, com 386 mortas e 2.117 feridas, segundo o Unicef. “Ontem, na Ilha de Qeshm, na costa sul do Irã, uma criança de dois anos teria sido morta ao lado dos pais depois que um ataque atingiu um edifício residencial”, afirmou o diretor interino da agência para o Oriente Médio e Norte da África, Abdul Fofana, cobrando o cumprimento do direito internacional humanitário e advertindo que as partes “não devem normalizar o sofrimento das crianças, que continuam na ponta mais afiada de conflitos que não começaram e não têm poder para interromper”. Em Gaza, restrições a combustível, óleo de motor e peças de reposição deixaram mais da metade da frota da UNRWA fora de operação e afetaram 62 poços de água.

Em coletiva na sede da ONU, em Nova York, após visitar a região, Guterres alertou que o que começou como um conflito regional se tornou cada vez mais um motor de instabilidade global, prejudicando o comércio pelo Estreito de Ormuz, elevando preços de alimentos e energia, pressionando cadeias de suprimento e ampliando o risco de fome e pobreza no mundo. “A região e o mundo não podem se dar ao luxo de mais guerra”, disse. “Que fique claro: os combates precisam parar. Os direitos e liberdades internacionais de navegação no Estreito de Ormuz e em Bab al-Mandab devem ser plenamente restaurados e a diplomacia deve prevalecer.” Na última semana, os houthis, apoiados pelo Irã e que controlam grande parte do Iêmen, bloquearam a navegação ligada à Arábia Saudita em Bab al-Mandab e teriam atingido petroleiros sauditas. Sobre a Síria, o secretário-geral afirmou ter visto “um país começando a emergir de anos de devastação” e defendeu que a comunidade internacional responda “com ação, incluindo o levantamento total das sanções e apoio sustentado à recuperação”.

(Informações da ONU News)

Trump diz que Ormuz pode reabrir “amanhã”, mas Irã nega que negocie com os EUA

Presidente americano fala em “última chance” para Teerã e mantém bloqueio naval até “acordo ou rendição total”; Irã afirma que só conversa com Omã.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 3, durante a assinatura de uma ordem executiva na Casa Branca, que o Estreito de Ormuz pode ser reaberto “literalmente amanhã”. “A primeira fase é a abertura do estreito. A segunda fase será a desnuclearização”, disse, classificando as tratativas como “não muito complexas”. Ele descartou qualquer pedágio iraniano sobre navios: “Não vou deixar que cobrem de ninguém. Temos controle total. Temos uma coisa chamada bloqueio, com a Marinha dos EUA.” Trump também declarou que as novas conversas são a “última chance” de Teerã assinar “um bom documento” — “quero dar a eles todas as chances antes da decapitação”, disse — e afirmou que o contato partiu do Irã, com respaldo de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.

Teerã, porém, desmentiu as negociações. “Não estamos negociando atualmente com os Estados Unidos. Nossas negociações são com Omã, para assegurar a passagem pelo Estreito de Ormuz”, declarou o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, acrescentando que um eventual acordo não devolverá a via ao status anterior à guerra: “Precisamos garantir que o Estreito de Ormuz não possa ser mal utilizado por partes que cometeram agressão contra o Irã.” Trump reagiu no Truth Social chamando a liderança iraniana de “inacreditavelmente dúplice” e avisando que “nada passará, a menos que um acordo ou uma rendição total seja alcançado”. Autoridades ouvidas pela CBS News disseram não haver novidade: seguem as mesmas negociações intermediadas pelo enviado Steve Witkoff e por Jared Kushner. Fontes do governo paquistanês afirmaram à agência AA que mediadores ainda não confirmaram data nem local para retomar as conversas — Islamabad e Doha são os cenários mais prováveis. Um funcionário paquistanês disse ao Guardian que o chefe do Exército, o marechal de campo Asim Munir, tem mantido contato com o vice-presidente JD Vance, com Witkoff e com o chanceler iraniano Abbas Araghchi.

O impasse tem custo econômico e eleitoral. O preço médio do galão de gasolina nos EUA subiu mais de 37% desde o início da guerra, lançada por Trump e Israel no fim de fevereiro, e o presidente atacou as petroleiras: “Estão ganhando dinheiro demais. Chevron, dinheiro demais. ExxonMobil, dinheiro demais.” A ExxonMobil mais que dobrou o lucro do segundo trimestre, para US$ 14,5 bilhões, e a Chevron somou US$ 12,1 bilhões, mais de cinco vezes o registrado um ano antes. A pressão aumenta a pouco mais de três meses das eleições de meio de mandato, nas quais os republicanos podem perder a Câmara e até o Senado: pesquisa Reuters/Ipsos da semana passada mostrou que menos de um terço dos americanos apoia a guerra no Irã e 69% acham que Trump não explicou com clareza os objetivos do envolvimento militar. Três cessar-fogos já fracassaram desde abril. Para Alex Vatanka, pesquisador do Middle East Institute, Teerã concluiu que sua melhor estratégia é “maximizar a dor que pode impor aos Estados Unidos e a seus parceiros na região”.

(Informações do The Guardian)

Mamdani lança obra de moradia popular no Bronx e anuncia US$ 1 bilhão em habitação assistida

O prefeito da cidade de Nova Iorque no lançamento do programa. Foto: Reprodução do site da prefeitura de Nova Iorque

Casanova Residence terá 96 unidades com serviços no local para nova-iorquinos que viveram em situação de rua; investimento é 60% maior que o dos dois anos fiscais anteriores.

O prefeito de Nova York, Zohran Kwame Mamdani, participou nesta segunda-feira, 3, do lançamento das obras da Casanova Residence, empreendimento de moradia popular e assistida em Hunts Point, no Bronx, ao lado da organização The Doe Fund e de lideranças locais. Quando concluído, o edifício terá 96 unidades com serviços no próprio local. Dessas, 58 serão de habitação assistida, combinando aluguel acessível e atendimento a pessoas e famílias que convivem com transtornos mentais, dependência química ou condições médicas incapacitantes; as demais serão destinadas a trabalhadores por meio do sorteio habitacional da cidade. Os moradores terão acompanhamento social, educação e qualificação profissional, além de banda larga gratuita, academia, área externa paisagística e espaços comunitários operados pela The Doe Fund.

Por meio do plano Block by Block e do orçamento municipal recém-aprovado, a gestão Mamdani vai investir US$ 1 bilhão nos próximos dois anos fiscais para criar e preservar moradia assistida — alta de 60% em relação ao biênio anterior. “Moradia acessível e assistida é como construímos uma cidade em que cada nova-iorquino pode viver com dignidade. Estamos fazendo investimentos históricos em casas que darão às pessoas a estabilidade que merecem e mostram o que é possível quando o governo enfrenta a crise habitacional com urgência, em vez de desculpas”, afirmou o prefeito. Para a vice-prefeita de Habitação e Planejamento, Leila Bozorg, a cidade está investindo “em escala sem precedentes”, tanto em novos projetos quanto na preservação dos existentes. A comissária do HPD, Dina Levy, destacou que “quase 100 famílias e indivíduos terão um lugar acessível e seguro para viver”. Jennifer Mitchell, presidente e CEO da The Doe Fund, lembrou que a entidade mantém hoje mais de 1.300 moradias acessíveis e assistidas na cidade, em quase 40 anos de atuação com pessoas com histórico de situação de rua.

O projeto integra um esforço mais amplo. Ainda este ano, a prefeitura lançou o Supportive Preservation Program, que destina financiamento e assistência técnica para preservar e estabilizar a moradia assistida já existente, inclusive empreendimentos financiados por programas municipais, estaduais e federais. A administração também avançou nas iniciativas “SPEED”, que devem reduzir em até dois anos os prazos de pré-desenvolvimento de projetos habitacionais. O plano Block by Block: The Housing Plan for a New Era prevê criar 200 mil novas moradias acessíveis e preservar outras 200 mil na próxima década, além de investir na habitação pública, reforçar a proteção a inquilinos e ampliar o acesso à casa própria.

(Informações do site da prefeitura de Nova Iorque)