Da guerra comercial entre Canadá e Estados Unidos à exposição de Netaniahu como criminoso de guerra, a semana foi marcada por novas e antigas tensões que atravessaram fronteiras e testaram alianças. Enquanto Ottawa anunciou que irá retaliar as tarifas de 50% impostas por Washington e a província de Alberta se preparava para votar, em outubro, sobre a própria permanência no Canadá, Ancara, na Turquia, pedia à Interpol um mandado de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu por “genocídio”. Na Europa, milhares marcharam em Estocolmo por ação climática às vésperas da eleição sueca, e a Nova Zelândia propôs banir as redes sociais para menores de 16 anos. No Oriente Médio, o Irã anunciou a descoberta de uma grande reserva de gás natural em meio à pressão sobre suas exportações de petróleo.

Nova Zelândia propõe banir redes sociais para menores de 16 anos, com multa de até 10% da receita global

Projeto do partido do premiê Christopher Luxon prevê verificação de idade por reconhecimento facial e identidade digital; sócio de coalizão já sinaliza oposição

O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, anunciou que seu partido apresentará no Parlamento um projeto de lei para proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos, com multas de até 10% da receita global das plataformas em caso de descumprimento. O texto exigiria que as empresas adotassem medidas razoáveis para verificar a idade dos usuários, incluindo o uso de informações de conta já existentes, tecnologia de reconhecimento facial e documentos de identidade digital.

“Não podemos simplesmente aceitar o dano causado a uma geração de crianças neozelandesas”, afirmou Luxon em comunicado nesta segunda-feira, 24. “As redes sociais as expõem a conteúdo nocivo, a tecnologias viciantes e a pressões para as quais não estão preparadas, o que afeta sua vida familiar, saúde mental, sono e educação.” Ainda não está claro se o projeto terá apoio suficiente para passar, já que um dos sócios de coalizão de Luxon, o partido New Zealand First, anunciou que não o apoiará. “Estamos preocupados com a legislação proposta e com a direção e a ladeira escorregadia a que uma lei como essa inevitavelmente levará nosso país”, disse o líder da legenda, Winston Peters, também ministro das Relações Exteriores, no X.

Limite de idade para acesso é uma tendência mundial

Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir as redes sociais para menores de 16 anos, bloqueando o acesso a plataformas como TikTok, YouTube e Instagram.Na Europa, no Reino Unido, a medida começa a valer em 2027. No Brasil, uma lei aprovada em março exige que as plataformas vinculem as contas de usuários menores de 16 anos às de seus pais e verifiquem a idade. 

A Indonésia baniu as redes para menores de 16 anos desde março, e a Malásia adotou uma medida semelhante em junho. A China restringe progressivamente o acesso de menores de idade desde 2019, com limites de tempo e toque de recolher para jogos online, estendidos em 2023 às redes sociais e às plataformas de streaming. A Turquia aprovou em abril uma lei para barrar menores de 15 anos, com vigência prevista para o fim de 2026, e os Emirados Árabes Unidos anunciaram banimento para menores de 15 anos no mês passado. Na União Europeia, um comitê de especialistas deve entregar recomendações à Comissão Europeia sobre uma possível proibição para crianças nos 27 países do bloco. Segundo levantamento da AFP, o número de países com restrição de acesso já passa de 20.

(Informações do The Guardian e da France 24/AFP)

Turquia acusa Netanyahu de “genocídio” e pede mandado de prisão à Interpol

Benjamin Netanyahu: Perfil Pensativo em Fundo Azul-Roxo

Ancara solicita difusão vermelha contra o premiê israelense por ataque a ativistas da Flotilha Global Sumud; Netanyahu e Erdogan trocam insultos

A Turquia pediu um mandado de prisão internacional contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acusando-o de “genocídio” pelo ataque, em maio, a ativistas da Flotilha Global Sumud que seguiam para Gaza. Em publicação no X nesta sexta-feira, 21, o ministro da Justiça turco, Akin Gurlek, afirmou que mandados de prisão foram expedidos em 14 de julho contra Netanyahu e outro suspeito. As acusações incluem genocídio, crimes contra a humanidade e tortura, em um processo contra 35 pessoas, decorrente de interceptações israelenses em águas internacionais.

“Em conformidade com os mandados de prisão expedidos contra Benjamin Netanyahu, nosso Ministério da Justiça solicitou que o Ministério do Interior emita difusões vermelhas [da Interpol] para que ele possa ser procurado internacionalmente”, disse Gurlek. A Turquia usará todos os mecanismos legais disponíveis para garantir que Israel seja responsabilizado por seus crimes em Gaza, acrescentou. Membro da Otan, a Turquia tem sido uma das vozes mais críticas à guerra de Israel em Gaza e já havia expedido mandados de prisão contra Netanyahu.

Em maio, forças israelenses dispararam contra ao menos duas embarcações da Flotilha Global Sumud que navegavam em direção a Gaza, em uma nova tentativa de entregar ajuda humanitária depois que missões anteriores foram interceptadas em águas internacionais. A ação provocou protestos internacionais, sendo que França, Itália e Austrália também abriram procedimentos judiciais. Cerca de 50 embarcações integravam a flotilha que deixou a Turquia em maio rumo ao território palestino sitiado. Os ativistas foram detidos no Mediterrâneo pelo Exército israelense e levados a uma prisão antes de serem deportados.

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, da extrema direita, causou indignação na época ao divulgar um vídeo em que provocava ativistas da flotilha ajoelhados e com as mãos amarradas às costas. “Não permitiremos que os crimes cometidos em Gaza sejam encobertos nem que os responsáveis sejam protegidos por um escudo de impunidade”, disse Gurlek. “Usaremos com determinação todos os meios disponíveis no direito nacional e internacional.”

Questionado sobre a declaração de Gurlek, o gabinete de Netanyahu afirmou que “a tentativa patética de [o presidente turco] Erdogan intimidar os líderes e soldados de Israel, a única democracia verdadeira do Oriente Médio, não levará a lugar nenhum”. O gabinete acusou Erdogan de ser “antissemita” e prometeu que Israel “continuará a agir com força contra as tentativas da Turquia de desestabilizar a região”. Pouco depois, em publicação no X, o gabinete de Erdogan denunciou as “táticas políticas mesquinhas” de Netanyahu e condenou o que chamou de tentativa do governo israelense de “apresentar a Turquia como uma nova ameaça”.

Milhares protestam por ação climática na Suécia às vésperas da eleição geral

Cerca de 10 mil pessoas marcharam em Estocolmo, com a presença de Greta Thunberg; organizadores acusam o governo de enfraquecer as políticas de emissões

Cerca de 10 mil pessoas marcharam em Estocolmo neste domingo, 23, em protesto contra as mudanças climáticas causadas pelo homem, poucas semanas antes de uma eleição geral em que o tema figura entre as principais preocupações dos eleitores suecos. “Somos muitas pessoas preocupadas com esse problema”, disse à AFP o estudante Kliff Lindberg, de 21 anos, que se declarou “aliviado” com a forte adesão. “Isso me dá muita força, e é bonito de ver.”

Especialistas suecos e internacionais alertaram que a política climática do governo compromete as metas de corte de emissões do país — reduzir as emissões de CO₂ do transporte em 70% em relação aos níveis de 2010 até 2030 e alcançar emissões líquidas zero até 2045. Desde que assumiu o poder em 2022, o governo de direita do primeiro-ministro Ulf Kristersson cortou impostos sobre a gasolina e reduziu as exigências para que os fornecedores adicionem alternativas de baixo carbono à mistura. O governo rejeitou, em especial, as recomendações de uma comissão sobre como cumprir a meta de 2030, que incluíam a eliminação gradual dos combustíveis fósseis por meio do aumento de impostos sobre gasolina e diesel.

Eleições legislativas

Os suecos elegerão um novo Parlamento em 13 de setembro, com o bloco de direita atrás nas pesquisas de opinião pública. O ato na capital, organizado por grupos de juventude, sindicatos, associações rurais e de direitos humanos, contou com a presença da ativista climática mais conhecida do país, Greta Thunberg. “Não há absolutamente nenhum partido na Suécia que proponha uma política alinhada com algo próximo do que a ciência diz que será necessário para evitar um desastre climático”, disse Thunberg à AFP. “Se continuarmos como agora, veremos o colapso; já estamos vendo o colapso.”

Segundo pesquisa de opinião da Verian, publicada pela emissora pública SVT na quinta-feira, 37% dos entrevistados disseram que o clima era a prioridade máxima na eleição. O governo argumentou que a eliminação gradual dos combustíveis fósseis deve ocorrer para preservar e fortalecer a competitividade da Suécia e de suas empresas. Mas os organizadores do ato defenderam uma ação urgente. “A crise climática é muito real, e está aqui”, disse Beatrice Rindevall, chefe da Sociedade Sueca para a Conservação da Natureza, coorganizadora da manifestação. “É hora de pôr em prática uma política climática que reduza as emissões agora”, acrescentou, apontando para as ondas de calor devastadoras deste verão na Europa. Segundo a Eruomomo, mais de 32 mil pessoas morreram no continente europeu devido ao calor extremo desde meados de junho.

(Informações da France 24 com AFP)

Irã anuncia descoberta de grande reserva de gás natural na província de Fars

Depósito tem mais de 7,5 trilhões de pés cúbicos, com cerca de 5,7 trilhões recuperáveis; anúncio ocorre sob pressão sobre a capacidade de exportar petróleo

O Irã anunciou a descoberta de mais de 7,5 trilhões de pés cúbicos de gás natural na província de Fars, no sul do país, dos quais cerca de 5,7 trilhões seriam recuperáveis. O anúncio ocorre em meio à crescente pressão sobre a capacidade de Teerã de exportar petróleo. O ministro do Petróleo iraniano, Mohsen Paknejad, divulgou a descoberta neste domingo, 24, descrevendo-a como um acréscimo significativo à riqueza nacional do país.

Segundo Paknejad, o campo contém mais de 7,5 trilhões de pés cúbicos de gás. Com base em uma taxa de recuperação estimada em mais de 72%, cerca de 5,7 trilhões de pés cúbicos poderiam ser extraídos. O ministro destacou uma vantagem importante do depósito: o gás é classificado como “gás doce”, ou seja, apresenta níveis relativamente baixos de compostos de enxofre. “Por ser doce, o gás ajuda a reduzir tanto os custos de desenvolvimento quanto os de produção e operação”, afirmou.

Paknejad comparou o volume recuperável à quantidade necessária para abastecer uma fase do gigantesco campo de gás de South Pars por cerca de 15 anos. As autoridades iranianas, porém, não identificaram de imediato o novo campo nem detalharam quando a produção comercial poderá começar. A descoberta ocorre enquanto Teerã busca fortalecer seus recursos energéticos domésticos e ampliar a capacidade de atender à demanda futura por gás.

Embora o tamanho do depósito possa torná-lo estrategicamente significativo, transformar as reservas em produção exigirá mais exploração, investimento e infraestrutura. O anúncio foi feito enquanto autoridades iranianas afirmam que o país não consegue exportar petróleo devido ao que descrevem como um bloqueio naval dos Estados Unidos. O Irã segue sob forte pressão de sanções estadunidenses e de outras restrições que afetam seu setor de energia. As novas reservas podem reforçar a posição energética de longo prazo do país, ainda que o impacto imediato dependa da rapidez com que o campo for desenvolvido e a atividade de produção tenha início.

(Informações da Africanews com agências)

PM do Canadá, Mark Carney, diz que exigências de Trump desmontariam a indústria automotiva canadense

Premiê canadense abandona negociações e anuncia retaliação “dólar por dólar” após tarifas de 50% dos EUA; Ontário fala em cortar eletricidade, níquel e urânio e acusa Trump de querer transformar o país em “Estado vassalo”

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que as exigências comerciais dos Estados Unidos confirmaram os temores de que o presidente Donald Trump busca desmontar a indústria automotiva canadense. Trump ameaçou impor novas tarifas de 50% sobre veículos, autopeças e aço importados. 

Carney disse que o Canadá segue disposto a negociar, mas apenas se Washington tratar as conversas como uma parceria entre países soberanos. “Uma atitude na mesa de negociação de que o Canadá é uma subsidiária dos Estados Unidos” é “algo que não vamos aceitar”, afirmou.

O canadense afirmou que as propostas de Washington para o setor automotivo “desmontariam gradualmente” a produção do país, lembrando que o Canadá é o maior cliente de automóveis dos Estados Unidos. O premiê abandonou as negociações comerciais com o governo Trump na sexta-feira, dizendo que Washington exigia demais em troca de um alívio tarifário. Os Estados Unidos impuseram, no sábado, tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses, enquanto Carney anunciou retaliação “dólar por dólar” a partir de 8 de setembro.

Trump afirmou que as novas tarifas de 50% sobre automóveis, autopeças e aço canadenses entrarão em vigor no próximo ano. “O Canadá vem roubando os Estados Unidos da América há anos”, escreveu o presidente nas redes sociais.

“Guerra econômica”

O premiê de Ontário, Doug Ford, alertou que o Canadá poderia cortar o fornecimento de eletricidade e de minerais críticos aos Estados Unidos.

Em entrevista à Associated Press, Ford disse que Trump subestimou a disposição dos canadenses de suportar a dor econômica em vez de ceder à pressão dos EUA. “Ele subestima o Canadá. Estamos todos juntos”, disse. “Aqui em cima, estamos em ebulição, todos estão dentro de uma guerra econômica.”

Ele acusou Trump de esvaziar as indústrias canadenses e transferir a produção para o sul, transformando o Canadá em um “Estado vassalo”. “Ele quer sangrar cada setor e levá-los para os EUA”, disse.

Apesar do tom cada vez mais hostil, Ford disse que o Canadá deve manter-se disposto a negociar. “Nunca acreditei em abandonar a mesa”, afirmou.

Alberta vota em outubro se deve iniciar processo de separação do Canadá

Em meio à guerra comercial com os Estados Unidos, a província de Alberta realizará um referendo com dez perguntas, uma delas sobre a própria permanência no Canadá. Em maio, os separatistas de Alberta entregaram as assinaturas de mais de 300 mil habitantes para a realização de um referendo, e a questão 10 pergunta se Alberta deve continuar como província canadense ou se o governo provincial deve iniciar o processo legal previsto na Constituição para convocar um referendo vinculante sobre a separação.

As demais perguntas tratam de imigração, do acesso de estrangeiros a serviços públicos, da exigência de comprovação de cidadania para votar e de mudanças constitucionais — como a abolição do Senado Federal e a prioridade das leis provinciais sobre as federais em áreas de jurisdição compartilhada.

O processo foi contestado por vários grupos indígenas da província, que argumentaram que um possível referendo de secessão afetaria os seus direitos, protegidos por tratados históricos com a Coroa Britânica, mas foi levado adiante e ocorrerá em 19 de outubro de 2026.

(Informações da Associated Press)