Ganhei de presente de alguém que foi a Portugal e pediu por uma escritora local que fosse contemporânea. “E que seja feminista”, demandou aquela que carregava, metaforicamente, a fitinha de pulso em que se lê “Estive em Lisboa, Lembrei-me de Você”.

Um trabalhador da livraria Bertrand, aquela que se gaba, com justiça histórica, de ser a livraria mais antiga do mundo, colheu nas prateleiras “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

A autora do livro, Sophia, atravessou dois séculos entre 1919 e 2004 e viu diversos movimentos literários e artísticos, como poeta e contista, e decidiu assim contar histórias:

A estrada ia entre campos e ao longe, às vezes, viam-se serras. Era o princípio de setembro e a manhã estendia-se através da terra, vasta de luz e plenitude. Todas as coisas pareciam acesas.

E, dentro do carro que os levava, a mulher disse ao homem:

– É o meio da vida.

Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse”.

Sophia dedicou parte significativa da vida a combater o fascismo. Lutadora contra o salazarismo, incomodou o clero – como não poderia de ser, em função do apoio da Igreja ao ditador. Grande parte dos seus escritos conclama o povo a se rebelar.

Isso não a impediu de imprimir forte simbologia de fé aos textos e muito menos de insinuar, na descrição dos aspectos naturais, incontroláveis e não-humanos do mundo, a pequenez de nós mesmos.

Neta de dinamarqueses, a escritora também foi mãe e criadora de contos infantis. Muito provavelmente absorta na atmosfera da cidade natal do Porto, na primeira metade do século XX, deixou-se levar pelo apelo religioso, mas não como promessa de eternidade.

No conto que abre o livro, Sophia narra o embate entre o Homem Importantíssimo, que projeta uma sombra enorme no ambiente, apenas notada por uma criança, e um mendigo, que recusa uma sopa na cozinha de outro personagem, o anfitrião, nomeado o Dono da Casa.

Lembra um pouco o realismo fantástico da América do Sul. Os símbolos, tanto quanto os fatos objetivos, ou porventura até mais, valem nessa disputa política. E uma impossibilidade de entendimento, entrevista nesta cena marítima cheia de sonho:

Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

Existem títulos de Sophia nas livrarias brasileiras. E mesmo Contos Exemplares, que abre esta resenha, ainda que importado, tem preço acessível.