No marco da Jornada Internacional da Fundação Perseu Abramo, realizada neste sábado (25) durante o 8º Congresso do PT, o cenário político dos Estados Unidos foi analisado sob uma perspectiva que foge aos estereótipos tradicionais. Com a mediação de Mônica Valente, diretora da Fundação, a dirigente do Democratic Socialists of America (DSA), Jana Silverman, apresentou um diagnóstico profundo sobre a ascensão do socialismo democrático em solo estadunidense e os desafios impostos por uma economia que, pela primeira vez em gerações, rompeu seu pacto de prosperidade com a juventude.
O debate destacou que a atual energia anticapitalista nos Estados Unidos não é um fenômeno abstrato, mas uma resposta direta à falência do chamado “sonho americano”. Pela primeira vez na história do país, a geração millennial e seus sucessores enfrentam uma qualidade de vida inferior à de seus pais. O cenário descrito pelas palestrantes é de uma desigualdade gritante, onde 1% da população controla US$55 trilhões, enquanto jovens herdam dívidas estudantis que ultrapassam os US$200 mil em um sistema de saúde e educação majoritariamente privados. “Essa “boca de jacaré” econômica, que achata salários e polariza o mercado de trabalho, serviu de combustível para que o DSA saltasse de 3 mil para mais de 90 mil membros ativos, com uma média de idade de 31 anos”, comenta.
Jana Silverman, coordenadora geral do Comitê Internacional do DSA, resgatou a trajetória da organização, fundada em 1982 a partir da fusão do Comitê Organizador Socialista Democrático com o Movimento de Nova Esquerda. Ela enfatizou que a máquina partidária tradicional tentou frear o avanço dessa nova onda, mas não pôde conter a ocupação de espaços institucionais. “Hoje, o DSA não é apenas uma força retórica, mas uma organização com mais de 180 cargos eleitos em diversos níveis, incluindo vereadores em estados conservadores como Idaho e Flórida, além de nomes de peso no Congresso Nacional e prefeituras de relevância global. É a maior experiência de governança da esquerda socialista nos EUA desde a década de 1930, conduzida por uma geração que se profissionaliza no exercício do poder sem perder o rigor ideológico”, afirma Jana.
O diferencial do DSA, conforme pontuado por Silverman, reside na sua estrutura orgânica e militante. Diferente da dinâmica financeira das campanhas americanas, que chegam a custar milhões de dólares, o DSA sustenta-se no trabalho voluntário e em uma disciplina programática rígida, onde candidatos passam por sabatinas e compromissos formais para obter o aval da organização. Na prática cotidiana, essa atuação se traduz em frentes solidárias: desde o apoio logístico a famílias de imigrantes com medo da deportação até vitórias estratégicas, como a articulação com sindicatos de aeromoças que resultou no rompimento de contratos de companhias aéreas com o serviço de imigração (ICE) para voos de deportação.
No plano internacional, a atuação das socialistas em Washington busca tensionar a hegemonia imperialista. A pauta é clara na defesa do fim do bloqueio a Cuba, no envio de insumos médicos à ilha e no lobby contra legislações que permitam o uso de armamento em ações contra o governo cubano. Além disso, a solidariedade à Palestina foi classificada como prioridade máxima, denunciando o uso de recursos públicos americanos no que definem como um genocídio em curso, ao mesmo tempo em que defendem a normalização das relações com a China para evitar uma nova Guerra Fria.
Ao encerrar o painel, ela reiterou a importância dessa conexão entre a esquerda brasileira e os movimentos progressistas dos Estados Unidos. A presença de vozes socialistas no “coração do capitalismo” representa não apenas um contraponto ao movimento MAGA e à violência policial sistêmica que persistiu mesmo em governos democráticos, mas um passo fundamental para uma nova arquitetura política global, baseada na solidariedade entre as classes trabalhadoras de todo o continente.
