Artigo por Pedro Silva Barros*
Realizado no Rio de Janeiro nos dias 25 e 26 de março, o Seminário Internacional “Energia, Integração e Soberania: uma plataforma para o Brasil” reuniu especialistas da América Latina em um momento de crescente instabilidade global, recolocando a energia no centro das disputas geopolíticas e das estratégias de desenvolvimento.
O encontro ocorre em um ano decisivo para o Brasil, com eleições presidenciais que terão impacto direto sobre agendas centrais como soberania nacional, integração regional e política energética, temas que voltam a ganhar densidade diante de um cenário internacional marcado por conflitos e reconfigurações de poder.
A crise energética global e a escalada de tensões internacionais, incluindo ataques dos Estados Unidos à Venezuela e ao Irã, reforçam a centralidade da energia como fator estratégico do poder global e ajudam a explicar a urgência do debate sobre integração regional na América do Sul.
A recente escalada de tensões internacionais, incluindo ataques dos Estados Unidos à Venezuela e ao Irã, reforça a centralidade da energia como fator estratégico do poder global.
Observa-se, simultaneamente, a perda relativa da capacidade norte-americana de ordenar o sistema internacional, a crescente militarização de disputas geopolíticas e a reemergência da energia como elemento de instabilidade e conflito.
A elevação dos preços dos combustíveis evidencia a conexão direta entre geopolítica e economia real.
Conflitos, incertezas e interrupções nas cadeias energéticas globais pressionam a inflação, redistribuem renda e poder entre países produtores e importadores e aprofundam assimetrias, sobretudo no Sul Global, agravando tensões sociais, fiscais e políticas.
Foi nesse contexto que o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep) organizou, em parceria com a Fundação Perseu Abramo (FPA) e a Fundação Friedrich Ebert Brasil (FES), o Seminário Internacional “Energia, Integração e Soberania: uma plataforma para o Brasil”.
O encontro ocorreu nos dias 25 e 26 de março, no Rio de Janeiro, reunindo especialistas, acadêmicos, trabalhadores do setor de óleo e gás, sindicalistas e representantes de organizações da sociedade civil da América Latina.
O objetivo foi analisar o cenário atual, seus impactos para o Brasil e a região, e discutir caminhos estratégicos para o setor energético sul-americano.
A programação do primeiro dia contou com um debate sobre geopolítica, soberania e integração energética, seguido de uma mesa dedicada às relações de trabalho no setor energético, com ênfase nos impactos da digitalização e nos desafios da transição energética justa.
O dia se encerrou com uma discussão sobre finanças verdes, abordando seus dilemas, estratégias e riscos.
No segundo dia, os debates tiveram início com uma mesa sobre estratégias nacionais de reindustrialização e o papel das empresas públicas de energia.
Em seguida, foi realizado o painel “Integração energética na América do Sul: em busca de um mercado comum”, encerrando-se com uma mesa dedicada à inovação, eficiência energética e novas rotas tecnológicas no contexto da transição energética.
O seminário também marcou o lançamento do livro “Economia do Hidrogênio: Paradigma Energético do Futuro”, de autoria do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, reforçando o interesse crescente no hidrogênio como elemento estratégico para a transição energética.
Integração energética na América do Sul
O painel sobre integração regional contou com exposições de Pedro Silva Barros, conselheiro da Fundação Perseu Abramo, e Guido Maiulini, representante da Organização Latino-Americana de Energia (OLADE), com mediação da jornalista Ana Carolina Diniz, de O Globo.
O debate destacou que, na última década, a América do Sul tem atravessado um processo de desintegração econômica e fragmentação política.
Os participantes apontaram que a integração da infraestrutura energética pode constituir um eixo central para recuperar e aprofundar a interdependência regional, reduzindo a vulnerabilidade da região à ingerência de potências externas.
Nesse sentido, foi lembrada a proposta apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na reunião de presidentes sul-americanos realizada em Brasília em maio de 2023, de discutir a constituição de um mercado sul-americano de energia.
O debate resgatou experiências históricas de integração, como a usina hidrelétrica binacional de Itaipu, nos anos 1970, e o gasoduto Brasil-Bolívia, nos anos 1990, destacando a importância de novos projetos articularem energia, transporte e comunicação.
Entre eles, foi mencionada a necessidade de incorporar dutos de óleo e gás ao Corredor Bioceânico Rodoviário, ligando o Mato Grosso do Sul aos portos do norte do Chile.
Também ganhou destaque a integração do extremo norte da América do Sul — envolvendo Amapá, Roraima, Guiana, Suriname e Guiana Francesa — e a proposta de um anel de infraestrutura na Ilha das Guianas.
Essa articulação adquire relevância energética e geopolítica no contexto do desenvolvimento da Margem Equatorial e pode se consolidar como vetor de estabilidade regional, desenvolvimento sustentável e cooperação produtiva compatível com a floresta.
Em um mundo marcado por incertezas crescentes, a energia se coloca como um dos principais ativos estratégicos da América do Sul.
A construção de um mercado comum de energia, com protagonismo do Brasil, pode fortalecer a soberania regional, ampliar a segurança energética e impulsionar um projeto de desenvolvimento integrado e sustentável.
*Pedro Silva Barros é pesquisador do Ipea, professor do Instituto Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores e doutor em integração da América Latina pela USP.
