No ano em que o Brasil relembra os 62 anos do golpe de 1964, o país volta a se deparar com um paradoxo incômodo: ao mesmo tempo em que acumula registros, testemunhos e produções culturais sobre a violência de Estado, ainda convive com tentativas recorrentes de apagar ou distorcer essa memória.

Em um país que já elegeu uma ex-guerrilheira, presa política e torturada pela ditadura militar, à Presidência da República, Dilma Rousseff, em 2010, a disputa pelo passado segue sendo também uma disputa pelo presente. Neste embate, lembrar é também um ato político.

Embora escrita antes das grandes tragédias políticas do século 20, a frase do filósofo George Santayana ajuda a entender por que lembrar o golpe de 1964 ainda é uma tarefa urgente no Brasil.

“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”, escreveu o autor em A Vida da Razão, de 1905.

62 anos do golpe e o cinema

No Brasil, lembrar o passado é um desafio à parte, sobretudo quando o calendário aponta para os dias 31 de março e 1º de abril. Foi na passagem entre essas duas datas que o então presidente João Goulart acabou deposto a partir de uma insurreição militar, com apoio da elite e da imprensa hegemônica, abrindo caminho para o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco assumir o poder à revelia da vontade do povo.

O que se seguiu ao longo de 21 anos está registrado nos livros de história, ainda que parte da população, estimulada por representantes da extrema direita, insista em relativizar ou negar os fatos. Para enfrentar essa distorção e manter a denúncia das atrocidades do regime, há materiais didáticos, livros, romances e documentários.

No caso do audiovisual, há uma particularidade importante. Para além do caráter investigativo, o cinema de não ficção nacional possui exemplares que passeiam entre o recorte biográfico de personagens esquecidos pela história oficial e o compilado de depoimentos de mulheres que participaram do regime e que foram invisibilizadas.

Do clássico Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, ao acadêmico Memórias Femininas na Luta contra a Ditadura, os documentários feitos desde então ajudam a enfrentar a desinformação e a manter a denúncia contra as atrocidades do regime.

A seguir, cinco obras indispensáveis para entender as múltiplas faces da ditadura militar no Brasil.

Documentários sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar no Brasil

Jango (1984)
Direção: Sílvio Tendler
Produção: Caliban Produções Cinematográficas

Um dos documentários mais conhecidos sobre o período, reconstrói a trajetória de João Goulart até sua queda. Com amplo uso de imagens de arquivo e entrevistas, o filme articula o contexto da Guerra Fria, a crise política interna e a atuação de setores civis e militares que levaram ao golpe.

Memórias Femininas na Luta contra a Ditadura (2015)
Direção: Maria Paula Araújo
Produção: Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF)

Reúne depoimentos de mulheres que participaram da resistência ao regime militar, trazendo à tona experiências frequentemente invisibilizadas. O documentário amplia a compreensão do período ao incorporar perspectivas de gênero, destacando o papel feminino na luta política e os impactos específicos da repressão sobre essas militantes.

O Dia que Durou 21 Anos (2012)
Direção: Camilo Tavares
Produção: Pequi Filmes

Documentário que expõe a participação dos Estados Unidos no golpe, com base em documentos oficiais e gravações inéditas. O filme evidencia como interesses geopolíticos influenciaram decisivamente a ruptura democrática no Brasil.

Cabra Marcado para Morrer (1984)
Direção: Eduardo Coutinho
Produção: Mapa Filmes

Iniciado antes do golpe e interrompido pela repressão, o filme foi retomado anos depois e se transformou em um marco do documentário brasileiro. Ao acompanhar a história do líder camponês João Pedro Teixeira e de sua família, revela como a violência política afetou diretamente trabalhadores rurais e a memória social do país.

1964: Um Golpe Contra o Brasil (2012)
Direção: Alípio Freire
Produção: TVT / Fundação Perseu Abramo

Amplamente utilizado em contextos educativos, o filme apresenta uma leitura histórica do golpe, destacando o papel das elites econômicas, da mídia e das tensões ideológicas da época. Busca explicar como se construiu o ambiente político que permitiu a derrubada de um governo eleito.