Preocupado com as contas vencendo na fábrica de camisetas, o empresário Renato Diniz recorreu à internet em busca de empréstimo. Em pouco tempo, anúncios passaram a ocupar suas redes sociais. Um deles, com identidade visual da Caixa Econômica Federal, oferecia dinheiro imediato, juros abaixo do mercado e carência de 90 dias para começar a pagar: bastava antecipar uma taxa administrativa.
Diniz fez o Pix. Minutos depois, foi bloqueado no WhatsApp por quem negociava o suposto crédito. Tornou-se mais uma vítima de um tipo de fraude que se espalha pelo país: os golpes financeiros digitais.
A vítima está longe de estar em caso isolado, no entanto. Um levantamento realizado pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab/UFRJ) identificou 1.770 anúncios de golpes envolvendo serviços financeiros populares, como Pix, Receita Federal e o Valores a Receber, circularam entre 10 e 21 de janeiro de 2025 nas plataformas da Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp.
A maioria dos anúncios utilizava técnicas de inteligência artificial e, em alguns casos, deepfakes (vídeos ou imagens manipulados por inteligência artificial) com a imagem de autoridades públicas, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para dar aparência de legitimidade às ofertas fraudulentas, segundo o NetLab.
Os conteúdos direcionavam usuários para páginas falsas que imitavam sites oficiais do governo, com uso indevido de logotipos da Caixa Econômica Federal, Receita Federal do Brasil e Banco Central do Brasil. “Tudo no site que acessei imitava a página oficial da Caixa. Olhando rápido, não tinha como diferenciar o falso do original”, relatou Diniz.
Outro golpe em expansão é o da falsa venda de produtos pela internet. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), foram registradas 174 mil ocorrências no primeiro semestre de 2025 — aumento de 314% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Nessa modalidade, criminosos criam páginas que simulam lojas virtuais, enviam promoções inexistentes por mensagem e utilizam perfis adulterados de estabelecimentos nas redes sociais.
Estudo aponta responsabilidade da Meta
Ao identificar que os golpes circularam por meio de publicidade paga nas plataformas da Meta, o levantamento da NetLab desloca a discussão do campo da simples “falha de moderação” para o terreno econômico. Não se trata apenas de conteúdo publicado por usuários, mas de anúncios impulsionados que passaram por sistemas internos da empresa e geraram receita.
Segundo a pesquisa, o funcionamento dos golpes nas redes sociais segue uma engrenagem simples. Após o clique em um link fraudulento, o Instagram ou o Facebook carregam a página falsa dentro do próprio aplicativo. Se o usuário fecha a aba, retorna automaticamente ao feed, o que reforça a sensação de segurança.
“A fraude acontece há uma década nas plataformas da Meta, e a empresa não faz nada para coibi-la. Pelo contrário: ela facilita os golpes e lucra com o impulsionamento desses conteúdos criminosos”, aponta o estudo da NetLab.
A pesquisa aponta, ainda, que a plataforma não divulga informações detalhadas sobre os anunciantes e se beneficia de lacunas na legislação brasileira para evitar responsabilização direta. “Ferramentas de transparência são pouco eficientes. Os dados são incompletos e as plataformas não têm obrigação legal de oferecer dados melhores”, registra a pesquisa.
A Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado no Senado questionou a Meta, em 24 de fevereiro, sobre eventuais ganhos econômicos com anúncios fraudulentos. Até a publicação desta reportagem, a empresa não havia se manifestado.
O debate sobre a responsabilidade das plataformas não é restrito ao Brasil. Nos Estados Unidos, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, voltou a depor no Congresso em audiências que discutiram segurança digital, publicidade e moderação de conteúdo. Parlamentares norte-americanos questionaram a eficácia das políticas da empresa para impedir abusos e fraudes, especialmente quando envolvem anúncios pagos.
Ao identificar que os golpes circularam por meio de publicidade paga nas plataformas da Meta, o levantamento da NetLab desloca a discussão do campo da simples “falha de moderação” para o terreno econômico. Não se trata apenas de conteúdo publicado por usuários, mas de anúncios impulsionados que passaram por sistemas internos da empresa e geraram receita.
Fraudes se expandem e geram prejuízo bilionário
Relatório da empresa de tecnologia antifraude BioCatch, divulgado no fim de 2025, indica que 51% dos brasileiros afirmaram ter sido vítimas de golpes digitais em 2024, com avanço significativo das fraudes envolvendo Pix entre 2024 e 2025. O levantamento também registra crescimento no uso de deepfakes no país.
A dimensão financeira do problema aparece em dados divulgados pelo Senado Federal: mais de 24 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes envolvendo Pix ou boletos entre julho de 2024 e junho de 2025, com prejuízo estimado em quase R$ 29 bilhões
No âmbito da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), outro levantamento aponta que 50,7% dos brasileiros sofreram algum tipo de fraude financeira em 2024, sendo que mais da metade registrou perdas econômicas.
Plano federal reúne 23 medidas contra golpes
Diante do avanço das fraudes, o Ministério da Justiça e Segurança Pública lançou, em dezembro, o plano de ação da Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias Digitais.
Resultado de acordo de cooperação técnica entre o MJSP e a Febraban, a iniciativa reúne 23 ações voltadas à prevenção, detecção e repressão de fraudes, além de apoio às vítimas.
O Governo Federal também divulgou cartilha com orientações práticas para usuários sobre como evitar golpes digitais
Diante do avanço das fraudes digitais, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou, em dezembro, o plano de ação da Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias Digitais. Resultado de acordo de cooperação técnica com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a iniciativa reúne 23 medidas voltadas à prevenção, detecção e repressão de crimes financeiros, além de apoio às vítimas.
O Governo Federal também divulgou orientações práticas para reduzir riscos de golpes em ambientes digitais.
Entre as recomendações estão:
Antes de fornecer dados ou aceitar ofertas financeiras:
- • Confirmar se a instituição é autorizada pelo Banco Central do Brasil.
- • Evitar clicar em links recebidos por WhatsApp, SMS ou redes sociais.
- • Digitar diretamente o endereço oficial no navegador.
- • Desconfiar de pedidos de pagamento antecipado via Pix ou boleto.
- Para proteger seus dados pessoais:
- • Não compartilhar senhas ou códigos de verificação.
- • Ativar autenticação em dois fatores.
- • Utilizar senhas diferentes para cada serviço.
