Em entrevista à jornalista Daniela Lima, do UOL, presidente fala sobre economia, programas sociais, jornada de trabalho, eleições, Venezuela e a relação com os Estados Unidos

Foto: Reprodução/UOL
“O povo brasileiro ainda vai conquistar muita coisa boa neste governo.” A afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre o tom da entrevista concedida, na manhã desta quinta-feira (5), à jornalista Daniela Lima, do UOL.
Ao longo da conversa, Lula falou sobre a reconstrução do país iniciada em 2023, comentou os resultados econômicos do seu terceiro mandato e defendeu a retomada de políticas públicas voltadas à geração de emprego, ao aumento da renda e à redução das desigualdades.
Sem dissociar economia e área social, o presidente afirmou que os efeitos das medidas adotadas nos primeiros anos de governo começam a aparecer no cotidiano da população.
“Nós passamos os dois primeiros anos consertando o país. Retomamos obras paralisadas, recriamos ministérios, realizamos novos concursos públicos. Agora, vamos colher os resultados”, disse.
Além do balanço interno, Lula abordou temas centrais da conjuntura política nacional e internacional, como a radicalização eleitoral, a jornada de trabalho, a situação na Venezuela, a relação com os Estados Unidos e investigações em curso no país. “Só faz sentido a existência de um governo se ele estiver preocupado com a vida do seu povo”, afirmou.
Brasil e Estados Unidos
Lula confirmou que deve viajar a Washington em março para uma conversa direta com o presidente Donald Trump. Segundo ele, o diálogo entre os dois países deve ser amplo, sem temas proibidos, mas com limites claros.
“Em março irei a Washington, provavelmente na primeira semana, para ter uma conversa olho no olho com Donald Trump. Nós somos presidentes das duas maiores democracias do Ocidente. Temos que sentar e ver quais são os problemas que afligem o Brasil e quais são os problemas que afligem os Estados Unidos. E vamos trabalhar juntos. Não existe tema proibido nesta conversa. A única coisa que eu não discuto é a soberania do nosso país. Essa é sagrada.”
Venezuela e democracia regional
Ao comentar a situação da Venezuela, Lula afirmou que a solução passa pelo fortalecimento da democracia e pela melhoria das condições de vida da população.
“A preocupação principal é a seguinte: há a possibilidade de fortalecer a democracia na Venezuela? Há a possibilidade de os mais de 8 milhões de venezuelanos que estão fora retornarem ao seu país? O que está em jogo é se a vida do povo vai melhorar ou não. Se o país vai gerar emprego ou não. Se vai voltar a produzir petróleo como em outros tempos.”
O presidente reiterou que a América do Sul deve permanecer como uma zona de paz. “O que eu disse ao Trump é que a América do Sul é uma zona de paz. Quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos.”
Integração latino-americana
Lula voltou a defender a integração regional como caminho para enfrentar desigualdades históricas.
“Ou nós, latino-americanos, criamos coragem e criamos instituições fortes entre nós, montamos um bloco para trabalhar conjuntamente com o resto do mundo, ou estamos fadados a mais um século de pobreza e esquecimento. Nós precisamos descolonizar a nossa cabeça.”
Palestina e Conselho de Paz
O presidente afirmou que o Brasil tem interesse em participar de um Conselho de Paz, desde que a Palestina esteja representada.
“O Brasil tem todo interesse em participar, desde que a Palestina também tenha seu representante. A vida de 75 mil mulheres e crianças não retorna mais. Mas estamos dispostos a participar do Conselho de Paz. Queremos saber quem vai reconstruir as casas, os prédios, as padarias. Queremos saber quem vai cuidar da Palestina.”
Banco Master e atuação do Banco Central
Lula comentou o encontro que teve com representantes do sistema financeiro, incluindo o dono do Banco Master, investigado por operações fraudulentas.
“Eu me encontrei com os presidentes dos principais bancos do país, inclusive com André Vorcaro. Ele me disse que estava sofrendo perseguição e me contou a sua versão da história. Fui categórico: não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá é uma investigação técnica feita pelo Banco Central. Foi esta a conversa que eu tive com ele. O que é importante saber é que nós vamos até o fim nessa história.”
Fraudes no INSS
Sobre a investigação no INSS, o presidente afirmou que as irregularidades foram identificadas pelo próprio governo.
“A investigação acontece porque o governo descobriu, por meio da Advocacia-Geral da União, da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, que havia uma quadrilha atuando durante o governo Bolsonaro. Quando descobrimos, eu disse que o próprio governo deveria convocar uma CPI, mas isso não podia ser feito.”
Segundo Lula, a CPMI está aberta e a orientação do governo é investigar tudo o que for necessário. “Quando saiu o nome do meu filho, eu o chamei aqui e falei olhando no olho: se houver alguma coisa, você também será investigado.”
Crescimento econômico e reconstrução
O presidente voltou a rebater avaliações pessimistas sobre a economia brasileira.
“Quando eu voltei à Presidência, os pessimistas diziam todo dia que tudo daria errado, que o país não voltaria a crescer. Quero lembrar o que aconteceu em 2023, 2024 e 2025: o país voltou a crescer acima de 3%. Nós passamos dois anos consertando o país. Agora, vamos colher muita coisa boa.”
Programas sociais e renda
Lula criticou setores da oposição que atacam políticas sociais e destacou o impacto direto dessas medidas no orçamento das famílias.
“Teve gente que criticou o governo por aumentar em 1,5% o salário mínimo. Teve gente que criticou até o programa Gás do Povo. Não é possível que uma pessoa pobre tenha que gastar 10% do seu salário com o botijão de gás.”
Segundo o presidente, a combinação de políticas pode gerar uma economia significativa. “Se juntar ações como o Gás do Povo e o Luz do Povo, isso pode representar uma economia de até 250 reais por mês para as famílias.”
Jornada de trabalho e escala 6×1
Lula afirmou que o debate sobre a jornada de trabalho precisa avançar no país.
“Esta não é uma tarefa só do governo. Nosso papel é estabelecer uma discussão com o Congresso Nacional, com o empresariado e com os trabalhadores. Precisamos iniciar urgentemente uma discussão sobre a jornada de trabalho neste país para que, principalmente, a juventude tenha tempo de estudar, descansar e pensar.”
Eleições e radicalização política
Ao comentar o ambiente eleitoral, Lula afirmou que a radicalização se intensificou a partir de 2014.
“A radicalização começou a partir de 2014. Eu nunca vi uma agressão tão grande contra uma mulher na política quanto a que Aécio Neves fez contra a Dilma. E ainda não aceitou o resultado, entrando com processo para tentar reverter a derrota.”
Para o presidente, o cenário político mudou de forma estrutural. “Hoje é como um campeonato entre Corinthians e Palmeiras. É preciso descobrir quem não torce para nenhum dos dois. Eu estou otimista. Acredito que vamos ganhar. E faço uma pergunta: qual presidente promoveu mais políticas de inclusão social desde a Proclamação da República?”
