Esquema de desvios bilionários que liga Banco Master, financiamento eleitoral e privatização de ativos públicos em São Paulo

Foto: Agência Senado
Durante a reunião da CPMI do INSS na segunda-feira, 23, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) apresentou uma série de denúncias detalhando o que classifica como o esquema “Bolsomaster”, um sistema que, segundo o parlamentar, teria estruturado desvios bilionários de recursos de brasileiros, aposentados e de fundos de pensão durante a gestão de Jair Bolsonaro. A acusação conecta o financiamento de campanhas eleitorais à privatização de ativos públicos no estado de São Paulo e à facilitação de negócios pelo Banco Central.
De acordo com a investigação conduzida pelo PT, o esquema teve origem na aquisição, em 2017, do antigo Banco Máxima por Daniel Vorcaro. O deputado afirma que a operação foi autorizada pelo Banco Central em 2019, sob a gestão de Campos Neto, apesar de os envolvidos já serem investigados por fraudes em Minas Gerais. Ele explicou à Focus que “a oposição insiste em tentar tirar o foco da investigação que nós estamos concluindo, que demonstrou de forma inequívoca a participação do governo Bolsonaro em todo esse esquema criminoso montado dentro do INSS”.
Entre 2020 e 2021, o governo federal teria firmado Acordos de Cooperação Técnica (ACT) permitindo que a instituição realizasse descontos em folhas de pagamento de aposentados, margem que foi ampliada por medidas provisórias às vésperas das eleições de 2022.
Conexões em São Paulo
A denúncia estabelece um vínculo direto entre o financiamento eleitoral e as privatizações promovidas pelo governo de Tarcísio de Freitas. Segundo os documentos apresentados, Fabiano Zetel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador das campanhas de Bolsonaro (R$ 3 milhões) e Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões).
Pimenta sustenta que houve reciprocidade na entrega de patrimônio público. Após a eleição, o grupo de Vorcaro teria adquirido a EMAE e a Sabesp (via Equatorial). A operação teria sido viabilizada por Carlos Piani, descrito pelo deputado como braço direito de Vorcaro, com recursos do Banco Master e de “títulos podres” captados de fundos de pensão estaduais e municipais.
O deputado Alencar Santana, PT/SP, apresentou um vídeo durante a reunião. Em contato com a Focus, ele destacou que “a doação de R$ 2 milhões de pessoas ligadas ao Grupo Master” durante a campanha de Tarcísio de Freitas “parece que teve um preço caro, que foi a privatização da Sabesp, com a participação do Grupo Master”. O deputado também anunciou que vai apresentar requerimento para que o governador de São Paulo seja ouvido pela CPMI.
Mudança de cenário em 2025
O deputado ressaltou que a estrutura do esquema começou a ser interrompida no atual governo. Em 2025, o governo federal não renovou o acordo com o Banco Master devido a irregularidades. Paralelamente, o Banco Central vetou a tentativa do BRB de adquirir 58% da instituição, o que Pimenta caracteriza como um esforço para utilizar dinheiro público para cobrir o rombo de um banco quebrado.
Para o parlamentar, o Banco Master prosperou devido à flexibilização de normas de fiscalização na gestão anterior, configurando o que ele denomina “o maior golpe no mercado financeiro da história do país”. Pimenta aponta ainda a existência de uma “porta giratória”, citando ex-ministros de Bolsonaro, como Ronaldo Bento, que hoje ocupam cargos no banco, além da influência de nomes como João Roma e Onyx Lorenzoni na facilitação de negócios.
Depoimento suspenso e prorrogação dos trabalhos
A testemunha Ingrid Piquisqueni Morais Santos, esposa de Cícero Marcelino, um dos operadores do esquema dos Golden Boys, compareceu ao depoimento protegida por habeas corpus do Ministro Cristiano Zanin, que garantiu o direito ao silêncio e à não autoincriminação. Suas empresas receberam R$ 156 milhões desviados do INSS.
Após responder inicialmente ao relator Alfredo Gaspar que não sabia das operações e que seu marido, Cícero Marcelino, geria tudo, a testemunha passou a exercer seu direito ao silêncio em relação a perguntas específicas sobre outras empresas, como a Santos Consultoria e a Fortuna Loterias.
A sessão foi interrompida pelo presidente, senador Carlos Viana, pois a testemunha estava visivelmente abalada emocionalmente. Ela não retornou à sessão amparada por laudo emitido pela assistência médica do Senado Federal, que afirmou que a paciente apresentou uma emergência médica e não possuía condições de prosseguir com o depoimento.
Na próxima quinta-feira, 26, estão marcadas as oitivas de Paulo Otávio Montalvão Camisote, filho do empresário Maurício Camisotti, e de Edson Cunha de Araújo, deputado estadual do Maranhão.
Maurício Camisotti é conhecido no setor de seguros e de planos de saúde. Ele, seus sócios e familiares possuem mansões que valem mais de R$ 20 milhões, apartamentos nos bairros mais caros de São Paulo, carros de luxo e conexões com políticos.
Quebras de sigilo do deputado Edson Cunha revelaram o recebimento de valores expressivos em sua conta pessoal: R$ 54,9 milhões em junho de 2024 e R$ 5,5 milhões em apenas seis meses de 2025. Uma das linhas de investigação da CPMI é sobre a “rachadinha” no seguro-defeso e o aumento atípico de beneficiários no estado, que estaria ligado a esquemas de corrupção envolvendo assessores parlamentares.
Além desses depoimentos específicos, há expectativa de votação e aprovação da prorrogação dos trabalhos por mais 120 dias.
