1.
O teórico cultural de pseudônimo “blogueiro K-Punk”, Mark Fisher, em Realismo capitalista, indaga no subtítulo: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” A vasta produção de distopias apocalípticas que invadem os streamings sugere que a humanidade virará pó antes de encontrar a porta de saída para um ordenamento social justo e igualitário.
No livro publicado em 2009 o autor afirma, categórico: “O que vemos hoje é a geração que nasceu nesta cultura pontilhada, a-histórica e anti-mnemônica; uma geração para a qual o tempo, desde sempre, veio cortado e embalado em micro fatias digitais”. Mark Fisher refere-se àqueles que então têm em torno de vinte cinco anos, cujo desenvolvimento e hábitos coincidem com uma ascensão do neoliberalismo acompanhada pela crescente conexão digital, formando a tempestade perfeita (perfect storm).
O filme de Martin Scorsese, O lobo de Wall Street, de 2013, capta o hiperindividualismo sob a hegemonia de uma especulação das finanças. Numa fala do personagem de Leonardo DiCaprio: “Eu acredito em imersão total. Se você quer ser rico, você tem que programar a sua mente para ser rico. Desaprender os pensamentos que estavam fazendo você ser pobre e substituí-los pelos novos pensamentos, pensamentos de ricos”. Eis o pulo do gato.
É preciso incorporar os valores da nova razão do mundo para abandonar as políticas públicas. O Estado abdica do compromisso com o combate à pobreza e se transforma em bunker das classes dominantes. É o que acontece em fins do século XX e se prolonga como se fosse uma rendição inexorável. O mercado de dinheiro estimula uma instabilidade financeira e monetária de par com uma austeridade. Não por um acaso, Donald Trump teve na eleição de 2024 apoio significativo de eleitores na meia-idade, com 45 a 50 anos. Era a idade dos filhos da necropolítica neoliberal.
2.
De acordo com Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia: “A linguagem eletrônica não passa pela voz ou pela escrita: o processamento de dados se dá sem ambas perfeitamente”. Tal explica por que tantos empresários de sucesso possuem dificuldade de associar as letras e os sons. “A escrita nunca foi o forte do capitalismo”. A saber, “o capitalismo é profundamente iletrado”. Coisa que facilita uma proximidade com o fascismo que, por óbvio, prefere os pubs às bibliotecas.
A percepção de que os estudos na universidade não garantem uma mobilidade social é responsável pelo êxodo escolar. A tendência leva agora ao simples motorista de aplicativo. As Bets são vistas no carecimento periférico como uma oportunidade rentável em apostas. O investimento na formação profissional é encarado como uma via para o endividamento sem recompensa.
Em uma cultura ultramediada pela cibernética, os adolescentes processam dados imageticamente densos sem uma necessidade de leitura. A familiaridade com slogans da webesfera na dimensão informacional da internet-celular-postagem ajuda a percorrer os ardis do labirinto pós-industrial. Se beber não navegue.
Prevalece o modo de convivialidade e economia amparadas na flexibilidade, nomadismo e espontaneidade típicos do modelo de desregulamentação. Os palhaços sociopatas que colonizam a democracia liberal – vide a eleição municipal em São Paulo – fazem do nonsense uma armadilha para ridicularizar as normas sistêmicas na intenção de manipular a revanche dos excluídos na base da pirâmide social. No ínterim, o vácuo aumenta com o colapso dos segmentos médios. Vai que cola nas urnas.
3.
Para David Harvey, em O neoliberalismo: história e implicações, a neoliberalização é “um projeto político de restabelecimento das condições de acumulação do capital e da restauração do poder das elites econômicas”. Oscila entre uma antipolítica e a pós-política. Troca a gestão política pelo gerenciamento da tecnologia digital e concentra receitas. O amargo regresso ao absolutismo.
No Brasil, conforme o Relatório do Ministério da Fazenda de 2025, 1% apenas da população dispõe de 37% de toda a riqueza brasileira, e a renda de 0,1% dos ricos cresce cinco vezes mais do que a renda geral média. O grupelho amealha números superiores ao rendimento de 80 milhões de habitantes. Nos Estados Unidos 0,1% dos ricos detém 13,8% da riqueza do país. A guerra de classes tem um polo belicoso, a fina flor do lodo. O outro polo é marcado pelo sofrimento psíquico. A depressão, o tédio e o cansaço sintomatizam o quadro analítico da sociedade.
Think tanks na esteira de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman espalham-se aos quatro ventos para legitimar o abismo das desigualdades. A vanguarda intelectual do atraso está instrumentalizada para ignorar as virtudes do governo e louvar o livre mercado acima da democracia. Qual o Doutor Pangloss, de Voltaire, repete: “Esse é o melhor dos mundos possíveis”. Sim, esquecendo a opressão, a exploração, a precarização.
No brete, ou abraçamos o sistema injusto e suas instituições ou endossamos a lógica pós-fordista e a linguagem dos processos de digitalização. O desafio consiste em mostrar que o neoliberalismo não tem a ver com a inovação, porém com o retorno ao poder de classe e ao privilégio de classe para impedir um sequestro do conceito do novo, a exemplo da noção de revolução.
4.
Para Mark Fisher, “o espectro do governo forte desempenha uma função ‘libidinal’ essencial para o realismo capitalista”. O governo é criticado ora por omissão, ora pelas regulações sobre trânsito, ciclovias, impostos, arranha-céus, rios. Quando as companhias de energia elétrica ou de água causam grande decepção, os cidadãos acusam governantes por escolher a empresa inepta para entregar o patrimônio público. Compreensível: à revelia das ideologias, com efeito a política na atualidade gira ao redor do Estado.
A desindustrialização e as mudanças estruturais no mercado de trabalho baixam as expectativas no amanhã. Basta lembrar que 4/5 dos ocupados trabalham no setor terciário. A violência em especial contra as meninas e o duro impacto das redes sociais na juventude provocam indisposição. “Coitado de quem está sozinho / e assiste o seu próprio sonhar”, sublinha a poeta modernista.
Desdobra-se uma padronização na maneira de sentir e consumir jamais feita em outro período. Interesses privados exercem atração incompatível com a solidariedade, a diversidade e a paz. A pressão sobre o teatro urbano exige adaptação e submissão sob a espada do lawfare. O ataque ao interesse público unifica a tríade algoz: neoliberalismo, conservadorismo, neofascismo. A extrema direita cozinha o caldo no ódio e ressentimento. A mídia faz o fogo, dá a lenha e serve a janta lesa-pátria aos mestres do caos.
Distinto do que prega a derrota das grandes narrativas, a luta para a construção do Estado de bem-estar em um socialismo participativo desenha utopias no cotidiano. Mas para a história transcender os atos individuais é necessário o agente coletivo – a organização nacional. Só assim “o menor dos eventos pode abrir um buraco na cortina reacionária que encurtou os horizontes de possibilidade sob o realismo capitalista”, argumenta o blogueiro britânico K-Punk, de morte prematura (1968-2017).
* Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul
Este é um artigo autoral. A opinião contida no texto é de seu autor e não representa necessariamente o posicionamento da Fundação Perseu Abramo.
