Boston, capital do estado de Massachusetts, 7 de março de 1876. Um jovem cientista de 29 anos, nascido na Escócia e filho de pais intelectuais, recebia do Escritório de Patentes dos Estados Unidos o registro de número 174.465 pela criação  “do método de, e o instrumento para, transmitir sons vocais ou outros telegraficamente, causando ondulações eléctricas, similares às vibrações do ar que acompanham o som vocal”. Três dias depois, veio a frase que mudaria o mundo: “Sr. Watson, venha cá, preciso falar com o senhor”.

De um lado da linha estava Alexander Graham Bell; de outro, seu assistente Thomas Watson. Entre eles, um aparelho de madeira e metal com um receptor e um transmissor conectados por fios. Embora a briga pela criação da novidade ainda cause controvérsias 150 anos após aquele fato, foi naquele dia 10 de março de 1876, que nasceu oficialmente o telefone. 

A reação imediata foi paradoxal. De um lado, a imprensa da época recebia com entusiasmo a novidade, estampando em suas páginas manchetes como algo “mágico”. De outro, estava a população, que via com desconfiança a “bruxaria” de poder falar com alguém a quilômetros de distância. Diante de tal impasse, o telefone seguiu fora de linha por meses, até que um improvável garoto-propaganda mudaria, sem perceber, os rumos da história.

O nome dele? Dom Pedro II, o imperador do Brasil. Em visita à Exibição Internacional Centenária, na Filadélfia, em junho daquele ano, o brasileiro circulava entre os estandes, que apresentavam invenções como a lâmpada elétrica e o ketchup Heinz, até parar onde estava Graham Bell. Curioso pela parafernália à sua frente, Dom Pedro foi convidado pelo inventor a experimentá-la. Afastou-se cerca de 100 metros e esperou que o cientista recitasse, na outra extremidade, um verso de William Shakespeare. “Meu Deus, isso fala!”, teria gritado.

O espanto do imperador foi tão grande que o fez trazer para o Brasil, os primeiros aparelhos telefônicos fora dos Estados Unidos, tornando o país uma espécie de “case” para divulgar a tecnologia. O elegante aparelho adquirido pelo imperador para falar com seus aliados ainda pode ser visto em exposição no Museu das Telecomunicações do Rio de Janeiro. 

A explosão da novidade 

Nas décadas seguintes, as primeiras centrais telefônicas começam a surgir, ainda dependentes de telefonistas humanas para conectar as chamadas, mas ainda restrito ao uso de autoridades e de membros da aristocracia. 

Foi a partir de 1910 que o telefone se torna uma ferramenta de negócios e status social para a elite, com telefones de parede e os primeiros modelos “castiçal”. Somente quatro décadas depois, ele passou a ter seu preço mais acessível e a fazer parte também dos lares da classe média. 

Até 2014, quando já havia um telefone celular para cada habitante na Terra, os aparelhos fixos começaram a cair em desuso. Mas, segundo estimativas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ainda há ao menos 20 milhões deles espalhados pelo país. No mundo todo, “apenas” um bilhão deles se mantêm ativos. 

O telefone completa 150 anos em 2026 e o que o Brasil tem a ver com isso?
Dom Pedro II (restauração de imagem de Matthew Braddy, de 1876)

Sem fio e sem controle

Há um provérbio budista que afirma: “se o discípulo não superar o mestre, o mestre fracassou”. Na engrenagem incansável da ciência são muitas as histórias de alunos que foram mais longe do que seus professores, seja na fama ou no que (re)inventaram. É o caso de Martin Cooper, engenheiro eletrônico estadunidense, a quem é atribuída a invenção do telefone celular, a versão definitiva (até que se prove o contrário) do legado de Graham Bell.

Diferentemente de seu antecessor, a criação de Cooper, ocorrida em 1973, foi feita à luz do dia, sob inúmeras testemunhas, e já com a expectativa de se tornar um fenômeno comercial. A novidade foi anunciada em Nova Iorque pelo próprio criador, durante coletiva de imprensa, onde fez uma chamada histórica usando o aparelho Motorola DynaTAC – um equipamento com quase 2,5 kg e bateria com autonomia de apenas 20 minutos de chamada de voz.

Mas o que aconteceu a partir dali mudaria novamente os rumos da história. Os aparelhos passaram a ganhar novas caras e funções ano após ano até que, em 2007, uma novidade causaria a última grande revolução nos aparelhos: o fim das teclas e a inclusão de tela touchscreen, inspirada numa antiga tecnologia da indústria da aviação. 

Hoje já há mais celular do que gente no mundo: cerca de 12 bilhões de linhas ativas em 2026.

Nomofobia

A dependência do aparelho tornou-se um dos males “inventados” pelas novas gerações. E tem até um nome próprio: nomofobia: Um estudo de 2024 da nomophobia.com, portal dedicado ao tema, revela que 60% dos brasileiros reportam ansiedade quando não estão com seus celulares.

Para 85% dos brasileiros, os telefones celulares facilitam as transações financeiras por meio de pagamentos móveis. Além disso, 70% utilizam o aparelho para entretenimento, como ouvir música, assistir filmes e jogar, enquanto 57% relatam que ele contribui para a educação ao proporcionar ensino a distância. Por fim, 30% relataram ter conhecido o parceiro através de redes sociais ou aplicativos de namoro. 

A nomofobia, além de ansiedade, pode causar pânico, depressão, isolamento social e distúrbios do sono devido à luz azul. O vício gera irritabilidade, baixa concentração, dores no pescoço/costas, fadiga ocular e redução do desempenho acadêmico/profissional. 

Hoje, há uma nova onda no mundo que tenta refutar o que fizeram Graham Bell e Cooper como sinônimo de qualidade de vida. A ciência que nos perdoem, dizem os entusiastas, mas abençoados mesmo são aqueles que não precisam de celular. 

Tal pais, tal filho

A história do telefone também envolve a disputa do inventor italiano Antonio Meucci, que durante muito tempo afirmou ter desenvolvido um sistema de transmissão de voz antes de Alexander Graham Bell registrar sua patente. 

Meucci havia emigrado para os Estados Unidos e, na década de 1850, trabalhava em um dispositivo que chamou de telettrofono, capaz de transmitir a voz eletricamente entre cômodos de uma casa. O equipamento teria sido criado, inicialmente, para permitir que ele se comunicasse com sua esposa, que estava doente e permanecia em um quarto diferente.

Segundo defensores de Meucci, o inventor chegou a apresentar protótipos e a registrar, em 1871, uma espécie de aviso de patente chamado caveat, que reservava temporariamente sua ideia. No entanto, ele não conseguiu pagar as taxas para renovar o registro nos anos seguintes. Há também relatos de que modelos e documentos teriam sido entregues a um laboratório associado à Western Union e posteriormente desapareceram, o que alimentou suspeitas de que seu trabalho possa ter sido apropriado ou ignorado antes da patente oficial do telefone.

A controvérsia permaneceu por mais de um século e voltou ao debate público no início dos anos 2000, quando a United States House of Representatives aprovou uma resolução simbólica reconhecendo a contribuição de Meucci para o desenvolvimento do telefone. A medida não revogou a patente histórica de Bell, mas reforçou a ideia de que a invenção do aparelho foi resultado de experimentos paralelos e disputas científicas típicas do período, em que vários pesquisadores buscavam soluções semelhantes para transmitir a voz à distância.