Expressão, deturpada de uma cena do filme Matrix, tem sido usada para representar grupos de homens começou com a exaltação da masculinidade e hoje é uma perigosa organização que realiza atos de violência e feminicídio mundo afora
Numa das cenas mais clássicas da ficção científica moderna, Morfheus, um dos líderes da resistência humana contra as máquinas, oferece a Neo, o escolhido para liderar a revolução, duas opções: a pílula azul, que o faria “cego” e voltar à sua vida normal, ou a pílula vermelha, capaz de levá-lo ao verdadeiro mundo real, longe da farsa cotidiana.
A escolha pela segunda opção é o que desenvolve a trama do filme Matrix, de 1999, escrito e dirigido pelas irmãs Wachowski. A “red pill”, a partir de então, passou a referendar qualquer nova explicação sobre teorias da conspiração, supostos equívocos históricos e até notícias exaustivamente divulgadas. Seu uso, portanto, ganhou status de chá revelação, onde a verdade está muito além das supostas evidências.
No início do novo século, no entanto, com a ascensão de ideais ultra conservadores que remetiam a movimentos políticos de extrema direita como fascismo e nazismo, red pill foi tomado de assalto e empurrada goela abaixo como mecanismo de violência. A partir de fóruns e grupos de redes sociais, milhares de jovens, inicialmente nos Estados Unidos, passaram a usar a expressão para despertar a sociedade para uma nova realidade, chamada de manoesfera e que tinha como lema a exaltação da masculinidade, a sua superioridade em relação às mulheres e o desprezo incondicional por elas.
O que parecia apenas uma bravata inofensiva de jovens, muitos deles menores de idade, logo passou a resultar em ataques fora da internet. No Brasil, os perigos deste “movimento” ganharam um capítulo assombroso nas últimas semanas, com o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos por cinco jovens no Rio de Janeiro.
Um deles, ao ser preso, usava uma camiseta cuja estampa fazia menção clara a outro lema dos red pills: não se arrepender de nada, criado pelo britânico Andrew Tate, que se auto-intitula “ultra masculino”, tem milhões de seguidores e uma série de acusações – inclusive de estupro.
A história se soma a outros tantos casos recentes de grande repercussão e que tiveram, direta ou indiretamente, ligação com a manoesfera. Um deles teve como protagonista justamente Thiago Schutz, conhecido como “Calvo do Campari” e um dos líderes do movimento red pill no Brasil, preso em flagrante no final de novembro de 2025 por suspeita de violência doméstica contra sua namorada em Salto, interior de São Paulo.
O influencer, que fazia vídeos com discursos de ódio contra mulheres na internet, acabou por revelar outro questionamento: a conivência das big techs com esse tipo de crime. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025 (DataSenado/Nexus) revelou que 10% das brasileiras (cerca de 9 milhões) sofreram violência digital nos últimos 12 meses. Mensagens ofensivas, invasão de conta, vazamento de fotos íntimas e, principalmente, chantagens dobraram, com agressores focados em assédio moral e sexual online.

Se levar em conta outros tipos de violência relacionados à misoginia, os números impressionam ainda mais. A cada 24 horas em 2025, aproximadamente 12 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência. É o que aponta os dados do estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede Observatórios da Segurança, que monitorou nove estados brasileiros ao longo do ano.
Segundo o levantamento, 4.558 mulheres foram vitimadas, o que representa um aumento de 9% em relação a 2024. Entre os tipos de violência registrados, chamou atenção o crescimento dos casos de violência sexual e estupro. Os registros aumentaram 56,6%, passando de 602 para 961 casos. O perfil das vítimas revela um cenário alarmante: 56,5% eram crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos.
Entre as ocorrências mais frequentes estão tentativa de feminicídio e agressão, que somaram 1.798 registros. O estudo também analisou outros tipos de violência, como agressão verbal, cárcere privado, dano ao patrimônio, feminicídio, homicídio, sequestro e supressão de documentos, entre outros.
Em meio à discussão, acalorada pelos atos do Dia Internacional das Mulheres, tem aumentado o número de projetos de lei para coibir todo e qualquer tipo de violência de gênero, inclusive a digital.
Na Câmara dos Deputados há ao menos 36 projetos de lei que tratam sobre misoginia em tramitação. A maioria das propostas está parada à espera de distribuição para alguma comissão da Casa ou de parecer dos relatores. No Senado, uma boa notícia: na quarta-feira (11) aComissão de Direitos Humanos (CDH) aprovou emenda de redação apresentada em Plenário para o projeto que criminaliza a misoginia.
Agora, o PL 896/2023, que altera a Lei do Racismo para incluir a misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação, volta em caráter de urgência à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que também avaliará as emendas de Plenário.

Outros movimentos extremistas da Manoesfera
Incel (Involuntariamente Celibatários)
Comunidades de homens que atribuem sua falta de relações sexuais ou românticas a fatores genéticos ou a uma sociedade superficial.
Black Pill
Prega um niilismo extremo onde mulheres são vistas como seres puramente biológicos e superficiais que desprezam homens sem “genética de elite”.
MGTOW (Men Going Their Own Way)
Defende o isolamento total das mulheres, frequentemente descrevendo-as como parasitas sociais ou riscos financeiros e legais.
Pick-up Artists (PUA) Misóginos
Utilizam táticas de manipulação psicológica para tratar mulheres como “alvos” ou objetos a serem conquistados através de jogos de poder.
Extrema Direita Radical (Alt-Right)
Frequentemente associa a supremacia masculina ao ódio de gênero, defendendo a retirada de direitos básicos e a submissão total das mulheres.
TradWife (Vertente Hostil)
Embora pareça apenas um estilo de vida, em fóruns radicais é usado para atacar e desqualificar qualquer mulher que não aceite um papel de servidão doméstica.
