“Se a gente não quebrar esse ciclo, não muda.” A frase da ministra das Mulheres, Marcia Lopes, não é apenas um diagnóstico, mas um alerta sobre a profundidade de uma violência que atravessa a história brasileira e segue se reproduzindo no presente.
À frente da pasta responsável por articular políticas de enfrentamento à violência de gênero, ela fala a partir de uma trajetória marcada pela construção de políticas públicas e pela experiência direta na implementação de programas sociais em escala.
Em entrevista à Focus Brasil, Lopes sustenta que o país vive hoje um momento de reconstrução, após anos de desmonte institucional, mas que ainda enfrenta o desafio central de fazer o Estado chegar antes da violência.
Com uma média de quatro feminicídios por dia, o Brasil expõe não apenas a brutalidade dos números, mas os limites históricos de uma resposta fragmentada. Para a ministra, não se trata apenas de endurecer leis ou ampliar punições.
“Não é só lei, é o sistema que precisa funcionar”, afirma, ao defender a integração entre União, estados e municípios como condição para que políticas públicas sejam, de fato, implementadas. “É preciso decisão política dos Estados e Municípios”, arremata. Ao mesmo tempo, aponta que há caminhos concretos já em curso, especialmente quando há decisão política e investimento contínuo em redes de proteção.
A Ministra das Mulheres destaca ainda o papel coletivo das mulheres e dos movimentos sociais na reconstrução social do país, defende políticas públicas integradas e alerta para o avanço da violência e da misoginia nas redesefetivas.
Políticas para mulheres ainda representam desafios
Ao longo da entrevista, Lopes articula duas frentes que considera indissociáveis. De um lado, a reconstrução institucional, com a recriação do Ministério das Mulheres, a retomada de programas e a articulação entre os três Poderes por meio do pacto nacional contra o feminicídio.
“O Estado chega antes quando ele estrutura uma rede de serviços adequada”, diz, ao citar experiências municipais que conseguiram reduzir drasticamente a violência a partir da organização integrada de políticas.
De outro, um campo mais difuso, mas igualmente decisivo: a disputa cultural. Para a ministra, o enfrentamento ao feminicídio exige romper com padrões profundamente enraizados na sociedade brasileira, o que passa pela educação, pela mídia e pelas formas de sociabilidade contemporâneas. Nesse ponto, ela aponta um novo vetor de agravamento da violência.
“Se a gente não enfrentar isso, esse discurso de ódio vai só se reproduzir”, afirma, ao tratar da misoginia nas redes e da transformação da violência digital em um ambiente organizado e lucrativo.
Entre a estrutura do Estado e a formação da cultura, a ministra vê um ponto de convergência: a capacidade de dar escala às políticas públicas.
“Quando a gente deu escala, as coisas mudaram”, lembra, retomando sua experiência na implementação de programas sociais. Para ela, é nesse cruzamento entre integração institucional e mudança cultural que se decide o futuro do enfrentamento à violência contra as mulheres no Brasil.
Ministra, a gente está, em 2026, com uma média de quatro feminicídios por dia. Assistindo ao noticiário antes de recebê-la, noticiaram outro caso escabroso no interior de São Paulo – todo dia que a gente amanhece, tem outro. Como é que a gente faz para que o Estado deixe de só resolver isso depois que a violência já aconteceu? Como que a gente vai antecipar, o Estado chegar antes?
Na verdade, acho que esse é um dos maiores desafios atuais do Estado brasileiro e da sociedade. Acho que uma primeira questão é a gente entender que essa situação de violência, que sempre existiu e que foi naturalizada, enfim, é preciso que a gente tenha a devida noção da dimensão estrutural que ela tem e como nós temos que, então, criar estratégias para enfrentar isso.
Enfrentar uma questão estrutural no Brasil nunca é fácil. Nós temos o racismo, a homofobia, a transfobia, preconceitos de toda natureza, inclusive em relação à questão da mulher. A gente fica repetindo que isso é resultado de um processo do patriarcado, mas, na verdade, é uma questão planetária. Nós tivemos agora na CSW, o maior evento mundial de mulheres da ONU, e não encontramos nenhum país que dissesse que não tem violência contra a mulher. Então, essa é uma questão crucial, estrutural, marcada pelo machismo e pela misoginia. E, dependendo da conjuntura, isso vai se aprofundando.
No Brasil, a gente viveu um período muito difícil. Quando um governo não cuida das vidas, estimula o uso de armas, desvaloriza, ofende as mulheres, isso tem consequência direta. Entre 2016 e 2022 houve ruptura de políticas públicas, redes desmontadas, ausência de diálogo. Reconstruir isso dá muito trabalho, custa mais caro e demora mais tempo.
Então, quando o presidente assume e cria o Ministério das Mulheres, ele demarca um compromisso com uma política intersetorial. E, quando você pergunta como chegar antes da violência, me parece que são duas grandes dimensões.
Uma dimensão é o Brasil assumir mesmo essa perspectiva de conectar essa realidade com essa formação machista, misógina, com essa cultura. Se a gente não quebrar esse ciclo, esse modo de agir, não muda. É ter a devida noção do que seja igualdade de gênero, igualdade de raça, etnia. Isso depende de formação, depende de estar na educação o tempo todo, nos currículos escolares, desde criança até adulto, e depende também da mídia, da imprensa, dos meios de comunicação falarem sobre isso e valorizarem esse debate.
A outra dimensão é estrutural. O Estado chega antes quando ele estrutura o município, o governo estadual e o governo federal. Nós temos experiências incríveis. Municípios que estão há mais de um ano sem feminicídio, como Niterói e Cabo de Santo Agostinho. Isso acontece quando há uma decisão política da liderança e quando se tem investimento nessa rede de proteção.
Para denunciar, a mulher precisa ter segurança, precisa ter confiança. Ela precisa saber que, ao denunciar, vem um procedimento posterior que a proteja, que contemple medidas rápidas, acompanhamento, e que ela tenha acesso à rede de políticas públicas — saúde, assistência, escola, trabalho. Ou seja, a rede funcionando em escala.
Esse foi o meu aprendizado no Fome Zero. Quando a gente deu escala ao Bolsa Família, ao Pronaf, as coisas mudaram.
Qual seria a primeira mudança concreta que uma mulher em risco vai perceber nesses próximos meses aqui no país? A senhora tem dito que não basta ter lei, é preciso que todo o sistema cumpra o protocolo de gênero. Onde hoje o sistema, na sua opinião, mais falha nessa abordagem? É na polícia, no acolhimento da vítima, no Judiciário, na assistência?
Primeiro dizer que no Brasil nada é simples. Uma coisa é a gente pensar na aplicação de uma lei ou de um projeto numa capital onde já tem instalada uma rede de serviços. Outra coisa é pensar como é que nós vamos aplicar isso num município ribeirinho que fica 12, 15, 20 horas de barco de qualquer serviço. Às vezes até mais.
São 5.570 municípios com características muito próprias. O que a gente observa é que, quando há um governo comprometido, no nível federal ele cofinancia, coordena, impulsiona iniciativas. Um governo democrático, como o do presidente Lula, se abre, escuta, conhece o território.
O pacto é uma iniciativa do nível federal. Juntamos Legislativo, Executivo e Judiciário, criamos um comitê interinstitucional para dizer o que cada um faz e o que precisa fazer melhor, e depois articulamos com estados e municípios.
Já vemos movimento. Municípios criando fóruns, articulando os três poderes. Isso já mudou. A articulação está sendo convocada, há mais condição de cobrança, e as leis começam a avançar, como a criminalização da misoginia.
Também há ações concretas. Operações que prenderam cinco mil homens, muitos foragidos há anos. Mudanças no uso da tornozeleira eletrônica, com mais agilidade. Isso já é uma demonstração de que o Estado está se movendo.
Então, onde falha? Falha na articulação. Não é só polícia, Judiciário ou assistência. É tudo junto. Quando essa rede não funciona integrada, falha. E tem também a questão da visão institucional. Ainda há situações em que mulheres são desencorajadas a denunciar. Temos poucas mulheres como policiais, promotoras, juízas, e isso impacta no acolhimento. Mas eu não tenho dúvida de que esse pacto já está trazendo mudança. Está criando um ambiente em que as autoridades vão ter que agir.
A senhora mencionou a articulação com os demais ministérios e também a relação com o movimento de mulheres. O movimento parece querer atuar junto do governo nessa batalha.
Não há dúvida. Foi muito importante, porque todas as minhas agendas foram articuladas com os movimentos. Há engajamento, interesse, necessidade de direção.
Nós temos o Conselho Nacional de Direitos das Mulheres com forte participação da sociedade civil. Temos fóruns de mulheres de diferentes segmentos — quilombolas, indígenas, trabalhadoras, pessoas com deficiência.
Mas o que eu sinto ainda é muita fragmentação. Grupos fazendo coisas importantes, mas isolados. A gente precisa juntar, precisa dar escala. Porque o Brasil é muito grande. Quando a gente dá escala, as coisas acontecem.
A senhora também está com ações na área da educação. Vai ter parceria com o MEC? Como entra a Lei Maria da Penha nas escolas?
Esse é um ponto central. Toda vez que a gente fala de política pública, a gente diz: tem que estar na educação. Porque é ali que se forma a cultura. Desde o berçário até a vida adulta. Estamos trabalhando com o MEC para regulamentar a Lei Maria da Penha nas escolas. Isso muda tudo.
No governo passado, a palavra “gênero” foi retirada. Hoje estamos retomando esse debate. É uma lei sancionada e vamos fazer com que chegue às escolas. Também estamos avançando nas universidades, com políticas de prevenção à violência, e implantando as cuidotecas, para garantir condições para que as mulheres estudem e trabalhem.
E também as políticas estruturantes, como as Casas da Mulher Brasileira.
Sim. Estamos ampliando. Vamos chegar a 43 casas. Também ampliando centros de referência, com acolhimento, assistência social, psicológica, formação. Temos iniciativas como lavanderias coletivas, que reorganizam o tempo das mulheres e criam espaços de convivência. E temos o desafio da igualdade salarial. Mulheres ainda ganham 21% a menos. Isso é cumprimento da lei.
Eu queria pedir que a senhora falasse rapidamente sobre a questão da misoginia nas redes, que vai virar mais uma batalha no nosso campo, não? A regulamentação, o acompanhamento.
Então, nessa conferência internacional nós tiramos uma declaração muito importante, muito avançada. Porque, entre os países, não é simples avançar nisso. Falar em igualdade de gênero não é tão simples de aparecer nos documentos. Mas conseguimos construir uma lei modelo sobre violência digital.
E essa lei modelo nós já trouxemos para o Brasil assumir. Já temos na Câmara projetos apresentados sobre violência digital. O Brasil já tinha avançado em outras áreas, como a lei da adultização das crianças, a restrição de celulares nas escolas. Agora o governo vai editar um decreto importante sobre isso.
Porque é inadmissível o que tem acontecido. Se a gente não enfrentar isso, esse discurso de ódio, a misoginia vai só se reproduzir. Hoje há uma indústria da violência digital. Deepfakes, deep nudes, redes organizadas. Isso atinge principalmente jovens e virou um negócio econômico. E os donos das plataformas não têm responsabilidade. Muitas vezes, ao contrário, incentivam esse tipo de conteúdo.
Então esse processo de naturalização, da “brincadeira”, da piada, das músicas, de tudo isso, vai construindo uma cultura de violência. Isso exige de nós uma mudança profunda. As redes precisam de uma transformação drástica. O Estado tem que regulamentar. Não adianta trabalhar isso na escola e deixar as redes reproduzirem violência em larga escala. Crianças muito novas já estão expostas a isso. Então precisamos transformar esse ambiente para que as redes sejam instrumento de proteção, de aprendizado, de socialização das coisas boas que o Brasil produz. E, ao mesmo tempo, quando eu viajo e encontro as mulheres, eu vejo a capacidade que elas têm de reconstruir, de mobilizar.
As mulheres não são egoístas. Elas são coletivas. Pensam nas outras, nas famílias, nos territórios. E isso me encanta muito. Eu vejo a capacidade que elas têm de levar um país à frente.
Estamos há pouco mais de dez anos depois de eleger a primeira mulher presidenta da República, e hoje não consegue garantir uma representação feminina consistente no Congresso. Como trabalhar essa formação política das mulheres, preparar essas lideranças e enfrentar esse cenário? Que país é esse que elegeu uma ex-guerrilheira presidenta e hoje vive esse estado de violência e baixa representação?
Nós avançamos muito com a Lei Maria da Penha, quando ela caracteriza os tipos de violência doméstica, sexual, psicológica. Depois vem também a violência patrimonial, que é justamente essa tentativa de criar dependência nas mulheres.
E aí nós temos inúmeras violências, inclusive a violência política de gênero. Foi a primeira atividade que eu participei, quando tratamos desse tema. Porque nós temos hoje 513 parlamentares, sendo 91 mulheres, e é impressionante o nível de violência que elas sofrem todos os dias.
Ao mesmo tempo, são elas responsáveis por mais de 44% da produção legislativa da Câmara.
Com a presidenta Dilma aconteceu algo muito semelhante. Uma trajetória exemplar, uma mulher que foi ministra, chefe da Casa Civil, e que sofreu uma violência absurda, que foi o impeachment. E depois se reconhece que não houve crime.
Então eu penso que o Brasil ainda deve uma reparação à presidenta Dilma. Essa violência política é cotidiana. Vereadoras contam o que passam, mulheres em todos os espaços passam por isso.
Então isso impacta diretamente a renovação do Congresso, como o presidente Lula tem colocado, e exige que a gente enfrente esse debate com mais força.
