Premiação reuniu críticas à política migratória dos EUA, reações de Donald Trump e o reconhecimento de trajetórias como as de Caetano Veloso e Maria Bethânia

Foto: Reprodução Grammys/Instagram
A 68ª edição do Grammy, realizada no domingo (1º), em Los Angeles (EUA), ficou marcada não só pelos aguardados prêmios e pela celebração da música, mas especialmente como um palco explícito manifestações políticas contra o governo de Donald Trump e suas agências de repressão, especialmente o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE).
Bad Bunny, vencedor do Álbum do Ano por Debí Tirar Más Fotos, foi o primeiro a dar o tom da cerimônia. Ao alternar espanhol e inglês em seu discurso, dedicou o prêmio a pessoas obrigadas a deixar seus países de origem para perseguir oportunidades e afirmou que “não somos selvagens, não somos animais, não somos estrangeiros; somos humanos e somos americanos”, encerrando a fala com um direto “ICE out”, recebido com aplausos da plateia.
O posicionamento foi reforçado por Billie Eilish, vencedora da Canção do Ano por Wildflower. Em sua fala, a artista afirmou que “ninguém é ilegal em terra roubada” e resumiu sua crítica à política migratória com um explícito “que se f*da o ICE”, frase que rapidamente se tornou um dos momentos mais repercutidos da noite nas redes sociais e na imprensa internacional.
Outros artistas ampliaram o coro. Kehlani defendeu a mobilização coletiva contra injustiças institucionais, afirmando que pessoas são “mais fortes em número” quando se posicionam politicamente. Olivia Dean, ao subir ao palco, evocou sua história familiar ao lembrar que estava ali “como neta de um imigrante”, destacando que essa trajetória “merece ser celebrada, não criminalizada”.
Mesmo em categorias não centrais, o tom se manteve. Artistas utilizaram entrevistas pós-premiação e aparições públicas para reforçar críticas à violência das operações migratórias, enquanto símbolos e palavras de ordem circularam entre convidados, consolidando a percepção de que o Grammy havia se transformado, naquela edição, em um espaço coletivo de contestação política.
O clima político nos Estados Unidos atravessa a cerimônia
O ambiente de confronto se estendeu à condução da festa. O apresentador Trevor Noah fez críticas diretas a Donald Trump durante a transmissão, associando o endurecimento migratório ao clima de intolerância no país. As falas provocaram reação imediata do ex-presidente, que atacou a premiação em publicações na rede Truth Social ainda durante a noite.
A sequência de discursos, reações e manifestações evidenciou que o Grammy 2026 ultrapassou o papel de celebração da indústria musical para se tornar um retrato das tensões sociais e políticas dos Estados Unidos, em um momento marcado por operações migratórias violentas, protestos e crescente polarização.
Caetano e Bethânia e outros destaques da noite
O Grammy 2026 também reservou espaço para a consagração de trajetórias artísticas que dialogam com identidade, memória e pertencimento. Os brasileiros Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram na categoria Melhor Álbum de Música Global com Caetano e Bethânia Ao Vivo, registro da turnê que percorreu diversas cidades brasileiras com casas lotadas.
O disco reúne clássicos das carreiras individuais dos irmãos, como Reconvexo e Vaca Profana, além de uma nova leitura de Fé, composição de Iza interpretada em dueto.
A vitória reforçou o peso simbólico da música brasileira em uma edição marcada pelo reconhecimento de obras que extrapolam o entretenimento e assumem dimensão política e cultural.
A noite ainda consagrou Kendrick Lamar, vencedor da gravação do ano por Luther (em parceria com SZA) e de melhor álbum de rap por GNX. Com as novas estatuetas, Lamar chegou a 27 prêmios Grammy na carreira, superando o recorde anterior de Jay-Z entre artistas do gênero. Lady Gaga venceu na categoria de melhor álbum pop com Mayhem, em mais uma edição que privilegiou artistas com forte posicionamento público.
