Imagem: O presidente Donald Trump cumprimenta o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, 6 de maio de 2025, na entrada da Ala Oeste da Casa Branca. (Foto oficial da Casa Branca por Daniel Torok)

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Canadá está entre principais fornecedores de armas para israel e suas mineradoras acumulam violações no Sul Global

Esta semana no cada vez mais anacrônico Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, colocou seu nome na imprensa mundial, graças a um discurso supostamente crítico aos Estados Unidos e que questionaria a realidade da “ordem internacional baseada em regras”. Uma crítica, até agora, levantada apenas por países do Sul Global e grupos como Brics.

Em meio à suposta discordância, Carney ressuscita a autoimagem do Canadá, criada no pós-guerra, de “potência média”.

“Hoje falarei sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma dura realidade, onde a geopolítica não está sujeita a limites, a nenhuma restrição”, disse Mark Carney ao público milionário.

A fala do primeiro-ministro canadense não passa de uma tentativa de se descolar do império estadunidense. Muitas das violações de regras internacionais ou abusos por parte dos países poderosos, agora supostamente criticadas por Carney, foram e continuam sendo praticadas pelo Canadá.

O objetivo deste artigo é exemplificar como o Canadá historicamente não apenas se beneficiou de uma ordem internacional baseada na força econômica e militar, como é cúmplice das violações estruturais à “ordem internacional” cometidas pelo império estadunidense.

Um primeiro caso: prisão ilegal de uma cidadã chinesa

Um dos exemplos recentes que ajuda a entender o verdadeiro papel do Canadá na geopolítica é o caso da prisão de Meng Wangzhou, diretora financeira da Huawei.

Em 2018, Meng foi presa no aeroporto de Vancouver a pedido dos Estados Unidos e detida por 1.028 dias, ficando em liberdade condicional após pagar 10 milhões de dólares canadenses, quase R$30 milhões à época.

Meng foi presa sob a acusação de supostamente ter cometido fraudes para contornar as sanções dos Estados Unidos contra o Irã. A acusação é de que a Huawei havia utilizado uma subsidiária em Hong Kong (Skycom) para continuar fazendo negócios com o país persa.

A legislação estadunidense é unilateral e não tem base no direito internacional. Portanto, o Canadá não estava obrigado (como argumentou) a cumprir as ordens de Washington.

Meng só foi inocentada porque o Departamento de Justiça dos EUA, já sob governo Biden, retirou as acusações.

A pressão dos Estados Unidos contra a Huawei (que foi considerada uma ameaça à segurança nacional dos EUA por Trump em 2019), conseguiu fazer com que todos os países da aliança de inteligência “Cinco Olhos” (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), excluíssem cedo ou tarde a empresa chinesa de suas redes 5G.

Governo do Canadá “satisfeito” com o sequestro de Maduro

“Nosso objetivo é sermos ao mesmo tempo éticos e pragmáticos – éticos em nosso compromisso com os valores fundamentais, a soberania, a integridade territorial, a proibição do uso da força, exceto quando compatível com a Carta da ONU, e o respeito aos direitos humanos”, disse o líder canadense diante da plateia de líderes internacionais e empresários que gastam entre 100 mil e 1 milhão de dólares por ano para estar ali, segundo a revista Fortune.

O sequestro de Maduro obviamente não é compatível com a Carta da ONU. No entanto, no dia seguinte à operação de sequestro que assassinou cerca de 100 pessoas, o primeiro-ministro canadense não hesitou em celebrar o crime cometido pelo governo estadunidense: “O governo canadense, portanto, acolhe com satisfação a oportunidade de liberdade, democracia, paz e prosperidade para o povo venezuelano”, disse Mark Carney sobre o sequestro.

Antes de celebrar o crime do governo Trump, Carney condenou “inequivocamente” o governo venezuelano por “suas graves violações da paz e segurança internacionais, as violações flagrantes e sistemáticas dos direitos humanos e a corrupção”.

Ou seja, tentou justificar a violação de leis internacionais que tanto defendeu em seu discurso à elite econômica mundial.

A cumplicidade canadense no genocídio em Gaza

A discussão de se há uma ruptura ou uma transição é menos relevante, para o caso do Canadá, do que o fato de que esse Estado norte-americano está do lado da hegemonia, não dos “sem poder”, como tentou insinuar o primeiro-ministro.

Em seguida da nova fase do genocídio palestino em Gaza, entre outubro e dezembro de 2023, o Canadá aprovou exportações militares para israel no valor de US$ 28,5 milhões, superando o valor das exportações de armamento de todo o ano de 2022 (US$ 21,3 milhões) e do de 2021 (US$ 27,8 milhões), segundo levantamento da organização canadense Defensores da Paz Justa.

Em 2024, o governo canadense havia anunciado que suspenderia os pedidos de exportação de armas a israel.

Mas a campanha “Embargo de Armas Já” revelou em um relatório publicado em novembro de 2025, como o Canadá continua sendo uma peça chave para as forças genocidas israelenses através de envios de peças de armamentos aos Estados Unidos.

“O Canadá desempenha um papel fundamental na viabilização dos bilhões de dólares em ajuda militar e vendas que os Estados Unidos destinam anualmente a israel”, diz o relatório disponível em inglês aqui.

O Estado canadense é um ator chave nas violações cometidas pelas mineradoras pelo mundo

O Canadá é beneficiário do modelo saqueador de bens comuns no Sul Global, por parte do Norte Global.

“Os canadenses permanecem comprometidos com a sustentabilidade”, disse Carney.

Por décadas, as empresas mineradoras canadenses foram responsáveis por violações de direitos humanos e por crimes ambientais em diversas regiões do Sul Global, como na América Central e Sudeste Asiático, e inclusive no Brasil, como no caso da Belo Sun no Pará.

A Barrick Gold é campeã de violações. Em 2015 foi responsável pelo maior derramamento tóxico da Argentina. Mais de 15 mil litros de cianeto e mercúrio contaminaram cinco rios na província de San Juan.

A mineradora é responsável por crimes ambientais e de direitos humanos em países na América Latina, África e Ásia. Não apenas por crimes ambientais, mas pela prática de ameaças e assassinatos de lideranças comunitárias contrárias à instalação de megaprojetos de mineração.

As mineradoras canadenses desenvolveram a prática de promover conflitos locais, seja dividindo comunidades, contratando seguranças privados ou judicializando moradores.

Esse é o caso da população de Volta Grande do Xingu. A região onde a mina pode ser instalada está localizada em áreas destinadas à reforma agrária. O Brasil de Fato identificou que os acampados “sofrem constantemente ameaças veladas ou explícitas, com seguranças armados apontando ou atirando para assustar”.

A lista de violações é enorme, e uma das organizações que tem feito um importante trabalho de registro e denúncia é o Observatório da Mineração do Canadá.

A questão central aqui não é apenas que se trata de atores privados canadenses violando direitos humanos e ambientais no Sul Global. É que essas empresas contam com o apoio fundamental do Estado canadense.

Em 2013, o relatório “Mineração canadense no México: a exploração de Blackfire e a embaixada canadense, um caso de corrupção e assassinato”, mostrou como o Estado canadense atuou em defesa da empresa Blackfire.

No final de 2009, a liderança da cidade de Chicomuselo, em Chiapas, Mariano Abarca, foi assassinado por sua atuação na resistência de sua comunidade contra a instalação da mineradora canadense Blackfire.

“Temos documentos de 2007 a 2010 que mostram que a embaixada desempenhou um papel fundamental na facilitação das atividades das empresas antes do fechamento da mina, mesmo estando ciente dos problemas entre a empresa e as comunidades”, denunciou à época, Jennifer Moore, da Mining Watch Canada.

Em Davos, o líder canadense teve a pachorra de dizer que “durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos de ordem internacional baseada em regras”. Não, o Canadá se beneficiou e continua se beneficiando por ser um coadjuvante do imperialismo.

China

Críticas que não são precisas permitem ser interpretadas de acordo com a vontade de cada um. Nesse sentido, o primeiro-ministro canadense escolheu cuidadosamente onde mencionar os Estados Unidos.

Uma boa parte do mundo viu o discurso com audacioso, mas a única menção aos EUA é, na verdade, um elogio: “a hegemonia estadunidense, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas”.

De resto, o que pode ser interpretado como menção aos EUA no discurso, também pode ser interpretado como menção à China.

Como neste caso: “Parem de invocar uma ordem internacional baseada em regras como se ela ainda funcionasse. Chame-a pelo que ela é: um sistema de rivalidade crescente entre grandes potências, onde as mais poderosas perseguem seus interesses, usando a integração econômica como forma de coerção”.

Ou seja, equiparar o império violador sistemático de direitos humanos dos Estados Unidos, com 902 bases militares espalhadas pelo mundo, com uma potência econômica não agressora, e cada vez mais política, do Sul Global, como a China.

Entender a visita de Carney aqui a Pequim como um sinal de mudança significativa me parece um erro. No discurso aos milionários em Davos, ele disse:

“Em relação à IA, estamos cooperando com democracias que compartilham nossos ideais para garantir que, no fim das contas, não sejamos forçados a escolher entre hegemonia e hiperescaladores”.

No lugar de condenar explicitamente quem verdadeiramente está violando e ameaçando violar ainda mais as regras internacionais, o Canadá prefere diluir a crítica para evidentemente incluir a China no problema.

Talvez o principal valor que tem o discurso do primeiro-ministro canadense é de ser um sinal evidente da decadência dos Estados Unidos.

Editado por: Nathallia Fonseca