Cientistas em diferentes partes do mundo já alertaram para os efeitos da passagem do El Niño, fenômeno natural provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que interfere no volume de chuvas e nas temperaturas de vários países, entre eles o Brasil. 

No início deste mês, a Organização das Nações Unidas reforçou o alerta com declarações do secretário-geral António Guterres que afirmou que: “o El Niño está ganhando proporções gigantescas diante dos nossos olhos. A ciência não deixa margem para dúvidas, o planeta está entrando em águas desconhecidas, e essas águas estão ficando mais quentes”. Segundo dados divulgados pela Agência Meteorológica Mundial, o evento poderá ser o mais forte dos últimos 70 anos. 

Com a duração dos efeitos prevista para até pelo menos fevereiro de 2027, as principais consequências para o Brasil são: a seca na região Norte, chuvas intensas no Sul e ondas de calor na região Sudeste. Apesar desses efeitos do fenômeno já serem conhecidos e vividos pela população, o assunto ainda segue cercado de desconhecimento, principalmente, porque o tema das mudanças climáticas ainda merece ser muito mais debatido na sociedade. 

Uma pesquisa da empresa Tereos em parceria com o Datafolha, no ano passado, apontou que 34% dos brasileiros afirmam não saber o que são as mudanças climáticas. Apesar disso, três em cada quatro responderam que as cidades não estão preparadas para o enfrentamento dos eventos climáticos extremos.

Com esse diagnóstico, o Projeto Brief, que promove campanhas de comunicação política, desenvolveu o Guia de Comunicação do Clima. A publicação é uma em parceria com o Instituto DX e com o Observatório do Clima, e o material integra a Rede de Parceiros pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima (RPIIC) – iniciativa do governo federal, sociedade civil e academia, vinculada à Iniciativa global liderada pela ONU e pela UNESCO. 

Após as enchentes do Rio Grande do Sul, a equipe do Brief identificou um grande volume de informações falsas circulando nas redes sociais. “O guia nasceu da tentativa de responder algo bem concreto, que é comunicar uma crise que as pessoas já vivem, mas com a qual ainda não se conectam”, afirma Carol Luck, coordenadora do Brief.  

De acordo com a especialista em comportamento digital, o mesmo ocorreu nas enchentes de Juiz de Fora, em Minas Gerais, quando, além da circulação de mensagens falsas, também circularam uma série de vídeos criados por Inteligência Artificial com imagens impactantes de cenários de destruição que bateram milhões de visualizações. 

Para Carol Luck, “a exaustão tende a afastar as pessoas em vez de mobilizá-las. Mostrar que agir ainda faz sentido devolve às pessoas a sensação de que o futuro segue em disputa”, explica. 

O guia

Segundo o Projeto Brief, o Guia de Comunicação do Clima se trata de um roteiro narrativo comum para organizações e comunicadores promoverem o diálogo com a população sobre o assunto com um mapa de mensagens e formatos possíveis para a ampliação do alcance da comunicação e um protocolo mínimo de respostas rápidas. 

Dentre o público-alvo, estão: comunicadores populares, influenciadores, coletivos locais e mídias independentes; pesquisadores e porta-vozes institucionais que precisam traduzir achados em linguagem pública; gestores públicos e organizações da sociedade civil que atuam em políticas de adaptação, mitigação e justiça climática.