O histórico discurso de Dilma Rousseff, logo após sofrer um golpe parlamentar em 31 de agosto de 2016, foi manchete nos principais jornais do mundo.
Hoje, uma década depois, também chama atenção por ter previsto o que aconteceria no país nos anos seguintes.
Parte da repercussão, em especial na imprensa russa, concentrou-se na escolha da ex-presidenta pelos versos de Vladimir Maiakóvski para encerrar o pronunciamento.
Ao final dos 11 minutos de discurso, Dilma compartilhou o seguinte trecho de “E então, que quereis?”:
“Não estamos alegres, é certo
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las
Rompê-las ao meio
Cortando-as como uma quilha corta.”
O uso dos versos pode ser compreendido como uma demonstração de resistência.
A escolha antecipava o “mar agitado” que marcaria o país nos anos seguintes, sem abandonar a perspectiva de tempos melhores.
No contexto original, Maiakóvski, conhecido como o Poeta da Revolução, evoca, de forma otimista e metafórica, a resiliência política e a coragem necessárias para enfrentar as adversidades da história.
O poeta, que escreveu o poema em 1927, dizia trabalhar para a propagação da Revolução Russa, mas relutava em se associar integralmente ao regime de Josef Stalin.
Ao mesmo tempo, criticava a burocratização e enfrentava tensões com estruturas culturais oficiais soviéticas.
Muitos enxergam o poema como uma crítica indireta aos rumos que o país tomava, com o endurecimento da censura e da perseguição política, ao mesmo tempo que apontava para um futuro melhor.
Maiakóvski morreu em 1930, em episódio oficialmente registrado como suicídio.
As interpretações sobre sua morte envolvem conflitos pessoais e as pressões políticas e culturais daquele período.
Maiakóvski é considerado um dos poetas mais influentes do século 20 e uma das figuras centrais do futurismo russo, movimento artístico que rejeitava as tradições conservadoras e morais de seus antecessores.
Legado
Seus versos, no entanto, sobreviveram à passagem do tempo e passaram a ganhar novos contornos políticos e culturais.
No Brasil, antes de Dilma, o mesmo poema foi musicado e gravado por João Bosco em 1989, também em um momento bastante turbulento da democracia brasileira.
Naquele momento, o país realizava a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar e dava os primeiros passos sob a nova Constituição Federal.
Os versos do poema, tanto na música de Bosco quanto no discurso de Dilma, apontavam para um país capaz de atravessar mares turbulentos e romper as ameaças como uma “quilha que corta as ondas”.
Leia o poema na íntegra
E então, que quereis?
Vladimir Maiakóvski
Tradução de E. Carrera Guerra
Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
