Nota editorial – Nesta e nas próximas páginas, o/a leitor/a deste boletim tomará contato com opiniões e informações relativas a diferentes regiões do mundo. O primeiro desses textos, dedicado à América Latina e Caribe, foi escrito por Fábio Al Khouri como contribuição à reunião que o Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo realizará às vésperas do 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores. Os demais textos, sobre Europa, Ásia, África, Oriente Médio e Estados Unidos, são produto da elaboração coletiva realizada por grupos de conjuntura que a Fundação Perseu Abramo constituiu como parte da cooperação que a FPA mantém através de seu Núcleo de Cooperação Internacional com a Secretaria de Relações Internacionais do PT. Cada um desses grupos reúne-se mensalmente para debater a conjuntura de sua respectiva região e para propor iniciativas práticas à direção do Partido na área internacional. Os GTs são compostos por militantes do PT com experiência na área. Integrantes dos Grupos de Conjuntura Internacional da Fundação Perseu Abramo distribuidos entre os Grupos África, América Latina e Caribe, Ásia, BRICS e outras instituições, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio: Acácio Almeida; Ana Tereza Marra; Ananda Méndez Inácio; Beluce Bellucci; Breno Altman; Demétrio Toledo; Douglas Ferreira; Emilio Font; Fábio El-Khouri; Fernando Lopes; Flavio Aguiar; Giancarlo Summa; Giorgio Romano Schutle; Jana Silverman; Leandro Correa; Matilde Ribeiro; Mila Frati; Misiara de Oliveira; Mojana Vargas; Monica Bruckmann; Monica Valente; Paulo Visentini; Pedro Luís Martins Prola; Pedro Silva Barros; Romenio Pereira; Sebastião Velasco; Silvia Portela de Castro; Ualid Rabah; Valter Pomar. Interessados/as em tomar contato com o trabalho dos grupos podem procurar a sua composição e o seu funcionamento no site da FPA.

O mundo vive um período marcado por grandes incertezas e enormes perigos. Decadente, desmoralizado e sem a clareza estratégica que marcou sua ascensão à condição de Estado hegemônico mundial, o império estadunidense recorrerá a todos os meios de que dispõe — diplomáticos, econômicos, tecnológicos, militares, e, se preciso, nucleares — para restabelecer sua condição de potência hegemônica. O mundo que surgirá desse processo em nada se parecerá com o mundo no qual a imensa maioria das pessoas hoje vivas nasceram, marcado pela chamada ordem internacional liberal. Nada será (e muita coisa já não é) como antes.

A renovada atenção que os EUA vêm dedicando à América Latina deve ser entendida no quadro mais geral das transformações causadas no sistema internacional pela ascensão da China e a consequente alteração no balanço de poder mundial. A América Latina passou à condição de campo de disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

O “pivô para a América Latina” que os EUA realizaram no começo da década de 2010 nada mais foi do que o desdobramento regional do “pivô para a Ásia” que a política externa dos EUA começava a realizar na mesma época. Os eventos da política internacional dos últimos 15 anos devem ser vistos no quadro da ascensão da China e da tentativa estadunidense de se contrapor à China e de reafirmar seu poder global.

Se, em grande parte dos países da América Latina, a estratégia dos EUA de se contrapor politicamente à influência da China foi bem-sucedida ao promover a onda de golpes contra os governos de esquerda da região, do ponto de vista econômico, os EUA não só não foram capazes de conter o peso da China como seguiram perdendo espaço nas relações econômicas na região.

É nesse quadro que se deve analisar a conjuntura internacional dos primeiros três meses de 2026. Longe de ser uma ação isolada e impensada, o ataque à Venezuela foi passo preparatório da guerra ilegal declarada unilateralmente pelos EUA e por Israel contra a República Islâmica do Irã, que, por sua vez, é parte do movimento de contenção e cerco militar dos EUA contra a China.

Iniciada durante negociações sobre o programa nuclear iraniano, a guerra de Israel e EUA contra o Irã extravasa os limites da região e revela-se etapa fundamental da estratégia estadunidense de contenção e cerco à China. De fato, a posição geográfica do Irã é das mais importantes para conectar, através do corredor terrestre da Iniciativa Cinturão e Rota, a China ao oeste da Ásia, ao Oriente Médio e à Europa. Sem atravessar o Irã, o corredor terrestre perde grande parte de sua significância estratégica para a China, uma vez que impede um acesso seguro e regular ao petróleo e gás do Irã e do Oriente Médio e aos mercados europeus.

Os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã no dia 28 de fevereiro de 2026 deveriam servir como grand finale das campanhas militares imperialistas no Oriente Médio e como capítulo inicial de uma nova rodada de avanços dos EUA no sentido de conter e cercar a China. Mas, por ora, o Irã mostra a mais aguerrida disposição de resistir e contra-atacar EUA, Israel e as monarquias do Golfo que apoiam a agressão ao Irã. Além de manter a pressão militar sobre os EUA, Israel e as monarquias do Golfo com bombardeios, o Irã está recorrendo à redução forçada da oferta de petróleo e gás como armas cujos efeitos são verdadeiramente globais e potencialmente destrutivos para a economia mundial.

A China é uma das principais interessadas no sucesso iraniano na guerra — sucesso que deve ser entendido como a sobrevivência da República Islâmica do Irã. A eventual queda da República Islâmica do Irã e sua substituição por um regime vassalo dos EUA e de Israel teria duas consequências graves para a China: as importações de petróleo e gás do Irã pela China passariam ao controle dos EUA; e o corredor terrestre da Iniciativa Cinturão e Rota estaria irremediavelmente bloqueado, estendendo-se da China até a Ásia Central, região nem de perto tão importante geopoliticamente para a China quanto o Oriente Médio e a Europa por causa do petróleo e gás daquela região e dos mercados desta.

Na eventualidade da derrota da República Islâmica do Irã e sua substituição por um governo vassalo diretamente controlado pelos EUA, restaria à China o corredor marítimo da Iniciativa Cinturão e Rota. Este, no entanto, apresenta ainda mais dificuldades geopolíticas do que o corredor terrestre: além do maior custo e menor eficiência do transporte marítimo em relação a modais terrestres e infraestruturas de transporte de petróleo e gás ligando a China ao Oriente Médio e à Europa, o transporte marítimo da China em direção ao oeste é altamente vulnerável ao gargalo representado pelo Estreito de Malaca, que conecta o Mar do Sul da China e o Pacífico ao Oceano Índico, que pode ser facilmente fechado à passagem de navios.

Por causa dos estreitos e profundos interesses comerciais e políticos que unem o Brasil e a América do Sul à China, qualquer interrupção ou mesmo redução do comércio da região à China terá efeitos muito amplos e debilitantes sobre os países da região.

Pelas razões acima expostas, é preciso que o Partido dos Trabalhadores tome uma série de iniciativas no sentido de consolidar uma estratégia de política internacional que permita ao Partido e ao Brasil conhecer e navegar as águas da política internacional em face das importantes mudanças em curso.

O Partido dos Trabalhadores precisa aprofundar seu conhecimento e suas relações com a Ásia de modo geral. Além da China, com quem o Partido tem sólidas relações e bastante conhecimento acumulado, deve ser dada prioridade à produção de conhecimento e ao estabelecimento de relações com países do sul, do leste e do sudeste da Ásia, entre eles Índia, Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Malásia e Indonésia. Para isso, o Partido deve realizar seminários regulares sobre a política internacional da Ásia e organizar missões para esses países.

O Partido dos Trabalhadores também deve dedicar maior atenção à Ásia Ocidental, com ênfase no Oriente Médio e na região do Cáucaso, aprofundando o conhecimento sobre a região quando houver pouco conhecimento sistemático acumulado, problema muito maior no caso do Cáucaso do que do Oriente Médio.

Além dessas regiões, o Partido dos Trabalhadores deve se dedicar a conhecer com mais profundidade a Ásia Central, uma vez que os Estados Unidos estão executando uma ampla campanha militar global em direção ao leste (Ucrânia, Oriente Médio, Irã), tornando muito possível que as disputas geopolíticas continuem avançando para a Ásia Central numa próxima etapa da estratégia de contenção e cerco à China pelos EUA.

O Partido dos Trabalhadores deve compreender que o futuro do Brasil dependerá de nos anteciparmos ao reordenamento geopolítico em curso e de dispormos de uma rota alternativa aos postos do litoral Atlântico para mantermos nosso comércio com a China em especial e com a Ásia de modo geral. Para isso, nada é mais importante do que concluir a rota bioceânica rodoviária e dar início à construção da rota bioceânica ferroviária, que permitirão o escoamento dos produtos brasileiros por portos do Pacífico. É de fundamental importância que o Brasil retome seu papel de líder regional e de fonte de financiamento da infraestrutura que manterá o país conectado ao Pacífico e assim à Ásia.

A política externa do Partido dos Trabalhadores para o período 2027/2030 deverá, consequentemente, acompanhar o deslocamento do centro dinâmico da economia global e das grandes questões geopolíticas em direção à Ásia e ao Índico-Pacífico, o mesmo valendo para a política externa brasileira.

A retomada e o fortalecimento das iniciativas que envolvem países do Sul Global precisam se tornar prioridade da política externa brasileira para o período 2027/2030.

Em relação ao programa de política internacional do Partido dos Trabalhadores, será preciso retomar a prática de produzir conhecimento e refletir sobre as múltiplas e variadas trajetórias de desenvolvimento de países pouco ou não alinhados aos EUA para disseminar suas experiências para os quadros do Partido.

O Partido dos Trabalhadores deve compreender que, nos próximos anos, as tensões que vêm se acumulando no sistema internacional no último quarto de século se tornarão mais, e não menos, agudas. O recurso à intervenção militar e à guerra será cada vez mais frequente e nenhum país fraco estará a salvo de intervenções estrangeiras dos mais variados tipos: ataques cibernéticos, guerras híbridas, sanções, sequestro e assassinato de líderes políticos, ataques militares e, no limite, ocupação militar.

O Brasil deve atualizar sua doutrina de defesa e buscar conquistar autonomia no desenvolvimento e produção de equipamentos de defesa capazes de sustentar uma guerra assimétrica contra potências hemisféricas ou extra-hemisféricas mais avançadas tecnológica e militarmente.

O Partido dos Trabalhadores deve compreender que não é possível desenvolver as forças produtivas do Brasil sem avanços significativos na ciência, tecnologia e inovação (CTI). Para tanto, além do desenvolvimento interno da CTI, o Brasil precisará estabelecer mecanismos de transferência e absorção de conhecimento de países mais avançados em CTI por meio da identificação de tecnologias maduras ou trajetórias tecnológicas mais promissoras. A escolha de parceiros internacionais para estabelecer colaborações em CTI, contudo, é antes de tudo uma decisão político-estratégica que deve levar em conta o contexto geopolítico atual e os possíveis cenários futuros de inserção internacional do Brasil. Para realizar essa tarefa, o Partido deve sistematizar conhecimentos sobre o panorama da CTI global recomendando aos grupos regionais de análise de conjuntura da SRI que incorporem a suas tarefas a acompanhamento da CTI das respectivas regiões. Além disso, o Partido deve organizar seminários internos sobre CTI e missões internacionais de diálogo e prospecção na área de CTI envolvendo dirigentes e cientistas convidados.

Grupo de Trabalho Ásia