Preso desde setembro sob suspeita de envolvimento em fraudes relacionadas ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o empresário Maurício Camisotti assinou acordo de delação premiada com a Polícia Federal em que admite a existência de irregularidades nos descontos feitos em aposentadorias. A defesa encaminhou o material ao gabinete do ministro André Mendonça, do STF, responsável pela homologação. Há expectativa de pedido de prisão domiciliar após o acordo.

O empresário Maurício Camisotti é apontado como um dos principais operadores do esquema investigado na Operação Sem Desconto, na mesma fase em que foi detido Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Caso seja confirmada, esta será a primeira delação da investigação, negociada com a PF. O acordo ainda deve passar pela PGR. 

Na ocasião de sua prisão, em setembro de 2025, foram apreendidos esculturas, quadros, arma e carros de luxo. Sua defesa declarou que ele era inocente. De acordo com o G1, o advogado de Camisotti é o mesmo de Jair Bolsonaro. O empresário não chegou a ser ouvido pela CPMI do INSS e seu filho, Paulo Camisotti, conseguiu um habeas corpus para manter-se em silêncio durante a oitiva. 

Saques milionários

Movimentações financeiras das empresas ligadas a Camisotti teriam recebido transferências da Ambec (Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos), e o INSS repassou quase R$ 400 milhões à entidade entre 2023 e 2025. Segundo a Folha, o empresário teria realizado 11 saques de R$ 7,2 milhões em dinheiro vivo; entre 2018 e 2025, houve 17 saques, incluindo um de R$ 3 milhões, conforme relatório do Coaf elaborado a pedido da CPMI sobre as fraudes no INSS.

Conexões políticas 

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), membro da CPMI do INSS, apresentou, em fevereiro, denúncias sobre o esquema “Bolsomaster”, um sistema que teria estruturado desvios bilionários de recursos dos aposentados e de fundos de pensão durante a gestão de Jair Bolsonaro.

As investigações realizadas pelos deputados do PT demonstraram que os Acordos de Cooperação Técnica (ACT) firmados entre 2020 e 2021 permitiriam descontos na folha de pagamento de aposentados. A margem teria sido ampliada por meio de medidas provisórias às vésperas das eleições de 2022. Ficou demonstrado que o esquema teria conexões com o Banco Master, com financiamento eleitoral e com privatizações em São Paulo. 

Relatório da Maioria

Relatório da Maioria é entregue à Polícia Federal, em Brasília. Foto: Gabriel Paiva

Após 6 meses de trabalho, a CPMI chegou ao final com a rejeição do relatório final. A base do governo elaborou um documento que detalha o esquema, chamado de Relatório da Maioria (leia aqui), entregue nesta terça-feira, 7, à órgãos fiscalizadores e de controle, reforça a necessidade de aprofundar as investigações sobre um dos maiores esquemas já registrados contra aposentados, que se intensificaram durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL). De acordo com o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o foco agora é saber onde foi parar o dinheiro roubado.

Articulação da fraude

A fraude operava através de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS. Associações de fachada utilizavam empresas de call center e dados vazados para realizar descontos não autorizados diretamente na folha de pagamento dos segurados. O dinheiro era, então, lavado em empresas terceirizadas que não prestavam serviços reais.

O Relatório da Maioria identifica oito grupos principais de empresários e “laranjas”, além de um nono núcleo de articulação política:

1. CONAFER (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil): associação comandada por Carlos Roberto Ferreira Lopes, que funcionava como um grupo empresarial familiar e movimentou R$ 806 milhões em descontos não autorizados até março de 2025;

2. CBPA (Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e da Aquicultura): presidida por Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, a entidade saltou de um para 340 mil filiados em dois anos, arrecadando quase R$ 222 milhões;

3. Eixo Maurício Camisotti: operador central que utilizava associações (como AMBEC, CEBAP e UNSBRAS) para contratar empresas de seu próprio grupo, arrecadando aproximadamente R$ 845 milhões;

4. Eixo “Golden Boys” (Américo Monte Jr, Anderson Cordeiro, Felipe Gomes e Igor Delecrode): grupo de jovens que assumiu entidades que mudaram seus estatutos para representar aposentados, movimentando mais de R$715 milhões;

5. Eixo Cecília Mota: advogada e principal operadora financeira de diversas entidades no Ceará (como AAPB, AAPEN, CAAP e CENAP), cujos descontos somaram cerca de R$ 750 milhões;

6. Eixo Alexsandro Prado (“Lequinho”): empresário que controlava as associações UNIVERSO, ACOLHER e ASBRAPI em Sergipe, arrecadando valor próximo a R$ 500 milhões através de filiações falsas;

7. Eixo Domingos Sávio de Castro: operador em Belo Horizonte que utilizava empresas de call center e consultoria para ocultar a origem de R$435 milhões arrecadados por entidades como UNASPUB e ABAPEN.

8. Operador Antônio Carlos Camilo Antunes (“Careca do INSS”): empresário que participava de diferentes núcleos, atuando na recepção e repasse de recursos de várias entidades para servidores públicos;

9. Núcleo de agentes públicos e articulação política: grupo construído com base na origem institucional de seus agentes (servidores e diretores do INSS) e nas articulações políticas que sustentavam o esquema.

Para a bancada do PT, o conjunto de provas demonstra que o esquema não apenas existiu, mas foi viabilizado por decisões políticas e administrativas que fragilizaram os mecanismos de controle do INSS a partir de 2019.