Especulado como herdeiro do legado político de seu pai, o senador Flávio Bolsonaro confirmou sua pré-candidatura à Presidência da República em dezembro de 2025, em meio ao racha na extrema direita, que ainda demonstra resistência quanto à sua capacidade de liderar o campo nas eleições.

Já no mês seguinte, em janeiro, o “01”, como é conhecido nas redes por ser o primogênito de Jair Bolsonaro, reforçou a percepção de fragilidade política. Conforme noticiado pela imprensa, ele e sua equipe solicitaram reembolso de R$ 13,6 mil ao Senado por despesas relacionadas a um evento de pré-campanha com o mercado financeiro.

A viagem, realizada entre os dias 11 e 12 de dezembro, foi custeada com recursos da cota parlamentar, que devem ser utilizados exclusivamente para atividades vinculadas ao mandato. Dados públicos do Senado mostram que Flávio adquiriu passagens entre Brasília e Congonhas para si e para o assessor Fernando Nascimento Pessoa.

Em nota, o senador afirmou que houve um “equívoco” no pedido de ressarcimento e que o erro teria sido corrigido. O histórico, no entanto, relativiza essa versão. Em outubro de 2020, ele solicitou reembolso para despesas em Fernando de Noronha durante o feriado de Finados. Após repercussão negativa, a equipe também alegou “equívoco” e recuou do pedido.

A fake news dos celulares

Em fevereiro, Flávio voltou a gerar repercussão ao demonstrar desconhecimento sobre a própria base industrial do país que pretende governar. Em entrevista, ao criticar políticas de proteção à indústria nacional, afirmou que o Brasil não possui produção de smartphones.

A declaração provocou reação imediata de setores industriais e autoridades. Dados do Polo Industrial de Manaus indicam que cerca de 11 milhões de aparelhos foram produzidos no país em 2025, com faturamento superior a R$ 14 bilhões.

A produção envolve empresas globais como Samsung e Motorola, além da expansão recente de marcas chinesas. A Realme, por exemplo, iniciou produção local em agosto de 2025. O setor é sustentado por incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus e responde pela maior parte dos aparelhos comercializados no país.

Autoridades do Amazonas classificaram a fala como desinformação. O secretário de Desenvolvimento do estado, Serafim Corrêa, destacou a geração de empregos e a relevância do polo para a economia regional.

Funk do 01

A tentativa de reposicionar sua imagem também expôs contradições. Após acenos à ciência, ao Carnaval e ao público LGBT, Flávio passou a incorporar o funk em sua estratégia de campanha, com o lançamento de um jingle no gênero.

A mudança surpreendeu aliados e analistas, sobretudo pelo histórico do grupo político em relação à cultura periférica. O deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, já classificou manifestações culturais da periferia de forma depreciativa em suas redes sociais.

Apesar disso, Flávio adotou o novo discurso e passou a participar de eventos ao som do jingle. Diante da reação negativa, chegou a consultar aliados sobre a recepção da iniciativa. O deputado Gustavo Gayer (PL) afirmou que o senador parecia “um orangotango no palco”. Segundo o jornal O Globo, a equipe de campanha avalia retirar a música e a coreografia por transmitirem imaturidade.

“Aluga-se o Brasil”

Entre os episódios mais sensíveis da pré-campanha está a declaração feita durante a CPAC, no Texas, evento da direita internacional. Na ocasião, Flávio apresentou o Brasil como alternativa estratégica para que os Estados Unidos reduzam sua dependência da China no setor de minerais críticos.

O senador destacou as reservas brasileiras de terras raras como um ativo para a superioridade tecnológica e militar norte-americana, posicionando-se como parceiro político e comercial.

A fala integra a estratégia de aproximação com a direita conservadora dos Estados Unidos. Ao defender a exploração desses recursos, Flávio busca atrair investimentos e reforçar sua imagem internacional.

No Brasil, a declaração gerou reação imediata. Parlamentares de oposição classificaram a postura como “entreguista” e questionaram possíveis impactos sobre a soberania nacional. O caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, que deverá analisar se a declaração fere interesses estratégicos do país.