Cercado por Mali, Níger, Benim, Togo, Gana e Costa do Marfim, um pequeno país africano de 277 mil metros quadrados, área semelhante ao estado brasileiro do Tocantis, tem se tornado nos últimos anos a principal vitrine política do continente: Burquina Fasso (ou Burkina Faso).
Isso porque um jovem capitão do exército, de 38 anos, resolveu enfrentar os interesses do Imperialismo e defender a qualquer custo a soberania nacional. O nome dele é Ibrahim Traoré, um combatente renomado e que acumulava, antes de chegar ao cargo máximo do país em 2022, currículo glorioso em diversas batalhas. Era tido por muitos como herói de guerra e não demorou para que se tornasse também um porta-voz das Forças Armadas nacionais.
A entrada na política aconteceu como consequência direta da instabilidade das instituições locais. Fundado em 1960 após revolução que expulsou os colonizadores franceses, o país só foi ter a sua primeira consituição federal nos 1990. De lá para cá, foi administrado de maneira interina por diversas vezes, até o Golpe de Estado de 2022, quando os militares resolveram colocar justamente Traoré no comando.
Para surpresa de ninguém, sua gestão já começou com uma proposta clara e inegociável: conter a violência jihadista (ideologia radical islâmica usada por grupos extremistas para expandir territórios) e não deixar que o Ocidente tome de assalto as riquezas do país.
A operação que colocou Traoré no comando aconteceu em 30 de setembro daquele ano, quando ainda mantinha a patente de Capitão. A operação foi realizada com o apoio da unidade “Cobra”, da qual era uma lenda, e logo após a insurreição ele foi escolhido como o novo chefe do Movimento Patriótico para Salvaguarda e Restauração. Dias depois, assumiu o cargo de Presidente Interino como “Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas”.
Medidas nacionalistas e populares
Embora tenha prometido realizar eleições diretas em 2024 e ainda sofra com as tentativas de golpe de grupos rebeldes, o tempo em que está à frente da Presidência de Burkina Faso tem conquistado o apoio massivo da população.
Razões não faltam para credibilizá-lo como o maior líder africano do momento – a ponto de ser citado por jogadores como Memphis Depay (holandês filho de pai ganês) como uma grande referência fora dos gramados.
Sua primeira medida como presidente foi a ruptura com a França e a suspensão de acordos de cooperação que estavam vigentes e eram maléficos para o país. A postura nacionalista também resultou na nacionalização do Ouro, quando Burkina Faso passou a assumir o controle da indústria do minério, e tornando estatais diversas empresas estrangeiras.
A medida gerou crescimento econômico imediato, com o PIB saltando de 3% em 2023 para 4,9% em 2024, com influência direta da nacionalização, da expansão agrícola e da melhoria na segurança pública. A parceria com a Rússia é outra promessa que tem sido apontada como fator da recuperação do país.
Che Guevara africano
Os dicursos de Traoré, considerado discreto na vida privada, é outro fator que tem alavancado a sua popularidade e o colocado no centro do debate não só na África como em várias partes do mundo.
Para alguns especialistas, a referência a Ernesto Che Guevara, icônico revolucionário e maior ícone pop da esquerda de todos os tempos, não é por acaso.
“Como Che Guevara era um símbolo para a América Latina inteira, ele é um símbolo para aquela região. Ele se assenta em uma legitimidade popular grande dentro do país porque tem feito reformas e distribuído a renda da exploração mineral. Os militares reconhecem nele uma liderança importante”, avaliou o analista geopolítico Hugo Albuquerque em entrevista à Agência Brasil.
Para especialistas sobre África, Ibrahim tem resgatado a imagem de Che de maneira prática ao promover o pan-africanismo, corrente política que prega a união da África contra a exploração estrangeira. Em seus discursos, Traoré sempre diz que irá “lutar pela pátria para não ser mais escravo”. Se depender dele, a África parece um novo motivo para sonhar.
Raio X de Burkina Faso
População: Aproximadamente 24,1 milhões de habitantes (estimativa 2026).
Nome: “Burkina Faso” significa “Terra dos Homens Íntegros” nas línguas locais Morê e Dioula.
Etnias e Línguas: O grupo étnico majoritário é o Mossi. Existem mais de 70 línguas faladas, sendo o Mooré, Dioula, Fula e Bissa as mais importantes.
Expectativa de Vida: Teve uma melhoria, passando de 51,9 anos em 2000 para cerca de 62,3 anos em 2021.
Capital: Uagadugu (Ouagadougou), o centro político e econômico.
