O curso Projeto Nacional de Desenvolvimento foi concebido como um espaço de formação e debate voltado a reconstruir, com rigor e perspectiva histórica, a ideia de desenvolvimento como escolha política. Um dos maiores diferenciais do curso é justamente a articulação entre economia, política, sociedade e geopolítica, permitindo uma análise profunda e abrangente dos desafios nacionais. A perspectiva de “projeto” desafia as análises habituais, muitas vezes restritas ao curto prazo e à fragmentação entre planos, políticas e programas, propondo uma abordagem integrada e conectada à totalidade dos processos sociais.
Partimos do entendimento de que não existe uma trajetória natural ou pré-definida para um país. Há projetos em disputa, interesses em conflito e alternativas concretas de organização econômica e social. Ao reunir bases teóricas e uma leitura crítica das experiências brasileira e latino-americana, o curso oferece instrumentos para interpretar os dilemas atuais, como desigualdade, desindustrialização, precarização do trabalho e crise ambiental, situando-os em um debate estratégico sobre soberania, bem-estar, mudança produtiva e transformação social.
Um dos eixos centrais do projeto de desenvolvimento proposto é o papel do Estado como coordenador de capacidades produtivas, indutor de investimento, planejador de longo prazo e garantidor de direitos. Diferenciando-se de abordagens que reduzem o Estado a um mero regulador ou gestor fiscal, o curso discute políticas públicas e instituições estruturantes do desenvolvimento: política industrial e tecnológica, infraestrutura, financiamento, compras públicas, transição energética e a construção de sistemas universais de proteção social. A proposta é compreender como instrumentos estatais podem organizar mercados, orientar a inovação e elevar a complexidade produtiva, articulando crescimento econômico, distribuição de renda e redução de vulnerabilidades.
Outro pilar fundamental é a mobilização social, condição para sustentar e aprofundar qualquer projeto nacional. O desenvolvimento não se realiza apenas por desenho tecnocrático. Ele depende de coalizões políticas, participação popular, organização sindical e comunitária, e de uma disputa cultural sobre as prioridades públicas. Assim, o curso promove a reflexão sobre a formação de maiorias sociais em torno de agendas de transformação, os obstáculos impostos pelas estruturas de poder e o papel da democratização do debate econômico para ampliar a participação pública, desde os territórios até as instituições e a representação política.
Ademais, é essencial que o debate sobre a construção de um projeto nacional de desenvolvimento avalie, com precisão, o contexto geopolítico contemporâneo, marcado pela crise da ordem internacional, conflitos comerciais e tecnológicos, financeirização e reconfiguração das cadeias produtivas globais. Esse olhar permite compreender como soberania, política externa, defesa de recursos estratégicos e integração regional compõem o cenário do desenvolvimento.
Ao promover uma conexão estruturada entre economia, política, Estado, sociedade e geopolítica, o curso se destaca por oferecer uma abordagem verdadeiramente integrada, que é seu principal diferencial. Os participantes terão acesso a uma visão sistêmica e estratégica sobre os desafios do desenvolvimento nacional, ampliando sua capacidade de análise e intervenção. Assim, o curso contribui para qualificar a disputa de projetos que marcará as eleições de 2026, fornecendo linguagem, argumentos e referências para a construção coletiva de um país socialmente justo, ambientalmente responsável e soberano.
Aula Inaugural: Zé Dirceu e Juliane Furno
Aulas
Aula 1: O que é Projeto Nacional de Desenvolvimento
Ementa: Conceito de projeto; diferenciação de programa e política. Compromisso com a derrota da ortodoxia e do rentismo; superação do curto prazismo eleitoral. Relação entre Estado e Mercado. Compromissos: democracia, participação, soberania e meio ambiente.
Aula 2: O projeto nacional de desenvolvimento do século XX e a “construção interrompida”
Ementa: Avaliar os avanços e os limites do padrão de desenvolvimento e industrialização da economia brasileira no século XX. Compreender a correlação de forças nacional e internacional que possibilitou essa experiência histórica. Debater o modelo de industrialização dependente e periférico. Compreender a crise dos anos 1980 e o neoliberalismo.
Aula 3: A experiência de construção do socialismo com características chinesas e a economia política do Leste Asiático
Ementa: Apresentar sumariamente o que foi a revolução chinesa (imperialismo japonês, partidos políticos, questão agrária e participação social). Debater a revolução cultural; a experiência de reforma agrária; as reformas de abertura na década de 1979 e a relação entre Estado e Mercado que marcam essa experiência concreta. Sistematizar pontos centrais das experiências do Leste Asiático, em especial a Coréia do Sul e a sua trajetória de desenvolvimento a partir do Pós Segunda Guerra Mundial.
Aula 4: Limites e possibilidade para o projeto nacional de desenvolvimento na nova era global
Ementa: Avaliar as características principais da nova reconfiguração global. A ofensiva das extremas direitas e crise do neoliberalismo tradicionais; a ofensiva sobre o multilateralismo e as instituições globais, a crise do imperialismo norte americano e seus impactos; guerra comercial, tarifária e o retorno à política industrial. A China, os BRICS e as novas configurações para o desenvolvimento no Sul Global. A nova Estratégia de Segurança Nacional e a América Latina. Os caminhos da multipolaridade e as oportunidades que se abrem ao Brasil.
Aula 5: Estado, Planejamento e capacidades estatais
Ementa: Debater o Estado como coordenador do desenvolvimento: planejamento, investimento, regulação e garantia de direitos. Discutir capacidades estatais, instrumentos e limites impostos por coalizões políticas e interesses privados. Apresentar o movimento de avanço do neoliberalismo sob as capacidades estatais, restringindo a capacidade do Estado de operar no planejamento econômico e social. Abordar orçamento, política fiscal e disputa sobre prioridades públicas. Apresentar propostas concretas não somente para retomar o planejamento, mas para ampliar as funções e capacidades estatais.
Aula 6: Infraestrutura, território e integração produtiva
Ementa: Compreender infraestrutura como política estruturante: logística, energia, saneamento, mobilidade, conectividade e habitação. Debater planejamento territorial e desigualdades regionais, articulando cidades, interior e fronteiras produtivas. Examinar como infraestrutura pode criar encadeamentos, reduzir custos sistêmicos e ampliar direitos. Integrar dimensão territorial com estratégia industrial, social e urbana.
Aula 7: Trabalho, renda e proteção social como estratégia de desenvolvimento
Ementa: Discutir a centralidade do trabalho, do salário e da formalização como motores de demanda, produtividade e coesão social. Abordar políticas sociais universais, seguridade e serviços públicos como investimento social e não “custo”. Examinar a relação entre distribuição de renda, crescimento e estabilidade política. Debater desafios do mundo do trabalho (plataformas, precarização, desemprego estrutural) e políticas de transição. Situar o pacto social como base de um projeto popular de desenvolvimento.
Aula 8: Financiamento do desenvolvimento: juros, câmbio e crédito
Ementa: Analisar como a macroeconomia estrutura (ou bloqueia) um projeto nacional: juros, câmbio, inflação, dívida e política monetária. Debater financeirização, rentismo e seus impactos sobre investimento e indústria. Examinar o papel de bancos públicos, fundos, agências, crédito direcionado e planejamento financeiro de longo prazo. Discutir restrições externas e vulnerabilidade cambial na periferia. Debater a questão fiscal apontar alternativas desenvolvimentistas de coordenação macrofinanceira.
Aula 9: Política industrial e tecnológica no século XXI: mudança produtiva, produtividade e complexidade
Ementa: Apresentar instrumentos contemporâneos de política industrial e inovação: crédito, compras públicas, conteúdo local, P&D, missões e regulação. Discutir soberania digital, semicondutores, energia e minerais críticos como eixos de disputa. Examinar experiências recentes (Brasil e mundo) e seus resultados, aprendizados e riscos. Debater como evitar captura e como orientar políticas para emprego, produtividade e transição ecológica. Apontar os eixos de uma política industrial que garante direitos, soberania e desenvolvimento.
Aula 10: Revolução Educacional: Educação e cultura: formação e disputa de projeto nacional
Ementa: Discutir educação e cultura como dimensões estratégicas do desenvolvimento, articulando formação humana, cidadania e soberania intelectual. Analisar a educação como política pública estruturante (do acesso à permanência), conectando escola, universidade, ciência e inovação a um projeto nacional. Debater a cultura como campo de produção simbólica e econômica, central na construção de identidades, coesão social e na disputa de valores no espaço público. Examinar os efeitos do neoliberalismo sobre sistemas educacionais e políticas culturais: mercantilização, precarização do trabalho docente, desfinanciamento e desigualdades territoriais. Pensar os pilares para educação dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.
Aula 11: Integração econômica na América Latina e no Sul Global: soberania, desenvolvimento e nova geopolítica
Ementa: Discutir a integração econômica como estratégia de desenvolvimento e de ampliação de autonomia externa para países periféricos, superando a inserção subordinada nas cadeias globais de valor. Analisar experiências latino-americanas (Mercosul, Unasul, ALBA, CELAC) e seus limites: assimetrias produtivas, dependência financeira, fragmentação política e vulnerabilidade a ciclos de commodities. Debater instrumentos concretos de integração desenvolvimentista: coordenação industrial e tecnológica, infraestrutura regional, cadeias produtivas compartilhadas, compras públicas, harmonização regulatória e mecanismos de compensação entre economias desiguais. Situar a integração no contexto do Sul Global, explorando cooperação Sul–Sul, BRICS e novas arquiteturas financeiras e monetárias (bancos de desenvolvimento, sistemas de pagamentos, moedas locais) como alternativas à dependência do dólar.
Aula 12: Vantagens comparativas do Brasil e o projeto popular para o século XXI
Ementa: Examinar as principais vantagens comparativas e capacidades estratégicas do Brasil (biodiversidade, dimensão do mercado interno, base industrial e infraestrutura científica e tecnológica), como fundamentos para um projeto nacional de desenvolvimento soberano. Discutir criticamente a noção de “vantagem comparativa” sob uma perspectiva desenvolvimentista, distinguindo vantagens estáticas (recursos naturais, escala) de vantagens dinâmicas (aprendizado, inovação, complexidade produtiva). Analisar a biodiversidade e a bioeconomia como fronteiras de valor, destacando disputas sobre propriedade intelectual, cadeias produtivas, soberania sobre dados genéticos e a necessidade de políticas de transição ecológica com justiça territorial. Debater a centralidade dos minerais críticos e terras raras. Debater como o tamanho do mercado interno e a demanda popular podem ser alavancas de reindustrialização, emprego e aumento de produtividade, desde que articuladas a política industrial, financiamento e compras públicas. Por fim, mapear a base científica e tecnológica (universidades, institutos, SUS, Embrapa, P&D empresarial) e discutir como integrá-la a uma estratégia de neoindustrialização e inovação, convertendo potencial em capacidade estatal, investimento e orientação produtiva de longo prazo.
Aula 13: A questão agrária, o agronegócio e as alternativas para a soberania alimentar e a preservação ambiental
Ementa: Estudar a formação histórica da estrutura fundiária no Brasil e da questão agrária contemporânea: concentração de terras, conflitos no campo, reforma agrária e políticas públicas rurais. Análise do agronegócio como modelo produtivo e político-econômico: cadeias globais de commodities, financeirização, tecnologias, impactos sobre trabalho, uso da terra e territórios tradicionais. Avaliação crítica dos efeitos socioambientais da expansão agropecuária (desmatamento, água, solo, biodiversidade, agrotóxicos e mudanças climáticas) e das disputas regulatórias e institucionais associadas. Discussão do conceito de soberania alimentar e sua diferença em relação à segurança alimentar, com ênfase no papel da agricultura familiar, sistemas alimentares locais e políticas de abastecimento.
AULA DE ENCERRAMENTO: Mobilização social, coalizões e disputa cultural
Ementa: Trabalhar como projetos nacionais se viabilizam politicamente: coalizões sociais, organização popular e disputa ideológica. Debater hegemonia, comunicação política, território e redes, enfrentando desinformação e “guerra cultural”. Examinar o papel de sindicatos, movimentos sociais, partidos e frentes amplas na construção de maiorias. Discutir formas de participação, controle social e democratização do Estado. Debater os desafios atuais de mobilização para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento
