O ataque lançado hoje (28/02) por EUA e Israel contra o Irã, além de ser um ato ilegal que viola o Direito Internacional, também é algo profundamente insidioso, porque ocorre de forma inusitada — a meio de negociações em curso sobre o programa nuclear iraniano e as sanções estadunidenses, que o principal mediador, o primeiro-ministro de Omã, afirmava estarem sendo produtivas, com “avanços significativos”. Isto é mais escandaloso do que o falso ultimato de Bush a Saddam antes da guerra do Iraque e destrói as bases da própria diplomacia.

Motivações

O material tem sempre razão — no fim do dia, o maior grupo de poder nos EUA está em empresas multinacionais que dependem da hegemonia global sustentada em armas para manter mercados e poder. É o chamado “complexo militar-industrial”, vendido como se fosse livre mercado, uma doce ilusão. A recente ideia sugerida pelo Governo Trump de que os EUA aceitariam a multipolaridade e uma divisão do mundo em áreas de influência era falsa. O presidente Trump foi eleito prometendo a paz, mas entrega a guerra. Em vez de um desvanecimento suave da hegemonia estadunidense, assistimos a tentativas cada vez mais sangrentas de manter uma posição dominante que se tornou insustentável.

Nesse contexto, o regresso em força do “neoconservadorismo”, isto é, do imperialismo mais agressivo, incide em países como Venezuela e Irã não por acaso. São países fornecedores de hidrocarbonetos para a China. a lógica é tentar cercar ou até mesmo sufocar a superpotência emergente. O outro elemento é o alinhamento de Trump a Israel, que funciona como proxy dos EUA, mas que também influencia a política estadunidense e que tem ambições próprias na região, tanto em termos de hegemonia regional como em torno do projeto da “Grande Israel”. O primeiro-ministro Netanyahu pressiona há décadas por uma guerra com o Irã.

É importante lembrar que a lógica imperialista na política externa associa-se, com frequência, a preocupações internas nos EUA. O presidente Trump enfrenta uma crescente impopularidade, incluindo as revelações do seu envolvimento no caso Epstein, o que gera uma situação de desespero e a necessidade de criar fatores de distração. As evidências de ligações de Epstein ao Governo de Israel apenas adensam a nebulosidade de toda a situação. Nesse contexto, os neoconservadores (representados pelo ministro das Relações Exteriores, Marco Rubio) ganham crescente margem de atuação no Governo Trump, saindo reforçados pelo “sucesso” da operação de sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. No entanto, isso significa também um maior tensionamento interno no movimento MAGA, que possui um forte setor avesso a intervenções externas.

Obviamente, o discurso que associa estas ações à defesa da democracia ou dos direitos das mulheres é falso. Caso contrário, países como a Arábia Saudita também estariam sendo atacados. A democracia é lamentavelmente usada novamente como pretexto ou fachada para uma ação ilegal e sangrenta que tem outros fins. A luta pela direitos das mulheres iranianas sai desacreditada e associada ao imperialismo, ao invés de ser uma demanda efetiva por reformas igualitárias dentro do Irã, operada através das referências culturais do próprio país e no âmbito de um projeto soberanista. Também obviamente, a invocação do terrorismo é um exercício de pura hipocrisia para justificar uma ofensiva que inclui táticas terroristas, visando causar pânico e instabilidade.

Consequências

O equilíbrio de forças do conflito militar dependerá da capacidade de resposta do Irã e das vulnerabilidades tanto dos iranianos como de EUA e Israel, sabendo que os EUA são a maior potência militar, estão à distância e operam a partir de bases militares e porta-aviões. Uma das questões que continuam por esclarecer é se os EUA acabarão por entrar com tropas em alguma guerra em larga escala — cenário que Trump (e antes Biden) tem evitado pelo desgaste que isso implica e que ficou claro desde a guerra do Iraque.

Entre as consequências, além do sofrimento humano da população iraniana e da região, a nova ofensiva dos EUA e Israel vai aumentar a instabilidade regional, pressionar a China para reverter a sua imensa contenção histórica e aumentar o preço da energia para todos nós. A propósito da China, a questão é até que ponto seu Governo seguirá na lógica da contenção perante um movimento crescente de cerceamento e agressividade por parte dos EUA que afetará cada vez mais os fornecedores, os mercados e as próprias rotas de navegação. É, no fundo, uma questão de tempo: a China joga no longo prazo, buscando consolidar preeminência na economia e na ciência, enquanto os EUA jogam no curto prazo, procurando eliminar as condições para a ascensão chinesa, utilizando o poder militar, financeiro e científico para antecipar a confrontação.

Ao longo dos últimos séculos, a Europa e depois os EUA implementaram um sistema de opressão global que destruiu civilizações inteiras, condenou milhões de pessoas à miséria e à fome, massacrou populações e explorou o seu trabalho e os seus recursos à exaustão. Em nome da civilização, foram cometidos os piores crimes. A triste realidade é que esse sistema permanece até hoje.