Especialista em gerontologia explica o novo termo Nolt e as maldades por trás do etarismo

O vídeo do presidente Lula desfrutando suas férias, no começo de janeiro, desencadeou uma avalanche de conteúdos falsos e reacendeu o debate sobre a sua saúde ― especialmente em um ano em que ele poderá disputar mais um mandato presidencial. A discussão, porém, vai muito além da figura política: no Brasil, até 2050, a população idosa deve dobrar, e o país ainda não está preparado para esse cenário.
Enquanto parte do debate público ainda se concentra na vitalidade do presidente, especialistas lembram que a discussão deveria ser mais ampla: o Brasil está envelhecendo rápido, mas ainda enxerga a velhice por lentes antigas, preconceituosas e pouco informadas. Faltam políticas públicas, faltam cidades preparadas e falta, sobretudo, uma mudança cultural que reconheça o envelhecimento como etapa natural — e não como problema.
Em seminário promovido pela Fundação Perseu Abramo, em setembro de 2025, “A realidade das políticas para a pessoa idosa e os desafios do PT“, foram discutidas as carências e os desafios na promoção de políticas públicas para esta parcela da população. Um dos destaques do Seminário ― que está disponível no YouTube — é a transição demográfica. O painelista José Eustáquio Diniz pontuou que na história da humanidade, a transição demográfica é o maior fenômeno de mudança de comportamento de massa.
Etarismo X Nolt
Desde 2010, a Academia Brasileira de Letras, instituição oficial de referência para a língua portuguesa no Brasil, reconhece o termo etarismo no vocabulário brasileiro, mas a palavra da moda é Nolt – New Older Living Trend.
Para o gerontólogo Ney Messias Jr., a velhice ainda não está sendo bem tratada pela sociedade. Sua experiência pessoal acendeu o alerta que o levou a estudar o tema: “percebi como comecei a ser tratado de outra forma, simplesmente por me aproximar da velhice”, revela.
Messias Jr. é uma voz reconhecida quando o assunto é longevidade e combate ao etarismo. Seu perfil no Instagram ultrapassou 160 mil seguidores e, aos 64 anos, segue ativo, produtivo e desafiando estereótipos todos os dias. Em sua visão, o presidente Lula se encaixa na definição de Nolt, mas não é o único. “Independentemente de qualquer simpatia ideológica de quem quer que seja, ele representa algo inegável e é um exemplo de vitalidade, um exemplo de novo idoso”, opina. No Instagram @seuneyzinho, como é conhecido, está promovendo uma série com outros Nolts para mostrar que a idade é apenas um número.
Graduado em Educação Física pela Universidade do Estado do Pará, instrutor de mindfulness, especialista em gerontologia pelo Hospital Albert Einstein e hoje gestor de programas de envelhecimento bem-sucedidos, nesta entrevista à Focus, ele fala sem rodeios sobre envelhecimento, desigualdade, políticas públicas, saúde e o fenômeno Nolt, que propõe uma nova forma de viver os 60+.
Quando você começou a falar sobre etarismo e por quê?
Bem, eu tenho 64 anos. Aos 57 anos, recebi um diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Isso explicou muita coisa na minha vida, explicou toda a minha trajetória, na verdade. A partir daí, fui buscar ajuda para não ficar dependente apenas de fármacos, mas também de outras formas de cuidado, e a primeira delas foi o mindfulness. Aquilo transformou tanto a minha vida que eu mesmo me transformei, quis me tornar um profissional de Mindfulness e fui à Universidade Federal de São Paulo, onde fiz uma formação baseada em um protocolo científico de Mindfulness. Depois disso, comecei a trabalhar com Mindfulness, e isso me levou a atuar como gestor de estresse em um dos maiores grupos de cuidado à pessoa idosa do Brasil, o Grupo Cíntia Charoni, aqui de Belém do Pará, que é referência mundial. Estimulado pelo grupo, fui ao Einstein e fiz uma especialização em Gerontologia. Essa formação mudou ainda mais a minha vida. Sempre fui uma pessoa que se cuidou muito — minha graduação original é em Educação Física —, então estive sempre ligado à atividade física e às boas práticas alimentares. Quando concluí a especialização, percebi que eu era um profissional de gerontologia e, ao mesmo tempo, alguém que estava chegando à idade idosa. E, quando me dei conta disso, percebi também como comecei a ser tratado de outra forma, simplesmente por me aproximar da velhice. Não tenho nenhum problema em falar sobre isso, mas passei a notar que as oportunidades de trabalho diminuíam e as de afeto e relacionamento encolhiam. E é interessante porque, muitas vezes, o etarismo é silencioso, mas é um dos mais cruéis, pois permeia todos os outros. Agora mesmo estou envolvido em uma discussão na Assembleia Legislativa do meu estado, tentando implementar cotas de empregabilidade para pessoas idosas, e esbarramos em uma lei que já determina cotas para indígenas, negros e quilombolas, mas eu tenho dito: nada disso adianta, porque, se esse indígena, esse negro ou esse quilombola tiver mais de 60 anos, ele vai continuar desempregado.
Como o etarismo se diferencia de outras formas de discriminação estrutural, como o racismo e o sexismo?
Olha, eu te diria que, mais do que falar sobre a diferença, a característica principal do etarismo é justamente essa que eu estou te dizendo: ele permeia todos os outros preconceitos. E isso dificulta ainda mais tudo, porque, veja bem, se eu sou um 60+, branco, heteronormativo, eu sofro etarismo, mas eu sofro muito menos do que, obviamente, um homem negro e homoafetivo. O etarismo está aí, historicamente, para potencializar todos os outros preconceitos e, quando falamos sobre como ele permeia tudo, precisamos falar também da mulher, que é vítima de forma tripla. Ela é muito mais cobrada do que o homem; eu tenho absoluta certeza, como gerontólogo, de que a mulher, apesar de todos os desafios, vem envelhecendo melhor do que nós. Tanto que vocês vivem mais — a expectativa de vida feminina é pelo menos oito anos maior. Mas os desafios que vocês enfrentam são muito maiores do que os nossos, mas o etarismo tem nuances que se intensificam conforme as características pessoais de cada indivíduo. Ele vai potencializando todos os desafios de uma forma muito cruel.
Pensando em interseccionalidade, quais seriam, na sua visão, os maiores pontos cegos da agenda atual contra o etarismo e pró-longevidade ativa? O que não estamos discutindo e o que você acha que deveria estar no centro das pesquisas e das políticas sobre envelhecimento no Brasil?
É complicado falar de uma coisa só porque a pessoa idosa no Brasil enfrenta muitos desafios de insegurança. Insegurança alimentar — e aqui eu estou falando da maioria, não da bolha em que eu vivo, porque sou uma pessoa com privilégio; eu sou minoria. Se você pegar a média da pessoa idosa do Brasil, ela vive insegurança alimentar, insegurança habitacional, insegurança física, insegurança patrimonial; são vários níveis de insegurança. Então, eu sempre digo: é muito poético falar “que bacana envelhecer”! Que bacana envelhecer para quem, cara pálida? Para você que está dentro da sua bolha? Para mim, que estou dentro da minha bolha? Para nós, realmente é. Eu, por enquanto, não tenho insegurança financeira; eu posso ter acesso a médicos, a suplementos; não tenho insegurança habitacional, vivo com certo conforto. Mas é exatamente por isso que acho que deveríamos estar discutindo políticas públicas. O governo atual até demonstra intenção, mas não tirou do papel um aprofundamento real dessas políticas, porque temos uma bomba-relógio prestes a explodir, num país extremamente desigual e que envelhece aceleradamente. Daqui a pouco, teremos uma população inteira de idosos desassistidos — porque isso já acontece —, mas desassistidos num nível ainda mais cruel. Nos dois extremos da sociedade, crianças e idosos, o país até conseguiu, de alguma forma, pagar suas dívidas em relação às crianças; elas estão mais bem assistidas hoje do que há 20 anos, mas com os idosos não. Então está na hora da população e do poder público olharem para esse outro público também.
Quais políticas públicas poderiam ser eficazes para combater o etarismo no mercado de trabalho brasileiro, considerando o envelhecimento acelerado da população?
Estou falando aqui de vários níveis de insegurança e o que poderia tirar a pessoa idosa de alguns desses níveis é exatamente a geração de emprego e renda. Hoje, a pessoa idosa é a parcela mais desempregada da população brasileira. Por outro lado, 59% dos domicílios do país são mantidos por pessoas de 55 anos ou mais. Então, veja: num país onde grande parte dos lares depende dessas pessoas, como é que alguém vai conseguir manter o seu domicílio desempregado, sem renda? Isso é muito cruel. Eu acredito que o poder público deveria começar a dar o exemplo. Basta analisar o Brasil: nenhum nível de governo, federal, estadual ou municipal, tem planos de empregabilidade para o público 60+, não existem cotas. Nenhum poder público tem, por exemplo, um plano de estágio para pessoas 60+ e estamos falando de pessoas extremamente produtivas, com uma experiência valiosíssima para compartilhar, e que dificilmente geram conflitos no ambiente de trabalho, porque já superaram essa fase. A intergeracionalidade, quando existe, é saudável para todos os lados: o jovem bebe da maturidade do idoso, acessa saberes que levaria décadas para adquirir, e o idoso bebe da contemporaneidade do jovem, isso é terapêutico para todos. Então, eu te diria que a primeira grande ação seria essa.
A segunda, que melhora a vida do idoso, mas melhora a vida de todo mundo, seria que os prefeitos das cidades brasileiras, especialmente das capitais, entendessem melhor os protocolos da ONU sobre cidades amigas do idoso. Se as cidades adotassem esses protocolos e se transformassem em cidades amigas do idoso, elas seriam melhores para todas as idades, não só para os idosos e isso melhoraria substancialmente a vida da pessoa idosa. Só que nós, culturalmente, estamos acostumados a enxergar a velhice como um fracasso pessoal. No Brasil, envelhecer é quase tratado como um fracasso, as pessoas já veem o idoso como frágil, como algo trabalhoso. Basta olhar para a pandemia: na hora de escolher quem salvar, o idoso não era a prioridade. Por quê? Porque ele era considerado mais trabalhoso. Nos planos de saúde, é a mesma coisa, no Brasil, eles cometem sistematicamente crimes de etarismo com a maior liberdade do mundo. Existe uma regra da ANS que é um escárnio: eles colocaram a última faixa de reajuste aos 59 anos. Então, quando você chega aos 59, aquele plano que custava R$ 400,00 passa a custar R$ 1.200, R$ 1.300, e isso é legal. Por quê? Porque, se essa última faixa fosse a partir dos 60, entraria em conflito com o Estatuto do Idoso, que é claríssimo: você não pode estabelecer valores em planos de saúde baseados apenas na idade. Então, para não serem criminalmente enquadrados, o que as operadoras fazem? Baixam o limite para 59. Eles fogem do Estatuto do Idoso e fazem o reajuste que quiserem. A pessoa idosa, neste país, é tratada com muito desrespeito.

Professor, você fez um vídeo recentemente falando sobre esse termo, Nolt (New Older Living Trend). Ele está sendo considerado por muitos como um movimento libertador, mas também tem o outro lado, obviamente, das críticas — inclusive essa que o senhor mesmo mencionou agora, de que se transforme em uma hashtag da classe média. O que é exatamente o Nolt? Segundo, se o senhor acredita que esse conceito realmente representa algum avanço na forma de enxergarmos a pessoa idosa, se ele contribui, de fato, para combater o etarismo.
Com relação ao Nolt, muito antes de qualquer neologismo, de qualquer movimento, o que existe é um novo idoso. Quando eu digo “nós”, estou falando da minha geração, que nasceu nos anos 60. Nós somos a primeira geração, enquanto geração, a envelhecer de forma diferente dos nossos pais e avós. Nós estamos envelhecendo com propósito, e não de forma passiva. Na época dos nossos pais e avós, o que eles esperavam? A aposentadoria, que, aliás, é uma palavra péssima, porque “aposentadoria” vem de “aposentos”: é a sociedade dizendo para você “agora chega, fica limitado aos teus aposentos, fim de papo”, e era isso que nossos avós e pais faziam, a partir daí, eles ficavam esperando a vida passar. Nós não admitimos esse tipo de envelhecimento. Eu estou com 64 anos, e estou falando aqui da sede do maior grupo de comunicação da Amazônia, o Grupo Liberal, do qual eu sou diretor de Marketing, acabei de ser contratado há cerca de seis meses. Sou especialista em gerontologia, sou especialista em Mindfulness, formações que fiz com 58 anos de idade. Eu viajo sozinho, malho todos os dias, então, se você olha o meu envelhecimento e coloca esse envelhecimento sob a perspectiva de uma geração anterior à minha, você vai dizer: “esse é o novo envelhecimento”, e é esse tipo de envelhecimento ao qual todos nós deveríamos ter acesso, ao qual todos nós deveríamos ter direito, nós nascemos para viver muito. O que impede isso são as nossas escolhas, nossas atitudes ou as condições em que somos colocados. Durante décadas, por exemplo, venderam para nós verdadeiras “bombas de açúcar”, os adolescentes daquela época, muitos provavelmente já morreram por vários tipos de inflamação que ninguém via. Inflama o cérebro, daí vem Alzheimer, enfim, as inflamações são as mais variadas possíveis.
Voltando à tua pergunta sobre o Nolt: a gente pode até deixar o nome de lado, desde que se entenda o seguinte: eu tenho condições de ser um novo idoso, uma nova idosa, e viver mais e melhor, e aí eu trago outra palavra, em inglês, de um grande especialista em longevidade, o Peter Attia, um estadunidense, mas o conceito não é exclusivo dele: healthspan. Healthspan é a condição que eu adquiro de viver mais e melhor; é expandir os anos da minha vida sem doenças crônicas limitantes, é isso que todos nós deveríamos buscar. No país em que a gente vive, poucos têm essa condição, mas isso é só uma questão financeira? Não, não é só uma questão financeira. Há um estudo muito interessante da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, sobre a população ribeirinha de Maués, no Amazonas, não se trata de uma população rica financeiramente, são ribeirinhos, e eles têm uma expectativa de vida cerca de oito anos maior do que a expectativa média de vida do povo brasileiro.
Podemos usar o exemplo do presidente Lula como referência?
Acho que o presidente Lula, independentemente de qualquer simpatia ideológica de quem quer que seja, representa algo inegável, irrefutável: um homem com 80 anos de idade, comandando uma das maiores democracias do mundo, é um exemplo de vitalidade, um exemplo de novo idoso, para qualquer pessoa; ele não é o único, embora seja um bom exemplo. No meu Instagram, estou fazendo uma série sobre alguns Nolts brasileiros que podem e devem inspirar pessoas. A população de Maués, no Amazonas, e várias outras populações ribeirinhas provam que viver mais e melhor não é apenas uma questão financeira, mas uma questão de escolhas. Eles bebem guaraná todos os dias, comem peixes com alto teor de ômega 3, consomem a melhor gordura do planeta — o açaí —, andam todos os dias para chegar aos seus roçados, remam diariamente e, no final do dia, sabe o que eles fazem? Reúnem-se em comunidade, na porta de suas casas, para conversar, fortalecer suas amizades, o seu grupo de apoio, esses são alguns dos principais pilares do envelhecimento ativo e da longevidade saudável. E, muitas vezes, estão ao teu alcance — mas você fica esperando “um dia ficar rico” para conseguir, na maioria das vezes, isso não depende de riqueza financeira. Depende muito mais de você querer calçar um tênis, qualquer tênis que você tenha, e caminhar todos os dias; deixar de beber refrigerante; deixar de comer açúcar, isso não tem tanto a ver com ser rico ou pobre, tem muito mais a ver com escolhas de vida.
