Realizados no Centro Maria Antônia, em São Paulo, os debates abordaram passado, presente e futuro da organização do movimento negro brasileiro

O calendário com as datas que marcam a história do movimento negro brasileiro foi formado a partir de muitas lutas. Uma delas, que culminou na instituição do dia 20 de novembro como feriado nacional obrigatório em todo o país, em 2023, teve um capítulo muito importante em 1995, em Brasília: a Marcha Zumbi dos Palmares.
Em homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi, a manifestação, que reuniu cerca de 30 mil pessoas para solicitar a implementação de políticas públicas e denunciar o preconceito, teve como palavras de ordem “contra o racismo, pela cidadania e pela vida”.
Para celebrar os 30 anos da marcha, o Centro de Documentação e Memória Política Sérgio Buarque de Holanda (CSBH), da Fundação Perseu Abramo, organizou um seminário realizado no Centro Maria Antônia, em São Paulo. O evento marca o encerramento do “Ciclo Memória da Luta Antirracista”, que teve diversos debates ao longo do ano, em diferentes cidades.
Escutar os mais velhos
Com a proposta de revisitar a construção da marcha 30 anos depois, a primeira mesa do evento foi intitulada como “A mobilização e organização da Marcha Zumbi dos Palmares revisitada 30 anos depois”. Estiveram presentes Edson Cardoso, comunicador e militante histórico do movimento negro, e Simplício Arcanjo, líder quilombola e um dos fundadores da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq.

Edson Cardoso, militante da causa desde os anos 1980, contou os bastidores da construção da marcha em Brasília enquanto articulador do Movimento Negro Unificado, o MNU. Ele falou sobre como foram levantados os principais pontos de debate, em diferentes estados, para a consolidação do documento final com as reivindicações.
Cardoso relata a importância daquele período para a história do movimento negro. “Foi um momento de encontro consigo mesmo, de resgate da identidade, estávamos falando de liberdade e dignidade humana”, conta.
Morador do Quilombo Rio das Rãs, em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Simplício Arcanjo contou a história da luta pela terra com fazendeiros da região e como essa situação fez com que ele participasse da marcha.
Naquele período, ao se aproximar do sindicato dos trabalhadores rurais, Arcanjo conheceu militantes do MNU na Bahia e com o apoio da Comissão Pastoral da Terra, a CPT, e outras entidades, criou, junto a seus companheiros, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq, onde esteve por 14 anos à frente das articulações políticas.
Políticas públicas e igualdade racial
A segunda mesa, intitulada “Conquistas e limites: um balanço das políticas públicas de igualdade racial nos últimos 30 anos”, teve a mediação de Elen Coutinho, diretora da Fundação Perseu Abramo. As exposições foram feitas por Marco Antônio Cardoso, professor de Estudos Africanos da PUC-MG e analista de políticas públicas da prefeitura de Belo Horizonte, e Flávia Rios, socióloga e pesquisadora do Afro-Cebrap.

Marco Cardoso trouxe sua experiência enquanto militante do movimento negro em entidades como o Movimento Negro Unificado (MNU), e a Cordenação Nacional de Entidades Negras (Conen). O ativista falou das dificuldades de obter protagonismo político sem o acesso ao financiamento da luta, e que a participação e proximidade com o movimento sindical foi muito importante para a disseminação das pautas do movimento negro e vetor de mobilização, em especial na década de 1990.
Cardoso citou a relevância da Conferência de Durban em 2001 na centralização das reivindicações e no avanço do debate das políticas chamadas de reparação e contextualizou o que foi feito no Brasil, em especial com a política de cotas raciais nas universidades. Ele lembra que ao aprovar a medida, em 2002, a UERJ foi amplamente criticada, inclusive, com resistência dentro da universidade.
“As cotas e outras ações afirmativas, na realidade, não são reparação. A reparação mesmo tem relação com a acumulação primitiva do capital, em mais de 300 anos de trabalho não pago, tem a ver com a compreensão da atuação do que fizeram aquelas potências coloniais”, opina.
Para o professor, um debate que ainda precisa avançar nas discussões dentro do movimento é a reivindicação do acesso à terra pela população negra. “Isso é central, poderia ter avançado mais, é uma questão caríssima ao povo negro tanto no contexto rural quanto urbano”, explica.
O ativista cultural destacou que o assunto esteve presente na COP30, a partir da organização dos quilombolas. “Pra mim, não existe desenvolvimento e sustentabilidade como coisas separadas, só é desenvolvimento mesmo, se tiver sustentabilidade”, afirma Marco Cardoso.
Pesquisadora da Afro-Cebrap, Flávia Rios comentou a importância da memória para toda a população negra em diáspora. “É quase uma metalinguagem, nós estamos celebrando os 30 anos de uma marcha que celebrava os 300 anos da morte de Zumbi”, pontua. Para Rios, a linguagem política gerada a partir da marcha tem como saldo o caráter propositivo, para além da reatividade.
A socióloga pontuou as dificuldades de desenvolver a pauta no contexto neoliberal dos anos 1990, quando o movimento entregou um documento ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. E disse ter sido importante o uso da palavra racismo para a compreensão do fenômeno, um conceito que é mais assimilado na sociedade nos dias de hoje do que naquele período.
“É importante trazer o legado herdado e criar, inovar, com propostas, formas de agir, em um contexto atual desafiador, com as novas tecnologias que orientam a nossa forma de ler o mundo”, diz Flávia Rios.
Afrofuturismo e a passagem de bastão
Thayara de Lima, que é professora de Didática e Prática de Ensino de História da UFRJ, fez sua exposição sobre o conceito do Afrofuturismo, um movimento cultural que tem na centralidade a imaginação de futuros alternativos.
Para a professora, falar de afrofuturismo é, na realidade, falar de política, justamente, pelo diálogo com uma perspectiva de construção de utopias por meio da prática. Ao citar Jurema Werneck na frase “nossos passos vêm de longe”, ela destaca a diferença de compreensão do tempo, que não é linear, mas sim cíclico; e a força dos símbolos ancestrais na identidade do movimento negro.
Integrante da Coordenação nacional do GT Emancipações e pós-abolição da Associação Nacional de História, a ANPUH, a pesquisadora cita o temor dos jovens em relação ao futuro e que fala da importância da ousadia de pensadores afrofuturistas que abordam a possibilidade de um futuro onde o racismo não existe, e que para esse futuro seja concretizado é preciso olhar para o passado ao mesmo tempo em que há a construção do presente.
Com mediação de Almíscar Pereira, diretor de Relações Etnicorraciais e pautas antirracistas da ANPUH, outra palestrante da terceira mesa, intitulada “30 anos da Marcha Zumbi dos Palmares: Legados, desafios e perspectivas para o futuro”, foi Juliana Borges.

Consultora do Núcleo de enfrentamento, monitoramento e memória de combate à violência da OAB-SP e conselheira da Iniciativa Negra por uma nova política sobre drogas, Juliana Borges defendeu seu ponto de vista enquanto militante abolicionista penal e antipunitivista e relatou suas memórias familiares da infância, quando escutava a mãe e a tia conversando sobre a marcha em 1995.
A pesquisadora e ativista falou, dentre outros pontos, de um legado da marcha, que foi colocado como desafio, que é o de fazer a sociedade entender que não se trata de identitarismo, mas que o movimento está apresentando uma proposta de país, não só de futuro, mas de presente, um outro modelo.
“Sueli Carneiro e outras mulheres negras tinham como desafio enegrecer o feminismo, e acredito que esse ponto, de certa forma, foi cumprido. Agora precisamos avançar no diagnóstico e nas soluções”, diz Borges. Ela cita, além da preocupante questão do genocídio da população negra, outros desafios como encontrar soluções urgentes para o combate ao racismo ambiental, e o enfrentamento a situações que ocorrem a partir do racismo digital e algorítmico.
“A gente precisa saber que pegamos uma situação melhor, com mais acúmulos, que nossos mais velhos tiveram, agora a responsabilidade está em pegar o bastão e entregar um balanço positivo”, afirma Juliana Borges.
