Nesta semana, duas novas pesquisas eleitorais para o pleito presidencial serão divulgadas. O instituto Ideia, em parceria com o Canal Meio, trará o resultado na quarta-feira (8) e o Datafolha vai revelar mais uma rodada no sábado (11). Ambas foram realizadas após o anúncio da pré-candidatura do PSD com Ronaldo Caiado. 

Mesmo com o campo da direita mais pulverizado em candidaturas como a de Caiado, Renan Santos (Missão), ligado ao MBL, e Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, o principal adversário da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo um Bolsonaro.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), irmão primogênito, cresceu rapidamente nas pesquisas e se consolidou como principal força dentro do setor conservador que, não à toa, é amplamente conhecido como campo bolsonarista. Segundo o levantamento Atlas/Estadão, divulgado na semana passada, o cenário é de empate técnico, com vantagem numérica para o candidato da extrema direita. 

Apesar do contexto conhecido de polarização cristalizada no eleitorado brasileiro, os números devem ser analisados com cautela, na avaliação de especialistas. Para Maria Carlotto, professora de Sociologia, Ciências Políticas e Relações Internacionais, e presidente da ADUFABC, a Associação de Docentes da Universidade Federal do ABC, ainda é cedo para qualquer tipo de interpretação definitiva.

“Costumo dizer que treino é treino e jogo é jogo. A dinâmica da campanha muda tudo, temos que tomar cuidados com o resultado dessas pesquisas, nada está dado”, afirma Maria Carlotto. 

O coordenador do Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos (NOPPE) da Fundação Perseu Abramo, Matheus Toledo, pontua que houve pouco deslocamento da base eleitoral de Bolsonaro observada no pleito de 2022. “A maioria dos eleitores que votaram contra Lula naquele momento permaneceu no campo de oposição ao governo federal, o que pode ser alterado durante a campanha, evidentemente”, comenta. 

O pesquisador da fundação destaca que o histórico político de Flávio ainda não é bem conhecido pelos brasileiros, já que apenas 36% afirmam conhecê-lo bem, de acordo com dados colhidos pelo Instituto Paraná Pesquisas

“Essa é uma diferença relevante, por ser menos conhecido, ele ainda não herdou integralmente a rejeição que foi acumulada pelo pai, que na última eleição bateu 50%, segundo o Datafolha”, aponta Matheus Toledo.   

“A campanha adversária vai precisar buscar formas de atrair um eleitor mais moderado, que rejeitou o bolsonarismo em 2022 e votou em Lula. E tudo isso em meio a uma disputa na qual terá que responder a temas sensíveis que são responsabilidade do bolsonarismo como, por exemplo: pandemia, tarifaço que prejudicou o Brasil, 8 de janeiro, condenação e prisão do Jair”, opina o coordenador do NOPPE, da Fundação Perseu Abramo. 

“A pesquisa é sempre uma fotografia, e se feita antes da campanha começar, ela ainda é uma foto nublada, a campanha eleitoral politiza muito o debate. A pesquisa capta apenas a tendência, outra coisa é o que as pessoas irão fazer sozinhas ali na urna. A distância entre intenção e gesto é gigante”, diz Carlotto. 

Avanço da extrema direita 

Para a professora e pesquisadora, é importante entender a resiliência da extrema direita, que, atualmente, é personificada na família Bolsonaro. Apesar da personificação como atributo desse campo político, há outras características apontadas por Maria Carlotto. 

“ A extrema direita no Brasil é socialmente enraizada, politicamente organizada e internacionalmente articulada. Tem base econômica e social, tem estrutura, canais de comunicação e militantes que respondem aos comandos”, cita.

Em dezembro do ano passado, o Datafolha consultou os brasileiros sobre a identificação partidária e 74% se identificaram com um dos lados, no campo bolsonarista ou favoráveis ao Partido dos Trabalhadores; 34% bolsonaristas contra 40% pró-PT. 

A parcela sem identificação política, em 2024, segundo o Panorama Político, realizado pelo Senado Federal, representava 40%. Segundo o levantamento, quanto maior a renda, menor é o percentual de eleitores que se consideram neutros com relação à ideologia política. Sendo essa a opção de 21% dos que ganham mais de 6 salários-mínimos no comparativo com 47% dos que declaram renda menor que dois salários-mínimos.

Mulheres e jovens 

A professora e pesquisadora Maria Carlotto destaca que o núcleo duro do eleitorado bolsonarista funciona de maneira radiotiva e é formado por homens, mais escolarizados, com renda média mais alta, e bastante radicalizados enquanto a maior fatia dos eleitores de Lula são mulheres, negros, das regiões Norte e Nordeste. 

“Eles são fiéis e se mobilizam para conquistar a sociedade, agora, precisamos entender também como está a nossa mobilização, se essa parcela está disposta a atuar ativamente na campanha”, diz. 

Sobre a perspectiva da disputa pelo voto feminino, Carlotto acredita que para dar resposta ao crescimento dos feminicídios não há caminho simples, já que o problema é bastante complexo, incluindo questões culturais resultantes do próprio avanço da extrema direita. 

As mulheres são mais resistentes às características do neoliberalismo, que têm foco no desmantelamento do Estado, principalmente no desmonte das políticas de cuidado, nas áreas de saúde e educação, já que são as principais responsáveis por crianças e idosos, mesmo com longas jornadas de trabalho.

O pesquisador Matheus Toledo diz que: “em relação aos jovens, enxergo um quadro desafiador. Vemos o crescimento de valores conservadores e radicais de direita em uma parcela deste segmento. Por outro lado, há dados recentes que mostram tendências bastante pertinentes: aqui na Fundação Perseu Abramo, realizamos uma pesquisa no ano passado e os mais jovens eram o segmento, entre todos da amostra, com maior grau de apoio ao fim da escala 6×1, 3 em cada 4 jovens”, explica. 

“Nos nossos estudos qualitativos, os mais jovens demonstram preocupações com o tema do trabalho e da renda, da qualificação profissional e das desigualdades sociais, questões que historicamente nosso campo soube endereçar politicamente”, completa Toledo. 

De acordo com Maria Carlotto, a eleição vai ter que dialogar com o tema da crise em diferentes esferas: das instituições, do sistema econômico, da política internacional, entre outras.

“As pessoas estão muito insatisfeitas, as pesquisas qualitativas apontam na direção da necessidade de trazer um discurso antissistema. A extrema direita já faz isso, e, no nosso caso, teríamos que fazer na direção oposta. Trazer um discurso antissistema que abre um horizonte de esperança, acredito que tem muito apelo eleitoral. Essa terá que ser uma eleição de ousadia”, opina Carlotto.