Numa das cenas mais desesperadoras de Obsessão, filme independente escrito e dirigido pelo jovem Curry Baker, Nikki pede para que Bear tire sua vida. Ela está imóvel na cama. Quase inconsciente. Ainda assim implora para que o antes melhor amigo encerre aquela súplica pela qual ela não escolheu estar. “O que há de tão errado em estar ao meu lado?”, ele responde.

A cena, para quem já viu o filme, tem sido citada como a prova inconstestável de que o vilão da história é Bear e não Nikki – apesar de todas as atrocidades que ela comete em cena após ser possuída por uma entidade maligna a partir de um feitiço feito pelo amigo secretamente apaixonado.

É a partir deste paradoxo que Obsessão gerou, até aqui, o maior debate da indústria do cinema no ano. E também um astronômico fenômeno de bilheteria. O filme, que custou menos de um milhão de dólares, já arrecadou mais de 400 milhões, tem sido aprovado por público e crítica e fez da atriz Inde Navarrette uma celebridade.

A explicação para tamanho sucesso vai além do roteiro criativo: o filme é uma aula de como os vilões nem sempre precisam ser a caricatura do mal. Bear (vivido por Michael Johnston), o menino apaixonado, é tímido, pai de pet, discreto, bom amigo, aparentemente inofensivo. Já Nikki é falante, descolada, direta. Quando ela pergunta se o amigo de infância gosta dela, ele nega. Prefere recorrer a poderes sobrenaturais para controlar o corpo e mente dela.

A partir de então, ambos passam a viver um romance abusivo que jamais existiria sem a tal obsessão do título. Ao pé da letra, a vilã é ela pelo que faz em cena. Mas nas entrelinhas a história é bem diferente.

Para a jornalista, pesquisadora e criadora do canal Narrativa Feminina, Ana Paula Barbosa, Bear representa um arquétipo que o cinema nos ensinou a simpatizar: o cara legal que espera pacientemente até que a garota perceba que ele sempre esteve ali.

“Mas Bear é, na verdade, a personificação do homem que acredita que mulheres lhe devem amor apenas porque ele se considera uma pessoas boa. Quando ele procura um artefato místico pra fazer Nikki se apaixonar por ele, esse artefato não cria amor. Ele rouba a autonomia de Nikki. A personalidade dela começa a se desfazer e ela se torna dependente, instável, incapaz de existir fora do desejo que lhe foi imposto. Aos poucos ela deixa de ser um indivíduo pra se tornar uma projeção da fantasia dele”, explica.

Para Ana Paula, o ponto alto do filme, e também o que mais incomoda, é mostrar essa deteriorização como metáfora pelas quais as mulheres perdem o controle sobre si mesmas dentro do patriarcado. “O único vilão da história é Bear e a crença de que ele deveria poder ter quem quisesse. É verdade que ele não tinha como prever as consequências do desejo. Mas quando entende que Nikki não está mais no controle de si mesma que ele não faz nada”.

O que explica o fato de tantas mulheres saírem devastadas do cinema é que a história e vista sempre a partir dos olhos desse homem covarde, passivo e egoísta. “Obsessão mostra como muitos homens são incapazes de assumir as consequências dos seus próprios atos porque são profundamente covardes. Obsessão mostra como os monstros mais assustadores muitas vezes são homens bonzinhos, convencidos de que tem direito ao amor e ao corpo das mulheres”.