Artigo de Henry Campos e Nahuan Gonçalves especial para Observa BR
Taxas de mortalidade por número de casos e de mortalidade total são medidas inadequadas para retratar o impacto real de uma doença sobre uma população - é o que vêm apontando várias equipes de pesquisadores dos Estados Unidos. Essa constatação parece ainda mais forte quando se trata da COVID-19. Aquele país, duramente castigado pela pandemia, já registra, em menos de um ano, mais de 220.00 mortes, segundo o John Hopkins University Coronavirus Research Center, o que corresponde a 20% dos óbitos registrados no mundo, embora a população norte americana constitua apenas 4% do número total de habitantes do planeta. Mesmo esse número assustador subrepresenta o prejuízo total causado pela pandemia, dizem os cientistas, já que cada morte é perda de “anos potenciais, que poderiam ser de ricas memórias para familiares e amigos, anos de produtividade e alegria”.
O estudo “2.5 Million Person-Years of Life Have Been Lost Due to COVID-19 in the United States”, publicado pelo Dr. Stephen J. Elledge, Department of Genetics, Program in Virology, Harvard Medical School, Division of Genetics, Brigham and Women’s Hospital, Howard Hughes Medical Institute, Boston, MA, em 18 de outubro último, no repositório medRxiv, que acolhe publicações inéditas de alto nível, antes mesmo da revisão por comitês de leitura, mereceu amplo destaque na imprensa americana e internacional, em especial no jornal New York Times, em suas edições dos dias 18 e 23 de outubro.
Para obter uma melhor métrica demográfica da COVID-19 nos Estados Unidos, o Dr. Stephen Elledge calculou o Número de Anos Potenciais de Vida Perdidos – NAPVP (Potential Years of Life Lost – PYLL), utilizando dados dos óbitos por COVID-19 estratificados por faixa etária e sexo, a partir de dados disponibilizados pelo Centers for Disease Control and Prevention – CDC. Foram utilizadas para comparação as tabelas atuariais para diferentes grupos etários, por sexo, utilizadas pela Social Security Administration. A expectativa de vida para pacientes falecidos por COVID-19 foi calculada por faixas etárias de 10 anos, tal como o CDC apresenta, tendo sido os gêneros analisados separadamente, em função das diferenças de morbidade e mortalidade entre homens e mulheres. Para um total de 194.087 mortes analisadas foi evidenciado um total de 2.572.202 anos de vida de pessoas perdidos.
Quase metade desses 2, 5 milhões de anos de vida perdidos foram subtraídos de pessoas com menos de 65 anos de idade. Apesar de só representarem um quinto das mortes por COVID-19, essas pessoas com menos de 65 anos constituíram 1,2 milhões de anos de vida perdidas para o vírus. Os 80% das mortes restantes, ocorridos em pessoas mais idosas, respondem pelos quase 1,4 milhões de anos de vidas perdidas, segundo os cálculos do Dr. Elledge. Os dados também mostram que os homens, que costumam ter pior evolução na COVID-19, perderam mais anos de vida potenciais em comparação às mulheres. Desde janeiro o coronavírus matou cerca de 43.000 norte-americanos com menos de 65 anos. Cerca de 2.000 não tinham chegado aos 35 anos, e centenas de outros nem mesmo aos 25 anos de vida.
Essas estatísticas só cresceram em importância, quando o número de casos e mortes entre as pessoas mais jovens continua a crescer. A pandemia é responsável por um excesso de mortes (tema de que trataremos adiante) de 26,5% em pessoas com idade entre 25 e 49 anos, grupo etário em que o aumento foi maior, segundo dados liberados no dia 21 de outubro pelo CDC. Portanto, pessoas jovens continuam vulneráveis aos piores efeitos do vírus, inclusive a morte, que pode roubar décadas de uma vida intensa.
Quantificar o impacto da pandemia pela COVID-19 é um ponto crítico para que o público e aqueles que tomam decisões políticas estejam informados do seu custo para a sociedade, para que se possa reduzir ao máximo os custos sociais da doença. Existem ainda muitas interpretações errôneas sobre a severidade da doença e a sua letalidade. Um exemplo é a falsa impressão de que a grande maioria das mortes, que ocorre na população de idosos, produza efeitos mínimos sobre a sociedade, já que esses indivíduos estariam mais próximos da morte por causas naturais. Além das implicações éticas que envolvem esse raciocínio, a conclusão que dele advém não se sustenta, por pelo menos duas razões. A primeira é que, à medida que as pessoas envelhecem, sua expectativa de vida aumenta, bem além da expectativa de vida ao nascer, conceito mais familiar ao grande público. A segunda é que tem sido registrado um número significativo de indivíduos jovens, mortos pela COVID-19, que tinham décadas de expectativa de vida pela frente.
“Essas são pessoas que estão morrendo no seu cotidiano”, diz o Dr. Utibe Essien , médico e pesquisador sobre equidade em saúde na University of Pittsburg School of Medicine – “elas estão perdendo tempo de vida com seus filhos, netos, e suas oportunidades de construir os seus futuros”. O Dr. Essien foi um dos vários espertos, não envolvidos no estudo, que reviram o artigo do Dr. Stepen J. Elledge a pedido do jornal New York Times. “Analisar esses dados é humanizador”, disse a epidemiologista Nadia Abuelelah, do Boston College, não envolvida no estudo. Ela acrescenta – “Esses dados dizem muito mais como essa doença podia ter impactado minhas experiências de vida, minhas oportunidades, a possibilidade estar com as pessoas que amo”. “Amar a vida é uma das métricas para se medir perdas”, ressalta a epidemiologista e demógrafa Ayesha Mahmud, da University of California, Berkeley, também não envolvida no estudo. Ela chama atenção para que não se valorize menos a vida de pessoas idosas, simplesmente porque supostamente podem ter menos anos potenciais de vida. Essa imagem, segundo a Dra. Mahmud, pode prejudicar pessoas idosas e minimizar os efeitos da doença sobre elas. Segundo a pesquisadora, “o que chama mais atenção é que tudo isso ocorreu em um período de tempo muito curto”.
Um dos aspectos importantes desse e de outros estudos semelhantes é que não pôde ser incorporada aos dados, por falta de dados estatísticos apropriados, a análise do efeito das comorbidades pré-existentes sobre a expectativa de vida. Pacientes com diabetes, obesidade, doenças cardíacas, condições que aumentam o risco e a gravidade da doença, não puderam ser analisadas separadamente no estudo. Se por um lado, nessas situações não foi possível definir há quanto tempo essas condições estavam presentes, por outro, a maioria dos pacientes com mais de 60 anos apresenta comorbidades que já estão incorporadas nas tabelas de expectativa de vida.
Um outro ponto não analisado no estudo é a etnia, realçada pelas condições socio-econômicas, densidade nos locais de moradia, que aumentam a morbidade e a mortalidade. É certo que a pandemia atinge desproporcionalmente negros, indígenas e outros nativos. Dados do CDC mostram que morre um em cada 920 americanos negros acometidos pela COVID-19, enquanto que entre americanos brancos a proporção é de uma morte para cada 1840 infectados, ou seja, a população negra tem duas vezes mais chance de morte pela COVID-19. Estudo divulgado em 15 de outubro pelo repositório medRxiv, pelas pesquisadoras Theresa Andrasfay e Noreen Goldman, da University of South California e Princeton University – Reductions in 2020 US life expectancy due to COVID-19 and the disproportionate impact on the Black and Latino populations – projeta na atual pandemia um aumento de 40% da mortalidade de negros em comparação a brancos e uma redução de três anos para menos de um ano do chamado paradoxo latino – a mortalidade mais baixa entre latinos do que em brancos.
“Mesmo as perdas quantificadas por anos-vida não representam o espectro completo da pandemia”, diz Dra. Maimuna Majumder, epidemiologista do Boston’s Children Hospital e da Harvard Medical School, igualmente não associada ao estudo do Dr. Stephen J. Elledge. Sua manifestação realça o peso das ainda não bem elucidadas repercussões da COVID-19 a longo prazo, com a presença de sintomas debilitantes por meses e, possivelmente, por períodos ainda maiores.
Outro dado que vem sendo analisado é o excesso de mortes. No estudo mais recente sobre o tema, o Dr. Steve Woolf, diretor emérito do Center on Study and Health, na Virginia Commonwealth University, diz que “provavelmente alcançaremos mais de 400.00 mortes em excesso até o final do ano – mortes que não esperávamos ver em circunstâncias normais”. No período de 26 de janeiro a 3 de outubro, o maior excesso de mortes foi de 26, 5% e ocorreu no grupo de 25-44 anos, sendo de 24% para o grupo de 65-74 anos e de 15% na faixa de 45-64 anos. No grupo mais jovem, com menos de 25 anos, as mortes ficaram 2% abaixo da média. Os hispânicos tiveram um aumento de 59%, os negros, de 33%, os indígenas e nativos do Alasca, de 29%, e os de descendência asiática, de 37%. Dados semelhantes constam do relatório publicado no dia 23 de outubro pela Dra. Lauren Rossen e colaboradores, do US Department of Health and Human Services, Centers for Disease Controland Prevention – CDC – Morbidity and Mortality Weekly Report – que informa que, em 15 de outubro de 2020,as 216.025 mortes por COVID-19 relatadas nos EUA podem subestimar o impacto total da pandemia na mortalidade. Consta no relatório que do número estimado de 299.028 mortes em excesso entre o final de janeiro e 3 de outubro, 198.081 (66%) são atribuídas à COVID-19. O maior aumento percentual foi visto entre adultos de 25-44 anos e entre pessoas de origem latina e hispânica. Esses resultados apontam para a importância de medidas que possam prevenir a mortalidade direta ou indiretamente associada com a pandemia da COVID-19, para minimizar os efeitos disruptivos sobre o sistema de saúde.
Sob o ângulo de vários indicadores, a dinâmica da epidemiologia nos Estados Unidos não mostra boas perspectivas de controle da pandemia da COVID-19, tudo isso agravado pela falta de unidade e comando nacional e em meio a uma grave crise política, quando as atenções concentram-se na eleição presidencial. Como relata o Dr. Stephen J. Elledge, se a projeção de vários grupos estiver correta, os Estados Unidos terão registrado 400.000 mortes até fevereiro de 2021 e as estimativas mais otimistas preveem que 4 a 5 milhões de anos de vida de pessoas terão sido perdidos para a COVID-19.
Para ler mais: www.nytimes.com
https://doi.org/10.1101/2020.10.18.20214783
https://doi.org/10.1101/2020.07.12.20148387
https://www.cdc.gov/nchs/nvss/deaths.htm.