Durante a coletiva de imprensa realizada horas depois do encontro entre Lula e Donald Trump, na última quinta-feira (7), o presidente brasileiro relembrou a já clássica história ocorrida em 2010 em que “teria evitado uma guerra”. Naquele ano, durante o seu segundo mandato, o brasileiro  atuou ativamente na mediação de um acordo nuclear com o Irã, buscando evitar sanções e um possível confronto militar, em um cenário que envolvia o governo de Barack Obama nos EUA.

A missão, bem sucedida, até hoje é prova da força diplomática brasileira em termos globais e foi novamente colocada à disposição na reunião com o atual mandatário estadunidense. “O Trump não vai mudar o jeito de ser após uma reunião comigo. Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra. O conflito no Irã vai causar mais prejuízos do que ele imagina. Ele acha que, seja no Irã e na Venezuela, está tudo resolvido. Eu realmente espero que esteja, mas ainda não podemos afirmar isso”, afirmou Lula. 

Para o brasileiro, tratado com cordialidade e respeito na visita, “todo mundo sabe como começa uma guerra, mas ninguém sabe como termina. Por isso conversar é mais barato e seguro do que fazer guerra. O diálogo não mata crianças, não derruba escolas. Não destrói uma nação inteira”. 

Lula, inclusive, colocou-se à disposição para resolver o impasse com Cuba, que sofre com embargos econômicos cada vez mais severos e passa por grave crise humanitária. “Se ele quiser ajuda para resolver o problema de Cuba eu estou à disposição. Ele disse que não vai invadir o país. E Cuba quer dialogar. É preciso debater o bloqueio que nunca deixou Cuba crescer como deveria. Então eu estou disposto a conversar“.

Documentos em mãos

A expectativa da imprensa presente na coletiva era de que, após a conversa, ambos os governos chegassem a um acordo sobre temas de grande repercussão como as críticas dos EUA ao Pix e as ameaças de enquadrar facções criminosas brasileiras como terroristas – abrindo brecha para uma possível intervenção internacional em terras nacionais. 

Porém, nada disso foi discutido. “Cada assunto que eu discuti com o presidente Trump foi entregue por escrito. Não queremos deixar dúvida sobre o que queremos. Esse negócio de dizer que as facções tomaram conta das cidades nós precisamos dizer que as ruas e as cidades são do povo”, reiterou. 

“Nós não precisamos de ajuda interna para enfrentar esse problema. Esse problema é nosso e nós temos que resolver. A coisa é séria. Nós precisamos destruir o crime organizado e as facções. Se a gente não destruir eles tomarão conta de tudo. O Brasil está disposto a dar um exemplo e vai levar muito a sério este tema. Estamos preparados para discutir qualquer assunto, mas não abrimos mão da nossa soberania”.

Tarifas 

Em novembro passado, um mês após conversa telefônica entre Lula e Trump, o governo brasileiro recebeu, com satisfação, a decisão dos Estados Unidos de revogar a tarifa adicional de 40% para uma série de produtos agropecuários importados do Brasil. Ficaram isentos de tarifa vários tipos de carne, café e várias frutas (como, por exemplo, manga, coco, açaí, abacaxi).

Neste novo encontro, o tema não foi amplamente debatido, mas Lula garantiu que entregou a Trump uma série de propostas que, segundo ele, serão benéficas para ambas as nações. “Estou otimista. Há uma divergência que ficou explícita na reunião. Eu propus ao Trump um prazo de 30 dias para tentar chegar a um acordo. O que nós temos é que resolver estes problemas. O que não pode acontecer é fazer uma reunião que não tem validade depois que termina diante de burocracias”.

Lula deixou claro que tem muito interesse que os EUA voltem a investir no Brasil. “Vamos fazer as coisas acontecerem. O Trump repete várias vezes que gosta do Brasil e que respeita o Brasil. Como nós gostamos dos EUA então por que nós não fazemos a coisa certa para ambos?”

Sobre as terras raras, grupo de 17 elementos químicos fundamentais para a tecnologia que existem em abundância no Brasil, Lula foi direto: “só há negociação se o Brasil manter o controle da produção e ser o mais beneficiado pelo que a natureza lhe presenteou”.