O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu sua fala na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, na terça-feira (30), em Assunção, pedindo um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho.
O gesto, acatado pelos demais chefes de Estado, deu o tom de um discurso centrado na solidariedade regional e na defesa do multilateralismo diante de um cenário sul-americano cada vez mais polarizado.
Para o presidente, a catástrofe reforça a necessidade de cooperação. “Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais.” No discurso, Lula propôs que o Mercosul sirva de “embrião” de um mecanismo sul-americano de enfrentamento a desastres naturais e de financiamento à adaptação climática, em referência às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e mobilizaram apoio internacional.
Multilateralismo como “necessidade estratégica”
O eixo central do pronunciamento foi a defesa da integração regional em meio ao que Lula classificou como uma era de rivalidades geopolíticas, unilateralismo e “protecionismo como resposta falaciosa”. Sem citar nomes, o presidente contrastou sua visão com a de líderes alinhados ao presidente norte-americano Donald Trump, grupo que inclui o anfitrião Santiago Peña, do Paraguai, e o argentino Javier Milei, ausente do encontro e representado pelo chanceler.
“Ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul”, declarou. “Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou de escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses.”
Lula também valorizou o Plano de Minerais Críticos do Mercosul, apresentado pelo Paraguai. “É um ponto de partida para reforçar a autonomia estratégica dos nossos países. Agir como bloco nos fortalece frente à ameaça do colonialismo digital. Podemos ser mais do que fonte de dados, de matéria-prima e mercados consumidores para as grandes empresas de tecnologia”, destacou.
A política de alianças defendida por Lula é baseada na diversificação de parceiros. O presidente celebrou a entrada em vigor, ainda que provisória, do acordo Mercosul-União Europeia, a ratificação dos tratados com a EFTA e com Singapura e o avanço das negociações com Canadá, Índia e Vietnã.
Anunciou ainda o lançamento, durante a própria cúpula, das negociações de uma parceria econômica com o Japão, mercado de cerca de 120 milhões de habitantes. A iniciativa foi apresentada como a principal aposta do Mercosul após o acordo com a União Europeia, impulsionada pelo encontro entre Lula e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, à margem da cúpula do G7, em junho. “Voltamos a olhar para o mundo com ambição”, resumiu.
Os números do bloco
Lula também fez um balanço dos 35 anos do Mercosul, fundado em Assunção, em 1991.
O comércio interno do bloco saltou de US$ 4,5 bilhões em 1991 para cerca de US$ 50 bilhões em 2025.
O intercâmbio com o restante do mundo cresceu mais de 6% em relação a 2024, chegando a quase US$ 770 bilhões, com exportações superiores a US$ 400 bilhões.
O Focem (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul) já financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão e 100 quilômetros de redes de saneamento.
Para o lançamento do Focem 2, foi anunciado um aporte adicional brasileiro de US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década. O presidente também defendeu a incorporação da Bolívia ao fundo como forma de reduzir as assimetrias entre os países.
Sob o mote de que “o Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas”, Lula propôs ainda que a arquitetura do Pix sirva de base para uma infraestrutura regional de pagamentos, capaz de ampliar o uso de moedas locais e reduzir a vulnerabilidade a choques externos.
Democracia e crime organizado
Lula dedicou parte do discurso à defesa dos valores democráticos, lembrando que o Mercosul nasceu como resposta ao passado autoritário da região e mencionando a tentativa de golpe de Estado no Brasil. Também detalhou iniciativas de combate ao crime organizado transnacional, como o Centro de Cooperação Policial em Manaus e o custeio, pelo Brasil, da presença de delegados de 12 países no escritório regional da Interpol em Buenos Aires.
O presidente também fez referência aos recentes processos eleitorais da região, afirmando que a democracia e a vontade popular prevaleceram.
Encerrado o discurso escrito, Lula improvisou e confirmou que disputará a reeleição em outubro.
“Se ganhar, serei o único presidente da história do Brasil a governar num regime democrático quatro vezes”, afirmou. Disse ainda que pretende chegar “aos 80 anos com a vitalidade de um jovem de 20”. Justificou a candidatura pela reconstrução do país e pelo combate à fome e fez um apelo pela preservação das instituições: “Independentemente de quem seja eleito no Brasil, o Mercosul continuará sendo prioridade”.
A cúpula marcou a passagem da presidência rotativa do bloco do Paraguai para o Uruguai. Em seu discurso, o presidente uruguaio Yamandú Orsi ecoou o tom de Lula ao afirmar que os desafios do tempo presente “exigem mais cooperação, não menos; mais diálogo, não menos; mais integração, não menos”.
