Aos 82 anos, Frei Betto escreve como quem ainda disputa o presente. Em O Voo da Locomotiva (Rocco, 2026), seu novo romance, uma mulher torturada durante a ditadura militar tenta reconstruir a própria história por meio de um diário. Rosa escreve para exorcizar os demônios que sobreviveram à prisão. Frei Betto escreve para impedir que o país se acostume com eles.
A personagem nasceu da história real da chilena Luz Arce, sobrevivente da ditadura de Augusto Pinochet, mas foi trazida pelo autor para o Brasil. Na transposição, o romance incorpora experiências vividas ou conhecidas por Frei Betto durante os quatro anos em que esteve preso, entre 1969 e 1973. É o sexto livro em que ele retorna aos cárceres, às células clandestinas, às perdas e aos erros de uma geração que enfrentou o regime militar.
Em uma conversa longa e atenta com Fernanda Otero, Frei Betto não se protege atrás da própria biografia. Reconhece os equívocos da luta armada, critica o dogmatismo e o culto à personalidade na esquerda e afirma que a ausência de organização popular foi decisiva para a derrota dos grupos que enfrentaram a ditadura. Também volta o olhar para o presente, marcado pela tentativa de revisão daquele período, pelo enfraquecimento dos vínculos coletivos e por uma juventude que, segundo ele, perdeu o horizonte de transformação.
A literatura aparece, ao longo da entrevista, como memória, elaboração do trauma e forma de intervenção política. Pela primeira vez em sua obra, Frei Betto constrói um romance inteiramente conduzido por uma voz feminina. Escrito primeiro à mão, como todos os seus livros, O Voo da Locomotiva confirma uma característica identificada décadas atrás por Alceu Amoroso Lima: uma escrita feita “mais com a pele do que com a cabeça”.
Da ficção, a conversa avança para o mundo concreto. Frei Betto descreve a grave situação econômica e energética de Cuba, defende a solidariedade ao país e critica o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Ao falar das eleições brasileiras, é direto: considera a vitória de Lula necessária para preservar a democracia. A mesma clareza atravessa suas reflexões sobre Donald Trump, o neoliberalismo, as redes digitais e o isolamento que substitui a participação comunitária pela sobrevivência individual.
Frei Betto sabe que talvez não veja o mundo pelo qual trabalha há mais de seis décadas. Não demonstra, porém, qualquer disposição de abandonar a tarefa. “Sei que não vou participar da colheita, mas faço questão de morrer semente”, afirma. Na entrevista a seguir, memória e utopia não aparecem como refúgio, mas como instrumentos de resistência.

O Voo da Locomotiva, seu romance mais recente, narra a história de Rosa, uma mulher presa e torturada pela ditadura. Por que o senhor decidiu voltar a esse período agora?
Primeiro, porque eu acho que tenho um compromisso político e moral de manter viva a memória dos 21 anos atrozes da ditadura militar no Brasil, nós não podemos permitir que aquele período caia no esquecimento. É preciso sempre levantar essa questão para que não se repita, porque, quando a gente esquece o passado, corre o risco de, no presente, querer repeti-lo no futuro, como aconteceu com a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, de Jair Bolsonaro e seus asseclas.
Então, é preciso realmente não permitir que caiam no esquecimento aqueles 21 anos de ditadura, por isso, este já é o sexto livro que produzo para manter viva a memória daquele período. O primeiro foi Cartas da Prisão, que escrevi nos quatro anos em que fiquei preso, de 1969 a 1973. Depois veio Batismo de Sangue, que, inclusive, as pessoas que nos acompanham podem assistir no filme de Helvécio Ratton, baseado no livro e disponível no YouTube.
Depois, Diário de Fernando, um diário que Frei Fernando, meu colega de vida religiosa e de cárcere, teve a ousadia de produzir. Ele anotou o dia a dia da prisão, mas, como não era nem jornalista nem escritor, coube a mim dar redação àquelas anotações, por isso, intitulei o livro Diário de Fernando.
Em seguida, vieram três romances: O Dia de Ângelo, em que falo da minha experiência em celas solitárias, porque, durante os quatro anos em que fiquei preso, passei por oito cárceres diferentes e várias vezes por solitárias; outro romance chamado Tom Vermelho do Verde.
E aqui explico: eu mesmo pensava que o segmento mais vitimizado pela ditadura havia sido o pessoal da minha geração, que tinha pegado em armas, ou talvez os sindicalistas, e descobri que não. O segmento mais atingido pela ditadura foi os povos indígenas, especificamente, uma tribo do norte da Amazônia e do sul de Roraima, os Waimiri-Atroari. Foram massacrados mais de 2 mil indígenas na abertura da rodovia 174, que liga Manaus a Boa Vista.
Se a Transamazônica é horizontal, liga a Paraíba ao Peru, a 174 é vertical, ligando Manaus a Boa Vista. Então, baseado em fatos reais, escrevi esse romance, também da editora Rocco, Tom Vermelho do Verde.
E agora, O Voo da Locomotiva, também baseado numa história real, vivida pela pessoa a quem dedico o livro, Luz Arce. Ela não é brasileira, está viva, mora no Chile, e tudo aquilo que passou durante a ditadura de Pinochet ocorreu no Chile, mas adaptei para o Brasil, eu queria falar da ditadura brasileira, que teve vários fatores similares aos das demais ditaduras do Cone Sul.
Então, adaptei muitos fatores próprios do período em que estive preso e de outros relatos que tive oportunidade de conhecer, seja por escrito, seja por depoimentos pessoais.
O romance começa como uma espécie de confessionário: “Neste diário, exorcizo meus demônios”. Quanto do senhor existe em Rosa? Que papel a escrita pode desempenhar na elaboração do trauma e dos arrependimentos?
A escrita é terapêutica. O psicanalista Hélio Pellegrino, que era muito meu amigo, dizia: “A prisão só não te levou à loucura graças às cartas que você escreveu”. De fato, tenho plena consciência de como foi importante poder escrever cartas, muitas cartas, colocando para fora as minhas reflexões, os meus sentimentos, as minhas emoções.
Depois, quando estive preso, convivendo com presos comuns, tratei de incentivá-los também a escrever seus relatos, isso é realmente muito terapêutico. De fato, O Voo da Locomotiva contém muitas coisas que vivi, muitas coisas que conheci, mas tem algo absolutamente inédito na minha literatura, porque é a primeira vez que utilizo uma voz feminina.
Eu nunca tinha escrito um texto com voz feminina e, evidentemente, tive de fazer um esforço bastante grande para poder usar esse tom de voz, esse sotaque. Também pedi a mulheres amigas minhas que fizessem o teste, como é que isso funciona? É assim mesmo?. E elas aprovaram.
Então, realmente, mostro ali também uma certa psicologia do feminino em uma situação de extremo sofrimento, de sofrimento atroz. Tristão de Ataíde, Alceu Amoroso Lima, que foi muito meu amigo, já no tempo em que eu estava preso, era cronista do Jornal do Brasil.
Ele escreveu uma crônica sobre meu primeiro livro, Cartas da Prisão, na qual chama a atenção para esse detalhe: “Frei Betto tem uma escrita feminina. Ele escreve mais com a pele do que com a cabeça”. E isso é verdade.
Tanto que não consigo escrever direto no computador. Preciso primeiro escrever no papel, à mão, para depois passar para o computador. No computador, não funciona.
O senhor escreve primeiro à mão e se define como um “analfabite”. Como é hoje sua relação com a tecnologia?
Eu sou um analfabite, lido mal. Sei usar o Word, é isso que uso no meu Mac e vou produzindo meus textos. Não sei fazer nenhuma operação mirabolante, como vejo outras pessoas conseguirem repaginar, fazer isso e aquilo. Essas coisas eu não sei e tenho certa preguiça de ir atrás, o que já aprendi me basta.
Em uma passagem, Rosa afirma: “A esquerda mira o futuro e atua no presente alimentada pelo passado”. Qual é o papel da literatura e dessas narrativas na preservação da verdade histórica?
Ali, você deve ter percebido, quis fazer uma autocrítica. Nós, da esquerda, que aderimos à luta armada — eu nunca peguei em armas, mas apoiei aqueles que o fizeram — cometemos vários erros, tanto que fomos derrotados.
Talvez o nosso maior erro tenha sido justamente não priorizar o trabalho de organização popular. Costumo sempre dizer que nós, que enfrentamos a ditadura com armas, tínhamos armas, dinheiro das expropriações bancárias, ideologia e coragem, muitos morreram assassinados nessa luta.
Só não tínhamos um detalhe: apoio popular, só que esse detalhe é 99% de tudo. Nesse romance, faço essa crítica ao dogmatismo que havia na esquerda, àquele excesso de centralismo, até ao culto da personalidade.
A figura do Ninel, o comandante que tem o pseudônimo — e não quero dar spoiler aqui —, remete a isso. Todos nós usávamos pseudônimo, porque, numa situação de luta clandestina, você tem de mudar de nome. É importante que os companheiros e companheiras não saibam o seu verdadeiro nome, quanto menos souberem de você, tanto melhor.
Então, faço também essa crítica ao culto da personalidade e a outros fatores que nos levaram a ser derrotados, embora a nossa luta tenha tido um valor histórico inestimável, porque, graças a ela, conseguimos derrubar a ditadura.
Fomos, por outro lado, vitoriosos, porque a ditadura foi sendo fragilizada, essa fragilização culminou com o movimento do qual também tive, felizmente, a oportunidade de participar muito ativamente: as greves metalúrgicas do ABC, onde eu estava desde 1979, a ditadura foi inteiramente desestabilizada a partir desse movimento operário.
Em outro trecho, Rosa diz: “Nada mais arrebatador do que ser viciada em utopia”. Essa frase também define sua trajetória?
É uma coisa minha, estou convencido disso, costumo dizer isso aos jovens. Quando vou às escolas, eles me perguntam como era a minha geração, quando eu tinha a idade deles, perguntam se havia muita droga.
Eu respondo que havia droga, mas não havia quase drogados, porque éramos uma geração viciada em utopia. A gente não queria mudar a roupa, queria mudar o mundo; não queria mudar só o Brasil, queria mudar o mundo.
Então, a geração de 1968 foi alimentada pela utopia e, até hoje, sou alimentado pela utopia. O que dá sentido à minha existência é essa utopia de lutar por um mundo novo.
Hoje, costumo repetir que sei que não vou participar da colheita, mas faço questão de morrer semente, para que as futuras gerações possam colher.
Em um presente marcado pelo revisionismo e pela tentativa de tratar a ditadura como “revolução”, a utopia também pode ser ameaçada ou apropriada?
Não, o risco é a distopia. Hoje, vivemos um momento de distopia, do inverso da utopia. Fico extremamente preocupado ao ver toda uma juventude que não tem sonho de futuro, de um país ou de uma humanidade melhores; uma juventude que descrê das grandes bandeiras libertárias e está muito centrada no consumismo.
Acho que eles têm uma visão cíclica da história, como os gregos antigos, de que as coisas se repetem. Tanto que há alguns que ontem eram de esquerda, admiravam Marighella e Lamarca, e hoje falam que é preciso exaltar Hitler.
Você vive nessa insegurança por falta de utopia, isso o neoliberalismo conseguiu realmente desmontar. Acho que o problema filosófico número um hoje é a desistoricização do tempo. Quando se consegue tirar o caráter histórico do tempo, as pessoas ficam como barata tonta, não têm perspectiva.
Então, tudo se reduz à luta pela sobrevivência individual. Isso é muito favorecido pelas ferramentas digitais, que alimentam o nosso individualismo e o nosso narcisismo. Elas esgarçam os nossos vínculos comunitários.
Tenho um celular nas mãos e penso que não preciso mais ir ao clube, à associação, ao movimento social, ao sindicato, ao partido. Vou deixando de me associar presencialmente a causas comuns, vou me isolando e me torno facilmente vulnerável à ideologia neoliberal, porque ela acentua o individualismo.
“Cuide da sua vida, dos seus interesses, das suas ambições e ignore esse mundo, porque isso não vai mudar. Sempre foi assim e sempre será assim.” Infelizmente, muitos acreditam nessa distopia.
O senhor escreveu para um livro em memória de Luiz Gushiken, personagem decisivo do primeiro governo Lula cuja trajetória nem sempre recebeu o devido reconhecimento. Como lida com a vaidade e com a preservação dessas memórias?
Primeiro, eu não sou juiz de mim mesmo. Tudo o que vou dizer aqui, qualquer pessoa que me conhece pode dizer: “Não, penso o contrário. Acho que você é uma pessoa muito vaidosa”. É direito das pessoas pensarem isso, como eu penso a respeito de algumas pessoas.
Agora, tenho um lado mineiro muito acentuado, nunca gostei de aparecer. Gosto muito que a minha obra apareça, não a minha pessoa. Durante muitas décadas, até ir para o governo em 2003, quando fui trabalhar no Fome Zero, evitava todos os convites de televisão e de entrevistas em que a minha presença física tivesse de ser projetada.
Dava entrevista para jornal, para revista, mas não para televisão, quando começaram os meios digitais, no início, também evitava. Depois, no governo, não tinha jeito, porque a gente era obrigado a mostrar a cara e se expressar o máximo possível.
Aí fui relaxando, mas creio que não busco situações de projeção. A prova disso é que eu poderia ter continuado no governo. Lula, em todos os seus mandatos, perguntou se eu não gostaria de estar no governo.
Falei com ele que descobri, nos dois anos em que fiquei, que sou um feliz ING, indivíduo não governamental; não tenho vocação nem para a iniciativa privada nem para o serviço público.
O que gosto mesmo é de fazer meu trabalho de base e escrever meus textos. É isso que me faz muito feliz: essas duas dimensões da vida, trabalhar com o movimento popular e escrever.
Isso me basta. Não sei quantos anos ainda vou viver, mas isso me basta. Não busco nada fora disso.
Sua trajetória também está sendo registrada em documentários, entre eles A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam. Como recebe esse movimento de preservação de sua própria memória?
Estão fazendo vários documentários a meu respeito. Três já podem ser encontrados no YouTube. Um é esse a que você se referiu, A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam, um documentário sobre meu trabalho em educação popular.
Há também Os Percursos Literários de Frei Betto, sobre minha obra literária, e Fraternura, um neologismo que cunhei, sobre o olhar da minha família e dos amigos a respeito da minha prisão.
Agora, preparo um quarto documentário sobre as Cartas da Prisão. Todos estão sendo dirigidos por Ivanise Sidal e Américo Freire. Eles foram meus biógrafos, decidiram escrever minha biografia e, depois, tiveram a ideia de transformá-la em vários documentários.
Eu não fiz nenhum esforço para que essas pessoas fizessem os documentários, mas, como acho que isso pode ajudar as novas gerações, ajudar outras pessoas e manter vivo aquele passado tão importante na história da nossa geração, eu deixo.
Não me incomodo, mas realmente não vou atrás, não fico insistindo. Nunca pedi a eles que fizessem esses documentários, nem a biografia. Foi iniciativa deles.
Como o senhor organiza hoje seu trabalho em um ambiente público marcado pela guerra digital, pela desinformação e pelo ódio?
Com muita tranquilidade, porque não tenho redes digitais. Não tenho Facebook, Instagram, TikTok, nada disso. Uso o celular para mensagens, como um telefone sofisticado, e para agenda.
No meu caso, não quero generalizar essa observação crítica, eu consideraria uma perda de tempo ficar ligado nas redes digitais.
Muitas pessoas perguntam como consigo produzir tanta literatura, eu digo que é porque não costumo fazer muitas coisas que outras pessoas fazem. Não costumo ficar horas nas redes digitais, não costumo ir a campo de futebol, não costumo ir para mesa de bar e ficar até 11 horas, meia-noite, conversando.
Aproveito o meu tempo para produzir a minha obra ou fazer os meus trabalhos de base. É isso que realmente priorizo na minha vida.
Como está Cuba hoje?
É uma situação muito trágica, muito difícil, e queria fazer um apelo a todos para aumentarem sua solidariedade a Cuba, é muito importante, neste momento.
O MST, através do Instituto Cultivar, tem feito um trabalho muito importante de enviar medicamentos e alimentos para Cuba. Recomendo que as pessoas contribuam com a chave PIX/CNPJ do Instituto Cultivar: 11.586.301/0001-65.
Quando fizerem uma doação, por exemplo, de R$ 50, acrescentem R$ 0,01, para que o Instituto possa identificar que aquele dinheiro se destina à solidariedade a Cuba.
Trabalho em Cuba há muitos anos, desde 2019, trabalho com a FAO em um programa de soberania alimentar e educação nutricional. A situação é a pior possível em 67 anos de Revolução, devido ao genocídio do bloqueio imposto por Trump.
É um bloqueio que vem desde 1962, do governo Kennedy, mas que foi acirrado pela atuação de Trump, com a asfixia energética do país. Cuba não tem petróleo suficiente para manter o sistema energético e não tem energia hidráulica; Cuba não é como o Brasil, atravessado por rios e cachoeiras.
O que mantém o sistema elétrico é a energia movida a petróleo, e esse petróleo é importado. Cuba produz um pouco, o suficiente para gerar 40 mil barris, mas consome 100 mil barris por dia. Há um déficit de 60 mil barris.
Daí os sucessivos apagões, a desorganização da sociedade cubana. Praticamente, nas grandes cidades, você não vê transporte coletivo.
O que mais dói no coração é ver, nos aeroportos, grande quantidade de medicamentos, de ajuda humanitária e alimentos chegando, mas que não podem sair de Havana porque não há combustível para abastecer os caminhões.
Esse problema tem sido minorado, não na proporção necessária, pelas placas fotovoltaicas doadas pelos chineses. A China tem cooperado muito com Cuba na busca de fontes alternativas de energia, mas ainda é insuficiente para resolver os graves problemas do país.
O resultado é uma grande inflação, alimentos muito caros, salários muito baixos, êxodo de jovens. A população, de 2019, da Covid para cá, decresceu em pelo menos um milhão e meio de pessoas, eram 11 milhões; agora são nove milhões e meio.
Há situações terríveis. Nos anos 1980, quando comecei a ir a Cuba, os Estados Unidos tinham um índice de nove crianças mortas antes de completar um ano em cada mil nascidas vivas, a Suécia tinha sete, Cuba tinha três. Hoje, Cuba tem nove.
Há um crescimento da mortalidade infantil e pobreza e desigualdade social, que vêm se acentuando. Muitos cubanos têm parentes no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, e esses têm uma situação de vida um pouco melhor do que aqueles que vivem exclusivamente de seu salário cubano.
O governo tem tomado providências para encontrar uma saída, acaba de aprovar 176 novas medidas econômicas, em um processo de desestatização da economia e abertura para o capital estrangeiro, inclusive para bancos.
A grosso modo, eu chamaria isso de vietnamização da economia cubana. Agora, isso não vai funcionar do dia para a noite. É preciso tempo, e nem sabemos quais investidores estarão realmente interessados em investir em Cuba, devido às precaríssimas condições em que o país vive e ao aperto dos Estados Unidos.
Um banco que opera com Cuba não pode operar com os Estados Unidos. Um navio que aporta em Cuba não pode aportar nos Estados Unidos, é uma situação muito trágica, que exige de todos nós muita solidariedade, porque é um povo digno, criativo, culto, que conquistou algo que nenhum outro país da América Latina conquistou: sua total independência e soberania frente aos Estados Unidos.
E mais: é o único povo da América Latina que assegura ao conjunto da população os três direitos humanos fundamentais, que são alimentação, saúde e educação. Isso é uma exigência estrutural e constitucional de Cuba.
Os cortes de ajuda humanitária e de programas de saúde atingiram o trabalho que o senhor realiza com a FAO em Cuba?
Por enquanto, não afetou. O problema é que nosso trabalho é um pingo d’água no oceano. Por mais que ele avance, precisaria de muito mais recursos e muito mais iniciativas para ter resultado.
Cuba também carrega o legado de equívocos que a própria Revolução cometeu no passado ou de medidas tomadas sem prever as consequências.
Por exemplo, Cuba é um país em que toda a escolaridade é gratuita e de alta qualidade. Os camponeses receberam terra na Reforma Agrária Cubana, ao contrário do que muita gente pensa, o campo cubano não é totalmente estatizado, há áreas estatizadas, áreas de cooperativas, mas muitas áreas de pequenas propriedades.
Os filhos desses camponeses foram para a universidade e não voltaram para o campo, porque se tornaram engenheiros, economistas, médicos e foram para a cidade, tudo bem, se Cuba tivesse tecnologia rural, mas não tem. Esse é um problema.
Embora Cuba seja o único país agricultável do Caribe, nenhum outro tem tanta terra quanto Cuba, não consegue suprir as necessidades de seu consumo imediato. Precisa importar 80% dos alimentos, o que é terrível para a balança comercial do país, ainda mais agora, com o bloqueio acirrado por Trump.
Como vê o futuro diante da política dos Estados Unidos e o que espera das eleições legislativas de novembro?
Espero que o Partido Democrata tenha maioria no Congresso a partir de novembro. Espero muito isso, porque será uma catástrofe para o mundo, a questão não é só Cuba, é o mundo que está sendo agredido por esse mega terrorista chamado Donald Trump.
É uma questão mundial. Um homem que tem obsessão por guerras, tanto que mudou o nome do Pentágono para Ministério da Guerra, não teve nenhum pudor em fazer isso.
Como disse outro dia uma figura dos Estados Unidos, Trump merece, sim, o Prêmio Nobel da Paz, porque é o único presidente que acabou com a mesma guerra mais de dez vezes, todo dia ele diz que vai assinar um acordo.
Os Estados Unidos não aprendem. Foram derrotados no Vietnã, foram derrotados no Afeganistão, praticamente foram derrotados no Iraque e agora estão sendo derrotados pelo Irã, embora sejam a maior potência bélica da história da humanidade.
Trump achava que ia dar um passeio no Irã, derrubar o governo e instalar ali uma democracia burguesa, nada disso tem o menor sinal de que vai acontecer.
O que os brasileiros que vivem no exterior podem fazer para apoiar o povo cubano e contribuir com a defesa da democracia no Brasil?
A primeira coisa é votar em Lula para manter a democracia no Brasil, porque qualquer outra alternativa põe em risco a nossa frágil democracia.
Então, faço esse apelo: vamos votar em Lula. Por mais críticas que possamos fazer ao governo dele, é melhor ele do que qualquer outro candidato.
Segundo, seria muito importante intensificar a solidariedade a Cuba. Existe, por exemplo, um sistema de solidariedade internacional chamado Cátedra José Martí. É importante se organizarem também em função dessa solidariedade a Cuba.
Para os leitores que vivem fora do país, por quais de seus livros recomenda começar? Existe algum pelo qual tenha uma afeição especial?
Livro favorito é difícil, porque é como perguntar a uma mãe ou a um pai qual, entre seus oito filhos, é o favorito. Cada um tem a sua história.
Mas há livros meus que tiveram muito impacto e que, apesar de passarem os anos e as décadas, perduram. Um deles é Batismo de Sangue, que está no YouTube como filme acessível.
Também os documentários que citei estão acessíveis pelo YouTube, Batismo de Sangue, dirigido por Helvécio Ratton, mostra bem o que foi o período da ditadura. Esse livro continua vendendo desde 1985.
Outro é Fidel e a Religião, um livro traduzido em 23 idiomas e publicado em 33 países, em que, pela primeira vez, um chefe de Estado no poder fala positivamente da religião, é um livro de muito impacto.
Tenho uma afeição especial pelos meus romances, gosto muito dos romances que escrevi, como A Aldeia do Silêncio, que vai na contramão do que vivemos hoje, desse mundo ruidoso, e fala sobre o total silêncio.
Gosto também de Tom Vermelho do Verde, em que descrevo o massacre dos indígenas na Amazônia pela ditadura, e agora de O Voo da Locomotiva.
Tenho muita afeição por esses romances e pelos contos também. Basta entrar em freibetto.org para ver a lista de livros e como adquiri-los. Mesmo no exterior, eles chegam em casa pelo correio. Todos os meus livros têm e-book.
No caso da minha livraria virtual, há mais o livro físico, mas, localizando a editora, é fácil obter o e-book.
Sua obra também inclui livros voltados às crianças. O que o levou a escrever para esse público?
Tenho literatura infantil, vários livros. Tenho livro de culinária para criança aprender a cozinhar sem usar fogo e faca, tenho um livro para lidar com a questão da morte, um tema difícil de tratar com crianças, e enfrentei esse desafio em Começo, Meio e Fim.
Recentemente, terminei uma tetralogia sobre os quatro evangelhos, uma reinterpretação dos evangelhos para fazer frente a essa onda fundamentalista no cristianismo, tanto na Igreja Católica quanto nas igrejas protestantes.
É uma revisão, uma releitura dos evangelhos, publicada pela Vozes. Tudo tem e-book. No site, vocês vão encontrar uma vastidão de livros sobre vários temas.
Serviço
O Voo da Locomotiva
Autor: Frei Betto
Editora: Rocco
Ano: 2026
160 páginas
Formato: 14 x 21 cm
Disponível em livro físico e em versão digital
