O marco “Bad Bunny”: Show em espanhol bateu recorde de audiência entre latinos, celebrou a cultura latino-americana e provocou reação de Donald Trump

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Bad Bunny no intervalo do Super Bowl 2026, show em espanhol que bateu recorde de audiência entre o público latino e impulsionou alta de mais de 120% no streaming
Foto: Reprodução/X@NFL

O show do intervalo do Super Bowl comandado por Bad Bunny neste domingo (8) entrou para a história não apenas pelos números (recorde de audiência entre o público latino nos Estados Unidos), mas pelo que colocou no centro do maior palco da televisão americana: exaltação da cultura latina e um forte e simbólico “seguimos aqui”, dito ao final da apresentação.

Conduzida inteiramente em espanhol, a apresentação de Bad Bunny, com participações de Lady Gaga e Ricky Martin, foi uma afirmação de valorização da cultura latino-americana no cotidiano dos Estados Unidos, desde a música até a alimentação, em um momento de prisões, deportações e expulsões de imigrantes promovidas pelo ICE sob a política defendida por Donald Trump.

Nos minutos finais, Bad Bunny chamou uma criança identificada como ex-detida por operações migratórias, momento que se tornou um dos mais compartilhados nas redes sociais.

Após a única mensagem em inglês de toda a noite: “God bless America”, a frase que sempre marcou o imperialismo dos Estados Unidos até mesmo perante a “Deus”, foi dita seguida de um cortejo de bandeiras e nomes de países latino-americanos ditos pelo cantor.

'Seguimos aqui': Bad Bunny faz do Super Bowl uma afirmação latina; Trump chama de ‘desrespeito'
Ao final, Bad Bunny gritou “God Bless America”, seguido por um cortejo animado com bandeiras latino-americanas enquanto listava o nome de cada país ali representado
Foto: Reprodução/X@NFL

Sangue latino: os números da apresentação

Segundo dados divulgados pela NFL e repercutidos por veículos como The New York TimesBillboard, o show registrou o maior índice de audiência já medido entre o público latino nos Estados Unidos durante um halftime show, com picos de engajamento nas faixas etárias entre 18 e 49 anos.

Plataformas digitais também apontaram crescimento expressivo: o Spotify informou aumento superior a 120% nas execuções do repertório apresentado nas horas seguintes ao evento, enquanto vídeos oficiais do show ultrapassaram dezenas de milhões de visualizações em menos de 24 horas.

Sem concessões

New York Times definiu a apresentação como “um marco cultural em um momento de tensão migratória nos Estados Unidos”, enquanto o Washington Post ressaltou que o show ocorreu “sob o pano de fundo de operações intensificadas do ICE e da retórica anti-imigração defendida por Donald Trump”.

Para a Variety, a opção “rompeu a lógica histórica do Super Bowl como vitrine exclusivamente anglófona”. Já a Rolling Stone destacou que o artista “ocupou o centro do entretenimento norte-americano sem diluir identidade cultural”.

Em Porto Rico, jornal El Nuevo Día destacou a apresentação como “uma afirmação histórica da identidade porto-riquenha diante do público global”, ressaltando o fato de o show ter sido conduzido integralmente em espanhol e de Bad Bunny ter levado ao palco símbolos ligados à diáspora e à experiência migratória da ilha.

O rapper porto-riquenho Residente afirmou que o show foi “um ato de dignidade cultural em um país que insiste em marginalizar quem fala espanhol”. 

Ricky Martin, que participou da apresentação, definiu o momento como “uma celebração da história e da resistência cultural de Porto Rico”. A cantora Lady Gaga publicou registros do espetáculo destacando a “força artística e simbólica de dividir o palco com uma cultura que molda os Estados Unidos”.

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Lady Gaga participa do show do intervalo do Super Bowl ao lado de Bad Bunny, em apresentação que celebrou a cultura latino-americana e marcou recorde de audiência entre o público latino nos Estados Unidos
Foto: Reprodução/X@NFL

Para Trump, um “desrespeito”

Horas após o espetáculo, o presidente Donald Trump publicou críticas nas redes sociais, afirmando que a apresentação foi “desrespeitosa” ao país e que “o Super Bowl não deve ser usado para esse tipo de mensagem”.

Porto Rico, terra de Bunny, vive há décadas sob um regime de restrições econômicas e administrativas impostas por Washington, que limitam sua autonomia política e financeira.

A ilha é submetida à Lei Jones, que encarece importações e exportações, e desde 2016 está sob a tutela de uma junta federal de controle fiscal, criada após a crise da dívida pública, com poder para impor cortes orçamentários e reformas sem consulta popular.

Esse arranjo, uma forma de sanção permanente, afeta serviços públicos, estimula a migração forçada de porto-riquenhos para o território continental dos EUA.

De Vega Baja ao mundo

Você provavelmente já ouviu Bad Bunny antes mesmo de saber quem ele era. Pode ter sido Tití Me Preguntó tocando em alguma festa, Yo Perreo Sola atravessando a pandemia ou Un Verano Sin Ti dominando playlists, praias, rádios e rankings mundo afora. O nome artístico virou onipresente, mas a trajetória é mais política do que parece e vem de bem antes do Super Bowl.

Nascido Benito Antonio Martínez Ocasio, em 1994, em Vega Baja, Porto Rico, Bad Bunny se tornou, em menos de uma década, o artista latino de maior alcance global da era do streaming. Desde o impacto inicial de Soy Peor, em 2017, construiu uma carreira baseada em um princípio simples e raro na indústria pop norte-americana: não traduzir a si mesmo e cantar na própria língua,

Álbuns como X 100PREYHLQMDLGEl Último Tour del Mundo e Un Verano Sin Ti quebraram recordes sucessivos, lideraram a Billboard 200 e empurraram a música em espanhol para o topo do mercado global.

Em 2023, Bad Bunny se tornou o primeiro artista latino a vencer o Grammy de Álbum do Ano, um marco que a indústria levou décadas para admitir.